Ensaio sobre a comida

“Quando eu me tornei essa pessoa?” Tipo de pensamento que ocorre sempre que você se percebe fazendo alguma coisa que não fazia, até mesmo que jurava que jamais iria fazer.

Cozinhar, por exemplo.

Quando fui morar sozinha vivia a base de macarrão com molho pronto ou arroz branco com caldo knorr acompanhado de um filé de frango congelado da sadia que eu achava que era super light e saudável porque era feito no forno e não frito. Hashtag só que não.

Eu trabalhava muito. E em horários que só sendo jovem e solteira eu aguentei. Tem gente que ‘guenta por bem mais tempo, tem gente que não larga essa vida por nada, tem gente que largou mais cedo que eu. Ok. Ok. Ok. Cada um…

Fato é que eu não tinha tempo mas também nunca fui muito chegada no fogão. Sempre gostei de comer bem, mas nunca pensei em fazer comida. Não sei exatamente quando foi que descobri que abrir uma garrafa de vinho, bater papo e cozinhar era gostoso. Mas, ainda bem, eventualmente eu descobri.

Então passei a cozinhar vez ou outra pra mim, vez ou outra pra mim e pro namorado, cheguei até a arriscar vez ou outra e fazer alguma coisa para poucos amigos. Não sou um talento, mas quebro um galho.

Um dia eu engravidei. E durante a gravidez nem me passou pela cabeça que aquele serzinho teria que comer. E que ele não ia nascer já com dentes e um paladar bacana para compartilhar a mesma refeição que eu. Também foi quando eu assisti “Muito Além do Peso”*. E quando coloquei em mim mesma a missão de ajudar o pequeno feijão da barriga a saber comer bem, saber escolher, saber experimentar.

Vocês sabiam que isso é quase uma guerra? São muitas as batalhas. A primeira delas foi eu comigo mesma. Me preparar, entender como fazer isso, aprender que papinhas não são apenas legumes cozidos e amassados sem sal e sem graça, ou que, na natureza, elas não vem em potinhos fofos. Aprendi a ler rótulos e que caldo knorr é um veneno pro corpo e pra alma.

Quando o feijão nasceu e completou seis meses, uma labuta sem fim de barriga no fogão começou. Eu não queria dar comida pronta. Eu não queria dar purezinho de legumes insosso todos os dias. Me fudi, mas era a minha escolha e eu tive que bancar. Taí uma das grandes tarefas de ser mãe: bancar as escolhas que você faz para seus feijões.

Essa ainda é uma pequena batalha pra mim. O pequeno tesão que eu estava descobrindo em cozinhar morreu. Virou obrigação, virou função, passou a ter horários, rotinas. Virou estrela e apagou.

As outras batalhas são aparentemente menores, mas muito mais chatas. Porque o mundo, meus amigos, o mundo não perdoa. E poucos ajudam.

Os mais velhos, aqueles mesmos que insistem em nos ensinar como a paciência é uma virtude e que é importante saber esperar a hora das coisas, esquecem disso tudo rapidinho e ficam malucos para apresentar doces, bolos, danoninhos, pirulitos e outras besteiras desnecessárias aos pequenos seres humanos que nem em pé ficam. É claro que eles vão comer tudo de bom e de ruim que tem nesse planeta, mas não precisa ser agora. Já. Os bebês são eles, não vocês. Lidem com essa urgência besta.

Quem não tem filhos, acha um exagero. E adora repetir histórias que contém a frase “eu fiz/comigo foi assim e não morri”. Assumo que já fui dessas. Ainda bem que o mundo gira, ideias e conceitos são revistos e podemos mudar e trazer novas experiências para nossas vidas, não é mesmo?

Quem tem e já são grandes, desdenha. Como se sua experiência fosse mais válida e ele um ser superior porque “já passou por isso e sabe bem como é”. “Mas relaxa!” eles dizem.

Eu relaxo sim. No meu tempo. Na hora em que eu me sentir confortável com a ideia de dar comidas com ingredientes de nomes compridos e que não fazem nenhum sentido. Porque isso vai rolar sim. Eu sei, não precisa me contar. Eu não nasci pra tanto. Admiro quem quer e consegue. Mas eu não consigo e não quero e sei que uma hora isso tudo vai passar e eles vão se fartar de boberagens por ai. Como ontem, que jantaram pipoca, pãozinho de cachorro quente com o molhinho de tomate da salsicha e brigadeiro.

Fiquemos tranquilos. Tenhamos mais empatia.

Seremos todos felizes.

* ASSISTA!

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