O desfralde nosso de cada dia

(pic: elizabeth pfaff – flickr)

“Traz uma cueca dele amanhã pra gente mostrar na roda”. E assim o coração da mãe aqui se encheu de esperança ao vislumbrar um desfralde ali na esquina.

Veja bem, nossa empolgação não é pelo desfralde em si, por ele estar crescendo, por mais essa novidade e de como será, etc. Então eu começo a achar que só o primeiro filho tem esse luxo. Afinal é uma descoberta para todos os envolvidos da casa: mãe, pai e filho estão entendendo esse processo, como ele pode acontecer e cada passo desse caminho.

Dali em diante, pode ser apenas uma questão de economia. Pelo menos é a sensação agora, aqui em casa. Claro que a gente se empolga e se emociona com cada nova experiência do Totom, mas algumas emoções acabam misturadas com um pouco de vida prática. As vezes fico me perguntando se estamos sendo mais frios com ele, outras acho que tudo bem e que a vida é assim mesmo.

O desfralde do Gabriel foi super rápido e tranquilo. Um dia levamos a cueca na escola, noutro ele passou o dia todo sem fraldas, no terceiro já não vazou nenhum xixi. E assim foi. Sem muitos sustos. Só uma vez que ele entrou correndo no quarto, calças arriadas, dizendo que o gato tinha feito cocô no chão da sala. Até hoje, fingimos que acreditamos. Achávamos que ia demorar, por culpa nossa. Sempre esquecíamos de perguntar se ele queria fazer xixi, se queria ir ao banheiro, se tinha vontade de fazer cocô, essas coisas que os adultos em geral fazem de 15 em 15 minutos num “desfraldante”. Inconscientemente ele devia perceber esse vacilo nosso e acabava sempre pedindo, indicando, ou indo por conta própria numa árvore ou matinho. “Temos nosso próprio tempo”, disse Renato Russo. E como isso é importante de ser respeitado.

Foi a professora do Tomás quem pediu as cuecas do começo desse texto. Então, nos demos conta de que ele ainda não tinha. Na pressa, acabei lavando bem e mandando as mesmas que foram as primeiras do Gabriel. Ele demorou dias pra usar. E depois de um dia ou dois de sucesso, voltou cheio de amor para as fraldas. Veio o frio, e essa não é uma época muito agradável para uma experiência dessas – temos suas exceções, como em tudo nessa vida fanfarrona. Não estamos com pressa que ele largue delas, nem que ele cresça, nem que ele atropele seu tempo. Estamos apenas ansiosos em tirar esse custo do nosso orçamento. Simples assim. Mas, adultos que somos, trancamos a pressão numa gaveta bem guardadinha e a transformamos em muito amor, apoio e compreensão.

Em tempos de crise forte e trabalho escasso, o bolso reclama. Mas ele vai ter que esperar, porque nós podemos recuperá-lo, mas os efeitos de um desfralde precoce, fora do momento certo e movido por pura ansiedade e necessidade dos pais, pode ser traumático pra todos nós.

** Tá passando pelo desfralde pela primeira vez? Quer umas dicas? Dr Daniel Becker tem um vídeo legal no Criar e Crescer.

Sobre como afastamos nossas crianças da empatia

Empatia, dentre outras coisas, é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Compreender e, assim, acolher suas emoções e sentimentos. Hoje, estamos a anos-luz de uma sociedade empática. Ao mesmo tempo que nunca falou-se tanto sobre como ela é importante para a conexão entre as pessoas e a educação emocional de nossas crianças.

O ser humano nasce com essa capacidade. Somos nós, adultos, que os afastamos dela. Nós mesmos, que depois exigimos tanta compreensão das crianças, jovens e adultos ao nosso redor. Nós mesmos, que temos a capacidade de entender que o mundo precisa de mais união e senso de coletividade. Nós mesmos, que depois acusamos uns aos outros por não sermos compreensivos, e saímos a procura de um conforto que não existirá sem a empatia.

