Me engoliu. Eu gosto de ser mãe dos meus filhos.

us3A chegada dos meninos na minha vida teve um impacto enorme. E todo aquele clichê. Por mais que eu fuja, é inegável.

Vamos assumir. É transformador, é intenso, é lindo, é uma experiência fora do corpo. É um puta trampo e é bom demais.

Mas não foi sublime pra mim. Não foi esse retrato romântico que pintam por ai. Para a mãe do Gabriel e do Tomás não foi sublime, não foi romântico, não foi fácil. Me engoliu. Eu gosto de ser mãe dos meus filhos.

É transformador porque eu saí da pessoa que eu era e me tornei uma que nunca imaginei. E corri de assumir isso porque não tenho paciência nem humor para o “eu te disse” nem para os olhares de “ai que saco, mais uma dessas”.

Apenas porque eu não sou. Não sou mais uma dessas e não, você não me disse. Simplesmente porque você não saberia. Você teve a sua transformação e eu a minha. E cada uma é diferente por uma série de fatores, isso é óbvio. Me irritaria ter que explicar isso. Então não vou, eu sei que você pode entender.

O mundo materno está cheio de verdades absolutas e pouca empatia. Muita experiência e poucas mãos dadas. Muito julgamento e pouca mão na massa.

É lindo uma mãe que consegue alimentar seus filhos só com alimentos orgânicos, comida feita por ela ou pelo pai, ela trabalha, ela arruma a casa, ela não tem ajuda, ela não terceiriza, ela teve parto natural em casa, ela amamentou até os 2 anos… Gente! Ela é perfeita! Ela coloca todas nós, imperfeitas, no papel de menos mãe. E essa é uma carapuça muito fácil de vestir quando você descobre que junto com aquele bebê lindo, fofo e com cheirinho de leite nasce também uma culpa. É inerente. Vem no pacote. Não é possível ter um sem ter o outro. E cada mulher vai lidar com isso da sua maneira. Umas mais dramáticas, umas fingindo que ela não existe, umas tentando negociar com ela… Mas ela ta lá.

Ela não é católica, ela não é exclusividade das judias, ela não é frescura, ela não é TPM. Ela é culpa porque ela é aquela voz pentelha na sua cabeça perguntando o tempo todo se o que você está fazendo é o melhor para seu bebê? e pra você? E pro pai? E pro mundo? É o que a perfeitinha faria? É o oposto que aquela mãe que você acha um horror faria? Dá pra ser melhor que isso? Você explorou todas as possibilidades?

Essa mãe que faz tudo sozinha sem ajuda de ninguém da maneira perfeita não existe. E ela é muito sacana de fazer você acreditar que é possível. Não é. E não precisa ser.

E é por isso que eu não sou uma dessas. É por isso que você não pode dizer que me disse. Porque você tem a sua experiência, você faz e convive e banca e lida com as suas escolhas. E é lindo e difícil!

Eu também tenho que fazer isso.

Muito ajuda quem compartilha histórias, não verdades, quem abre para uma nova maneira de ver as coisas ao invés de argumentar que “sempre foi assim e deu certo”. Muito ajuda quem lava a louça acumulada da pia, enquanto você, exausta, dorme. Muito ajuda quem não julga e enche sua geladeira de congelados quando você chega da maternidade. Muito ajuda quem não pergunta, mas ouve. E escuta. Muito ajuda quem diz que você pode ter um parto possível, e que pode não ser o da sua escolha. E tudo bem, vai ser lindo mesmo assim. Muito ajuda quem não busca doutrinar, ou ensinar, ou afirmar, mas sim acolher, conhecer, olhar pro outro com os olhos do outro e não os seus.

Eu tenho certeza que a perfeitinha tem um pouco de realidade na vida dela. Ela não compartilha, ela não mostra. Talvez porque ela não queira, talvez porque ela não goste, talvez porque ela precise se sentir perfeita.

Mas talvez, só talvez, porque ela esteja sofrendo dessa pressão moderna que chegou para acumular com a culpa. Daquele olhar reprovador quando você senta no restaurante e coloca “Pocoyo” no celular pro seu filho quando ele termina de comer, enquanto você come.

Eles podem ver TV. Eles podem dormir sem tomar banho – inclusive mais de um dia seguido. Você vai dormir sem tomar banho – as vezes mais de um dia seguido. A perfeitinha também, não se iluda. Tudo bem se seu bebê dorme as 20h, tudo bem também se ele dorme a meia noite. Se ele dorme de dia ou não. Se você embala ou não. Se compartilha cama ou não.

Desde que ele esteja feliz e saudável, tudo, absolutamente tudo, em moderação não causa nenhum mal irreparável na sua criança. Porque você, desde que não seja um monstro*, é, antes de mãe, humana.

*( monstro bate, monstro assusta, monstro negligencia, monstro abandona, monstro não exerce papel de mãe/pai de maneira saudável e não violenta)

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