Da relação entre obediência e respeito

Foto: Marketa (CreativeCommons)
Foto: Marketa (CreativeCommons)

“Quando mamãe deixou de ser modelo de obediência, as crianças deixaram de ser submissas (…) Isso significa que mamãe deixou de dar aos filhos o exemplo da submissão. Isso é progresso.

(…) As crianças estão simplesmente seguindo os exemplos que observam ao seu redor. Elas também querem ser tratadas com dignidade e respeito.”

Jane Nelsen – Disciplina Positiva

“Manners — treating people with respect and care — is different than demanding physical displays of affection.”

Katia Hetter – I don’t own my child’s body

Um dos meus maiores defeitos é não me sentir segura com minha intuição. Nem sempre eu a sigo. Algumas vezes me arrependo, outras não. No entanto, quando faço uma escolha baseada na intuição apenas, me sinto coagiada por mim mesma a ter explicações coerentes e ponderadas caso alguém questione minha decisão. Ou tente me convencer a tomar outro caminho. Ou mesmo, “apenas” insista que eu deveria pensar melhor.

As pessoas tem essa mania. De achar que você precisa pensar melhor sobre isso. Elas sequer sabem quanto tempo você gastou para chegar até ali. E na verdade não importa, porque não é isso que vai determinar se sua opção é melhor ou pior. Ainda assim, existe dentro de mim essa necessidade estúpida de achar que tenho que estar preparada para defender minhas escolhas. Não tenho – nem que estar preparada, nem que defender.

No pouco tempo que estou no papel de mãe, minha insegurança com relação ao que fazemos na criação dos meninos bateram recordes impressionantes. Embora muita intuição tenha sido seguida, pesquisar, ler, embasar a coitada virou uma paranoia. Essa coisa do empoderamento (ufa!) acabou de chegar pra mim. Demorei para achar no meu teclado o botãozinho do “aham, senta lá claudia”.

Nunca entendi, por exemplo, o paralelo entre respeito e obediência. Sempre tive pra mim que obediência vem de coisas como o medo, a falta de respeito, o descontrole. Não quero criar pessoas obedientes, e sim homens empoderados, respeitosos e carinhosos. É importante que saibam que respeito não é “fazer a vossa vontade”. Não quero que eles abracem alguém que não estão afim. Não quero que entendam que demonstrações de afeto são mandatórias. Que achem que devem permitir serem tocados, ou tocar outras pessoas, quando não se sentem disponíveis a isso. Quero que o façam, sempre, por instinto, vontade, por um sentimento genuíno e honesto.

Essa era uma das escolhas que fiz e que não sabia explicar exatamente o porquê. Me sentia balançando em uma ponte entre seguir meu instinto e criá-los assim ou dar meia volta e fazer como sempre foi com todos nós – porque, claro, se eu não sei porque quero assim, provavelmente é porque assim não é certo e/ou legal.

Até que me caíram nas mãos as duas leituras que reproduzo trechos ali em cima. E gente! Que óbvio! Claro! Jamais será possível e saudável que as crianças de hoje, criadas pelas crianças que nós fomos, sejam submissas dessa maneira. Nunca falou-se tanto sobre a palavra-chave “empoderamento”, sobre slogans como “meu corpo, minhas regras”. São os netos de uma geração que lutou pela liberdade de expressão. São pequenos seres que não terão o mesmo entendimento sobre submissão. Palavrinha que para nossas avós era parte intrínseca dos relacionamentos, que para as nossas mães significava desrespeito a mulher, que para a minha geração é palavrão. Pro Gabriel e pro Tomás, talvez ela sequer exista! Imagina que belezura! Eles podem ser a primeira geração a ter que olhar no dicionário o significado da malditinha. Talvez a estudem nas aulas de história, a ouçam nos ditados de português (a velha pegadinha de ç ou dois esses) ou até mesmo em estudos do meio nas aulas de ciências (devem existir seres vivos submissos a outros na natureza).