Há algum tempo, pipocou na interwebs um vídeo de um garoto americano que foi tomar uma injeção – não sei se era vacina ou medicação. O menino estava visivelmente apreensivo. O pai, tentando lhe dar apoio, repetia insistentemente para ele não chorar, que ele era um menino grande e, ao final, o fez repetir “Sou homem”.

Compartilhamentos fazendo alusão à fofurice do vídeo. Em mim a reação foi completamente diferente. Me bateu uma tristeza profunda. Aquele menino absorveu tantos conceitos tortos naqueles 2 minutos… A ideia de que homem não chora, o machismo, a falta total de carinho do pai, o distanciamento emocional. A cara dele segurando o choro, o esforço, é de cortar o coração. Os adultos entenderam tudo errado e enalteceram a atitude do pai, em direção totalmente oposta a qualquer sentimento de compaixão e carinho por aquela criança.

Essa semana, novamente, apoiamos soluções paliativas carregadas de individualismo, rancor e desconexão. Apareceu na internet uma foto de dois irmãos dentro de uma camiseta enorme – a “camiseta da união”. Muita gente compartilhou com coraçõeszinhos, comentários de fofurice ou “vou arrumar uma dessa” – considerando aplicar a mesma técnica de educação dentro de casa.

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Sério mesmo mundão? Irmãos brigam o tempo todo. É natural. Entendo que queremos que eles se amem, que saibam que existe uma ligação intensa ali. Desejamos fortemente que eles se apoiem e sejam unidos. Mas acredito que essa é uma conexão criada a partir de momentos de amor e raiva. De tapas e beijos mesmo. Eles também precisam aprender a respeitar o espaço de cada um. Não tem o menor problema que não queiram se abraçar logo após uma briga. Precisam se acalmar, digerir, refletir, dar um tempo. Não é assim conosco muitas vezes?

Em um minuto de reflexão, podemos rever nosso comportamento em relação a essas situações. Antes de compartilhar, de achar fofo, de usar algumas “técnicas” em casa, coloque-se no lugar dessas crianças. Quando você discute com alguém, gostaria de ficar preso numa camiseta gigante com essa pessoa? Ser obrigado a dizer que ama num momento de raiva? Pedir desculpas sem ter refletido sobre o que aconteceu?

Preferimos seguir afastando nossas crianças em prol de compartilhamentos e likes ou conectá-las com o próximo preservando-as e acolhendo-as? Por enquanto, temos sido seres humanos horríveis.

*Se quiser ver o vídeo do garoto da vacina, procure. Não acho saudável compartilhar essas coisas.

*Em relação à foto, tirei o rosto das crianças. Numa pesquisa rápida no Google Imagens com “Get Along Shirt” (essa “técnica” veio dos EUA), você verá fotos de crianças sempre tristes, bravas, com raiva. Além de tudo, os pais ainda acham legal expor seus filhos nessa situação. Lamentável, mundo, lamentável.

#MaternagemDesabafa

A gente aqui é mãe tentante sabe. Mãe que tenta um estilo de educação com conexão. Mãe que tenta uma alimentação mais saudável. Mãe que tenta fugir de artifícios tecnológicos como TV e iPads. Mãe que tenta estar sempre disponível para brincadeiras. Mãe que tenta almoçar e jantar junto nos horários das crias. Mãe que tenta estar de bom humor em toda aula de natação do bebê. Mãe que curte levar e buscar na escola. Mãe que pensa em passeios, programas, brincadeiras etc.

Mas a real é que em todos os dias, todos, todinhos mesmo, sempre tem aquele momento de respirar fundo, pegar no tranco e ir. De cavar lá no fundo da noite mal dormida, das contas mal pagas, dos canos de ferro do apartamento velho que despejam água amarela, dos vômitos de pêlo de gato, da luz do tanque de gasolina acesa, da conta no vermelho, do freela que ainda não foi pago, das duas únicas botas sem sola e os tênis furados, das inseguranças, da solidão da maternagem, do papel chato de dona de casa, do papel chato de profissional, da vontade zero de brincar.

Sendo assim, aqui a gente também é mãe cansada. Mãe cansada do escândalo por conta de uma banana que se quebra antes da primeira mordida. Mãe cansada dos puxões que o rabo do gato leva. Mãe cansada de toda santa vez ter que escovar os dentes pedindo pra abrir a boca igual ao Homem de Ferro ou Capitão América ou Hulk ou Thor. Mãe cansada de toda fucking hora de sair de casa ter que ficar caçando filho pra colocar o sapato e ir “tocando ovelha” até chegar na escola/natação/praça/padaria/parque. Mãe cansada de inventar história e música para a soneca da tarde, da noite, da madrugada. Mãe cansada de ter que fingir que está tudo bem porque afinal “quem mandou ter filho”. Mãe cansada de ouvir que é exagerada ou radical ou “tem certeza?” ou “mas e se…”. Mãe cansada de ser questionada. Mãe cansada de ter que ter justificativa para toda e qualquer escolha que seja diferente de outra mãe. Mãe cansada que quando deixa as crias pra dormir na avó morre de saudades e tira cochilo na cama dos filhos, cheirando roupa e abraçando o travesseiro.

Mãe cansada de quem acha que mãe que reclama, não gosta de ser mãe ou de ter filho ou de exercer essa função fucking maravilhosa todo santo dia, 24 horas por dia, nesse job eterno, com o cachê mais bem pago do universo.

Primeira carta aos meus filhos

(Foto Otavio Sousa – papai)

Meninos,

Vocês não precisam dar beijo quando não querem. Não precisam abraçar ou serem abraçados quando não querem. Vocês não precisam sentar no colo de ninguém se não estão afim. Não são obrigados a tocar ou serem tocados por nenhuma outra pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. Isso inclui a mim e a seu pai. Nós também não podemos invadir o espaço que é de vocês – e o seu corpo é só seu.

Não deixem que os adultos confundam vocês exigindo respeito em forma de beijos, abraços, carinhos. E não confundam também.

Respeito é essencial. Devemos respeitar a todos. Mas ele não envolve contato físico. E respeito a vocês mesmos é tão importante quanto à qualquer outro ser humano.

Respeito envolve não abraçar quem não quer abraçar vocês. Não beijar, não tocar, não brincar nem brigar. Respeito também significa empatizar ao perceber um amigo passando por uma situação na qual ele não está confortável ou seguro. Meus amores, se alguém tentar violar seu espaço, seu corpo, seu emocional, sua cabeça… Se vocês perceberem um amigx numa situação dessas… Por favor… Espero que eu consiga mostrar no dia a dia como podem agir para se defenderem e ao próximo. Como é de direito de vocês exigirem respeito ao próprio corpo, às suas vontades. Como é importante que interfiram quando presenciarem o desrespeito à outras pessoas. Segurem quem estiver agindo desta forma e façam com que a situação pare.

Nessa história toda, temos um agravante horroroso, meninos. O machismo, a misogenia. Essas palavras feias e difíceis estão presentes até mesmo em quem é vítima delas. Protejam suas amigas, as mulheres a sua volta. Vocês são privilegiados. Nunca se esqueçam disso. São homens e brancos. Eu sei que é complicado entender, mas apenas esses dois detalhes os colocam automaticamente nesta posição. Um privilégio injusto. Então, finquem raízes onde devemos estar. Fiquem ao lado das mulheres, dos homossexuais, negros, pobres, índios, imigrantes, dos doentes, das crianças.

Nunca esqueçam as mulheres maravilhosas e fortes que vocês tem na sua vida – eu, Tia Pi, Vovó Lus, Vovó Cida, Tia Cá, suas primas Alice, Julia e Catarina, a Claudia, a MariaRita e inúmeras outras. Não esqueçam do dia em que fomos ao casamento do André e do Eric e como vocês correram felizes pela sala deles, como vocês adoram comer pipoca e dormir naquela cama enorme. Continuem cumprimentando os moradores de rua. Da sua primeira “tatuagem”, Gabriel, de super-heróis e piratas feita pela Ju com as canetinhas trazidas pela namorada dela. Totom, do amor e carinho e respeito enorme que a Francisca, negra, pobre e doente tem por você. Gá, lembra como foi lindo quando você perdeu o medo do Arthur e entregou a massinha pra ele? Autismo, Down e tantas outras condições não são motivos de afastamento, pelo contrário.

Esses são alguns fragmentos da vida de vocês que destaco para que entendam, mais uma vez, como são privilegiados. Desta vez, a palavra vem com outro significado. Temos muita sorte em conviver com tanta diversidade. E respeitá-las, amá-las e querer tê-las por perto e em segurança sempre. É rico demais esse universo, meus amores. Não deixem que tirem isso de todos nós, seres humanos. Não deixem que aprisionem quem vocês são. Nem quem são os outros. E essa é uma luta diária, que se dá, inclusive, nos detalhes.

Nunca, jamais façam piadas sexistas. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem riam de uma. Nunca, jamais se refiram a uma mulher com termos pejorativos como “puta”, “vadia” e tantos outros. Nunca, jamais aceitem de boca fechada um desrespeito pelo outro. E lembrem-se, nem sempre a pessoa que está sendo desrespeitada entende o que está realmente acontecendo. É esse o absurdo de sociedade na qual vivemos nestes anos. Muitas mulheres e homens foram criados dentro do contexto machista, e, sem saber, replicam essas atitudes. Eles não tem culpa, e vocês podem ajudá-los a entender.

Sempre, o tempo todo, peçam desculpas ao perceberem que passaram de algum limite. Que erraram. Que desrespeitaram. Quantas vezes a mamãe pede pra vocês? Pedir desculpas não é motivo de vergonha, não é humilhante, não te coloca em posição vulnerável. Pedir desculpas de verdade é para os fortes, filhos. Sejam fortes.

Nunca, meninos, jamais sejam coniventes com o machismo. Nem na sua forma mais disfarçada. Ele é traiçoeiro e pode te enganar. Fiquem atentos. Se policiem. Com um pouco mais de sorte, isso não será difícil e sim natural.

Me repreendam se algum dia eu escorregar. Essa é uma batalha que luto diariamente.

São infintos os motivos que me fizeram chorar na semana passada. E amanhã eu vou pra Paulista, me juntar ao que espero ser uma multidão. Lutar pelo feminismo, pela liberdade, pelo respeito. Vocês não vão. Eu queria levá-los, mas não estou preparada. Respeito meu tempo e o de vocês. Sintam orgulho das mulheres, filhos. E, nesse momento, vergonha dos homens.

pequenos diálogos – gabriel

O interfone toca. Gabriel e Tomás saem correndo. Desde que Gabriel conseguiu alcançar o aparelho, virou o atendedor oficial de interfone aqui em casa. Cumprimenta o porteiro, pergunta quem chegou e diz que pode subir. Não antes sem perguntar “Vai falar com a mamãe?”. Me passa o fone e volta aos seus afazeres de construir castelos.

A campanhia toca. É MariaRita (aqui em casa é assim que a chamamos, num nome só, corrido: mariarita), a fisioterapeuta respiratória que acompanha o Tomás desde a alta da UTI em 2014. Os meninos adoram ela, que é presença constante aqui em casa – e no orçamento mensal – de março a setembro, quando a conta clima + cidade grande fecha, literalmente, a respiração do mais novo.

Os dois correm para porta, só Gabriel alcança a maçaneta e tem coordenação para abrí-la. Mariarita entra e, como sempre, se abaixa pra falar com eles. Gabriel se afasta. Estranhamos. Então, ele diz:

– “Minha voz está com problemas.”

– “Ah é?”, pergunta mariarita, “E o que ela tem?”

– “Ela está em inglês.”, dá de ombros como quem diz que não pode fazer nada e corre para montar seu castelo.

O Dia das Mães não é nada, o começo da vida é tudo.

Eu não vou falar sobre o Dia das Mães, tamanha a importância que esse dia tem na minha vida. (Que é nenhuma.) Eu vou é falar de algo infinitamente mais relevante: o começo da vida. Ele mesmo.

Curiosamente, tive bons Dias das Mães. Ano passado ganhei uma tatuagem, esse ano fui ao cinema com o Otavio e vimos esse documentário maravilhoso. O Começo da Vida.

Pra ser bem clara no quão necessário se faz esse filme, enquanto assistia pensei “porque não passam isso na tv da maternidade?”. Poderia ser receitado pelo obstetra. Ou até vir de brinde naquela maletinha do merchandise que você ganha quando sai recém parida, com shampoo Johnson e baby wipes da Turma da Mônica. Afinal, são coisas que bebê precisa.

Veja, coisas que bebê precisa são respeito, conexão, cuidado, amor. O resto é rotina.

Como muitos disseram, o filme é essencial. Traz reflexões importantes, sensíveis, urgentes. Só que eu não consigo falar muito sobre ele.

começodavida

Me encontro, há alguns anos, num momento emocional muito intenso, um processo profundo de auto-conhecimento. Revisitas e reencontros com a minha história. Reflexos e descobertas importantes. Enormes. Desconstruções, inversão de verdades, de relações. Muitas e muitas memórias, lembranças, novas realidades.

O tempo todo, na sala de cinema, me vi conversando com o começo da vida. Falamos sobre eu e minha maternagem, confusa, julgada, cobrada. Como ela pode incomodar, atrapalhar. A sociedade não sabe lidar com mães. Não nos acolhe.

Eu-criança também estava lá. Eu-mulher, eu-cidadã, eu-feminista. Todas “eu” estávamos lá.

Olhava pra tela e conversava comigo. Passaram flashes na minha cabeça de momentos, pessoas, situações. Tudo que estava ali, finalmente problematizado. Olhava meu umbigo e ele crescia, já não cabia mais só em mim.

Minhas gravidezes, a tranquila e a difícil, meus puerpérios solitários, a descoberta da sororidade, o empoderamento no prédio ocupado do centro.

Gabriel, Tomás e seu ambiente, nossa relação, nossa rotina, nossos cansaços e conquistas. Seus amigos, sua escola, suas relações sociais e como somos, no geral, sortudos nesse aspecto. Mas é impossível ficar passivo ao continuar esse caminho e chegar nas crianças que não tem sonho. Que não tem café-da-manhã. Que não tem pais. E como isso tudo é um desaforo.

Nossa sociedade é burra e pequena. Mas nada esta perdido, apenas esquecido, egoisticamente deixado pra lá. Substituído pelo ego e pela ganância do ser humano e seu desrespeito a si próprio.

Saí de lá gigante. Saí de lá com uma missão.

Estamos formando a humanidade, cara!

E no fim das contas, descobri que achava difícil falar sobre o documentário porque todas nós, mães, e nossos filhos, somos “O Começo da Vida”. Somos este filme. Todos os dias.

** No site do filme tem a lista das salas de exibição em todo o País. E você também pode organizar uma sessão pelo VideoCamp. Não tem desculpa pra não ver. **

 

 

#milnoites A famosa rotina do sono

Uma das primeiras descobertas foi que a tal rotina do sono funciona mesmo. E faz diferença sim. E meus filhos – o mais velho em especial – precisam e gostam dela.

Quando ele era bebê, percebemos que lá pelas 19h30/20h Gabriel sempre dormia. Ainda que acordasse logo mais as 23h ou meia-noite para mamar, era um horário ótimo para que ele fosse pra cama quando emendasse a noite toda. Começamos então a esboçar uma rotina do sono que nos agradasse.

Lá pelas sete era hora do banho, bem calmo, tranquilo. O banheiro já com uma luz mais baixa. Depois íamos até a janela (era verão) para dar “tchau” pro dia e lembrar tudo o que tínhamos feito, locais por onde passamos, pessoas que vimos. Sempre falando mais suave, calmamente, sem excitação. É um momento de “baixar a bola” como diz o Otavio. Depois disso, mamá e historinha até dormir. No colo. Gabriel dormiu embalado no colo até passar pra cama.

Dito e feito. Ser tem coisa que esses livros que mais parecem manuais de robotizar bebês acertaram foi na tal rotina noturna. Em pouco tempo, Gabriel dormia por volta das 20h e só acordava pra mamar. Até hoje é assim. A rotina vai mudando conforme ele cresce e o horário já é um pouco mais tarde. Mas se passa das 21h, ele mesmo levanta e fala que “quer mamá” – código para “estou com sono e quero dormir”.

Tomás não teve muita escolha, como provavelmente a maioria dos segundos, terceiros, quartos (afe!) filhos. Veio em forma de tranquilidade e jamais questionou com choros o horário, a rotina, a maneira, nada. Pelo contrário. Totom não quis ser embalado por muito tempo, passou pra cama antes que conseguisse entrar e sair dela sozinho, dispensou a chupeta sem crise… Mas só parou de acordar a noite quando desmamou mesmo.

Sim. Tentamos acostumá-los a dormir com barulho, sem a casa calma, com luzes acesas e etc. Tudo o que muita gente diz que precisa ser feito para que eles se acostumem a dormir em qualquer lugar. Mas nós não pensamos assim. Simplesmente porque nós mesmos não gostamos de dormir nessas condições. E não nos sentimos confortáveis em fazer isso com eles. Tentamos, só que o Gabriel não é essa pessoa. O Totom sim. Dorme em qualquer lugar, com qualquer barulho, quase em qualquer posição. Se ele tem sono, vem pro colo, se aninha, reclama um pouco e apaga. Sério. A-PA-GA. Gabriel não. Gosta de dormir na cama, no escuro, em um ambiente calmo. E nós respeitamos isso. Não nos importamos nem um pouco. Sono pra gente é coisa sagrada. Eu amo dormir e entendo que preciso respeitar as pessoas que eles são. E essas pessoas são diferentes.

É difícil, é cansativo, mas é muito pior quando por alguma razão, um não dorme bem. O que vem depois é mais difícil – pra mim e, principalmente, pra eles. Hoje em dia, eventualmente, Gabriel até consegue dormir em outros lugares, com outros sons, luzes e agitação. Tudo tem seu tempo.

Afinal, sono é igual gosto: cada um tem o seu, não?

PS – Nenhuma criança aqui foi objeto da experiência de deixar chorar até dormir ou qualquer outra forma absurda de “treino” do sono. Até hoje, eu, Otavio ou nós dois ficamos no quarto com eles até que durmam. Tranquilamente e de maneira que se sintam seguros e conectados.

Santa ceia, Batman!

Macarrão do Hulk, do Homem de Ferro, frango do Falcão, carne moída de cocô, peixinho com pum de minhoca, arroz de lagartixa… Temos uma lista infinita de pratos pitorescos aqui em casa.
Já tive – e ainda tenho – muitas crises com a alimentação deles. Agora me encontro em uma fase um pouco mais tranquila. O lema por aqui nesses tempos tem sido que o importante é a qualidade e não a quantidade.

Refeições lúdicas ajudam os meus dias a serem mais tranquilos – e os deles mais divertidos. Macarrão do Hulk é com espinafre e eles sabem disso. Mas é muito mais gostoso ser do Hulk, verde e deixar forte do que “come esse espinafre que faz bem e deixa forte”. Também é lindo comer no esconderijo (embaixo da mesa de jantar), fazer piquenique na sala, comer no colo, comer com a mão ou com 4 colheres, comer comendo ou fazendo bocão de super-herói, dinossauro e dragão. Uma avó faz lua de pêra e de maçã – cheia, minguante, crescente – e mantém o estoque de castanhas e uva passas cheio, a outra traz manga e melancia nos degraus da escada ou piquenique na laje. São construções de memórias lindas misturadas com uma educação alimentar leve, simples e feliz.

Já encanei que eles precisavam saber exatamente a cara de tudo. Até pratinhos com divisões eu arrumei, só que eles não comiam nada fora do arroz, feijão e filé de frango/carne/peixe. Nenhum leguminho. Nada de cenoura, chuchu, mandioquinha que até então iam bem, misturados na comida. Hoje resolvo isso levando-os para fazer as compras no sacolão, feira e hortifruti. Eles sabem a cara de tudo cru, natural e que fica bom na comida. Depois eu vejo como fazer pra comerem uma cenourinha fora do macarrão do Homem de Ferro ou da carne moída de cocô.

Agora que Tomás fez 2 anos, montamos um calendário e pintamos os finais de semana de verde. No dia verde pode muita coisa. Pode sorvete, bolo, pipoca, brigadeiro, bolacha maisena… – embora o lance ainda seja a qualidade, a quantidade aqui importa. Produtos caseiros, sorvetes artesanais, bolo da vovó… Um pedaço, quatro brigadeiros, uma vez em cada dia. Produtos processados e falsos demais ainda ficam fora. Biscoitos recheados, danoninhos, refrigerantes e afins continuam fora do cardápio eternamente enquanto dure.
Assim vamos levando. Tem dias que eles mal comem, outros de encher o bucho e repetir o prato.

Queremos uma alimentação boa, de qualidade e já estressamos enormemente por conta disso. Vamos buscando um caminho mais leve e desencanamos de tentar fazer o mundo entender e comprar essa ideia. De super-herói em super-herói, de comida nojenta em comida nojenta a gente chega lá.

#milmanhãs “Acordei! Eba!”

Tomás acordou e eu ouvi lá da minha cama um “Acodei! Eba!”. Tem como não amar? Olhei no relógio. Nem seis e meia da matina ainda.

“Tá didia, mamãe. Tá didia!” O que antes era uma pergunta, agora já vem em tom de “pode levantar”.

Os meninos acordam muito cedo. Todos os dias e every single fucking day da semana. Não importa a horas que durmam, nem se é sábado, domingo, feriado.

Eles levantam cedo e cedo se entediam de ficar dentro de casa. Enquanto eu e o Otavio demoramos a funcionar, as 07h30 eles já estão cansados do nada. Gabriel mais que o Tomás – provavelmente por uma questão da idade. E ele verbaliza muitas vezes:

“Gentchí! Gêêênti! Vamos sair?” ou

“O que vamos fazer hoje? E depois? E depois?” ou

“Onde vamos depois do café? E depois? E depois?” ou

“Mãe, preciso trocar de roupa.”.

Tem também o método fofo:

“Mamãe, já tá didia?”, mesmo sabendo que:

“Sim, Gabriel, já tá didia mas isso não significa que a gente não possa dormir mais um pouquinho, filho. Vem.”

Em vão. Sempre. Cem porcento das vezes.

Agora que já não são mais tão bebês, chegam a emendar até umas 07h30, uma vez – exceção – foram até as 08h. Então que um de nós, as vezes os dois, se arrasta da cama até o sofá da sala e tenta mais meia horinha de dorme-acorda-dorme-acorda enquanto eles leem livros ou brincam. Até que bate a fome e começa o coro da bananinha.

“Quero uma bananinha, mamãe.”

“Bananinha! Bananinha! Bananinha!”

Gabriel, mais experiente que o irmão, as vezes lança um

“Vamos tomar café, gêntchi?”

É o código pra “levanta essa bunda do sofá e ‘bora que o dia começou”.

Então já sabemos, especialmente aos finais de semana, que o lance é sair pra rua. Tomar sol ou chuva. Procurar parque, praça, Paulista fechada ou café da manhã na feirinha orgânica. Era um sofrimento que hoje, pensando bem, é maravilhoso. A gente está mais saudável, a gente curte melhor com eles, a família sai de casa. Porque se dependesse dos pais, tadicas dessas crianças.

Essa é uma das coisas que aprendemos aqui em casa quando entendemos que não, seu filho não vai se adaptar a sua vida antiga. Nem você vai mudar a sua vida por causa dele. O grande barato é criar uma vida nova, para todos. Não é maravilhoso?

Eu não sei, mas seu filho sabe…

Então que eu descobri um talento inesperado em mim. O de fazer crianças dormirem. Não sei como. Mas talvez seu filho saiba.

Não me refiro aos meus filhos, pois é sabido que – embora eles durmam geralmente bem – houveram momentos de sofrência em todas as partes envolvidas no processo.

Claro que tenho algumas manhas, e uso e abuso delas. Gabriel já chegou numa idade em que percebe o caminho em que estou o levando e, as vezes, tenta se safar. Geralmente são nesses dias que descubro novas ferramentas. Uma história, uma música, um mantra, um carinho naquele pedacinho da cabeça…

Todos temos nosso ponto fraco. Aquele que o sono, por mais que tente, não consegue vencer. Eu durmo tirando a sobrancelha. Com pinça. Sim. É relaxante. Massagem no pé. Filme chato. Livros que tenham muitos personagens. Ou que dão voltas e não chegam a lugar algum. Qualquer deitadinha que venha seguida da “dor de alívio” (aquela dor de cansaço na base das costas que é ruim, mas é boa sabe?). Chá, vinho, maconha. Essas e muitas outras são armadilhas contra a insônia hoje em dia. É ruim de eu não dormir viu! O maior remédio? Dois filhos. Assim, bem seguidinho. Sem tempo de pensar.

Ora! Crianças são seres humanos. É de se esperar que o que serve pra mim, pode ser reaproveitado, com algumas modificações, para elas.

No começo do ano, fiz a Alice de 1 ano e 9 meses capotar no aniversário da mãe dela. Os meus nem pensaram em dormir, mas a pequena apagou e minha amiga ficou liberada para curtir uma taça de vinho e a visita dos amigos.

Depois um bebê. Coisica mais fofa e linda. Não dormia. A mãe, também amiga, anda exausta. Mais uma na onda escadinha e tem dois meninos pra driblar na hora do sono. Então que depois de o Pedro passar pelo colo do pai, da mãe e do carrinho, arrisquei. Naquele dia em especial, eu andava com saudade de um bebezinho – agora que o meu deixa, aos poucos, as fraldas.

Peguei o bebê. Dei uma pequena volta pelo parquinho, cantei uma música que inventei e que embalava o Gabriel nos seus primeiros meses. Batata!

Entenda. Passei a vida correndo de criança. Tinha certeza de que todas não iam com a minha cara e eu, também, não ia lá muito com a cara melequenta e babada delas. A primeira vez que fiquei sozinha com um bebê foi com a minha sobrinha. Ela tinha uns 8 meses e eu fiquei de babá. Pela primeira vez. Durante os 10 minutos iniciais,a vida estava linda. Ao escorrer a primeira gota de lágrima, meu mundo – e o dela – caiu. Como chorou a pequena! E eu desesperada porque não fazia a menor ideia do que aquele serzinho precisava.

Então fiz o que qualquer adulto sem experiência com bebês faria. Sentei e chorei. Depois troquei a fralda (que estava limpa). A coloquei, aos prantos, no carrinho. E, tentando aparentar calma, empurrei pra frente e pra trás durante o que me pareceu uma eternidade. Até que ela dormiu. E eu estava exausta. Não tinha passado nem uma hora.

Esse final de semana me senti um ser humano muito evoluído. Bebês não são tããããão difíceis de se fazer dormir quanto uma criança de 3 anos. O Gabriel dá muito, mas muito mais trabalho do que o Tomás. Se não estiver tudo escuro e quieto, esquece.

Aconteceu um churrasco e já acordei no modo zen, sabendo que ele não dormiria nem a pau e que nós daríamos um jeito de lidar com o gênio indomável que a falta da soneca da tarde traz. Eram muitas crianças, música alta, agitação, festa, bagunça. “Deixa ele curtir!”.

Levamos colchões para casos específicos, como o Tomás e um amiguinho febril que pudesse capotar. No meio da tarde, toda a garotada de 3 anos estava com sono, mas só uma tinha se rendido.

Num daqueles momentos de “cadê meu filho?”, dou de cara com Gabriel e seu melhor amigo deitados num dos colchões aparentemente conversando. Fui até lá ver se estava tudo bem. Joguei um verde e a colheita foi incrível. Nocaute em duas crianças. De três anos.

E foi assim que eu me senti o Fabio Puentes, aquele cara que hipnotiza as pessoas na tv, fala “bem dormido, bem dormido” e faz com que elas comam cebola achando que é maçã.