Isso não é muito maravilhoso? Submissão, o termo e tudo o que essa palavra causa, entraria em extinção. Com ela fora da jogada, o respeito retoma seu valor. Deixa de ser gratuito, desmerecido, fácil de se ter. Passa a ser realmente conquistado, verdadeiramente reconhecido. Nem o dólar ou o euro valeriam tanto quanto ele. A continuação desse caminho é a igualdade, que, como bem coloca Jane Nelsen, “não significa “o mesmo”. Quatro moedas de 25 centavos e uma nota de um dólar são muito diferentes, embora tenham o mesmo valor.”

Que sopro de liberdade no meu coração. Mais uma inspiração para continuar meu caminho instintivamente. E não vou mentir, fiquei ainda mais obcecada em explorar as mil (boas) maneiras de maternar.

O meu motor 3.8

10agostoQuando descobri o Tomás aqui dentro, um pensamento – dentre tantos – me atormentava. “Agora que meu corpo ia voltar a ser meu!!!”. Eu já tinha perdido todos os quilos que ganhei na gravidez do Gabriel – então com um ano, sua amamentação seguia firme e forte mas com menos frequência, estava começando a retomar a vida de trabalho, sair com amigos, já poderia fazer algum exercício se quisesse, estava cabendo em roupas que sentia saudades de usar… Mais importante, estava me reconhecendo no espelho. Com alguns fios de cabelos brancos e umas ruguinhas novas, mas estava ali. Inteira. Depois de 2 anos.

#Soquenao.

Lá vinha tudo de novo.

IMG_4988Barrigão, enjôos, restrições alimentares, cansaço, micro xixis que nos fazem levantar a madrugada inteira, intestino preso, fomes fora de hora, a busca pela posição para dormir, sentar, andar, comer, tomar banho. E, no caso da gestação do Tomás, tudo isso ainda mais intenso por conta do risco, do repouso forçado de meses deitada.

Depois que essa coisica linda e guerreira nasceu, superou todos os perrengues que o desafiaram assim que chegou nesse mundão-de-meu-deus e a amamentação parou naturalmente, eu pensei que – iuhú – teria meu corpo de volta.

#Soquenao.

Anos atrás, numa Era pré-Tomás, o Gabriel quebrou o único espelho da casa. Um dia viajamos e no hotel tinha um espelho. De corpo inteiro. Quando eu me olhei ali, não me reconheci.

De 2012 pra cá eu tirei de mim duas delícias e um útero. No espaço que ficou, outras fisiologias se formaram. São novas dores, algumas em lugares nunca imagináveis. Dores nas costas, braços, pernas, nessa dobra aqui, nesse local especifico ali. Pés cansados. O cabelo lindo que a gestação trouxe, revelou-se ainda mais rebelde depois de tudo. Ele também mudou. A pele, aquela coisa incrível que os hormônios nos dão, desenhando – literalmente – as noites não dormidas, a batalha da amamentação de um, os dias de uti do outro, toda a montanha russa de emoções e inseguranças dos últimos anos. A cicatriz na barriga, a pochetinha eterna que agora me habita.

Todas as tradicionais tentativas de resolver ganhos de peso, inchaços que pesam nas pernas, alongamentos para melhorar as costas e a flexibilidade se tornaram inúteis. Tudo isso mudou. O tempo deste corpo é outro. Não basta mais uma semaninha pra pancinha sumir pro biquíni. Não basta cortar o álcool pra cara inchada parecer mais saudável. Não bastam 8 raras horas de sono ininterruptos para sentir-se numa nova carcaça.

É um novo corpo. É um corpo que sente tudo isso, mas não reclama.

Captura de Tela 2015-09-24 às 11.03.44É um corpo feliz. Ele olha para o peito novo e lembra de como alimentou e fortaleceu a vida. Ele se estende no chão para esticar-se e espreguiçar-se e ganha de presente dois pesos deliciosos em cima fazendo montinho. Fecha os olhos na cama achando que vai dormir, mas deixa os ouvidos bem atentos – especialmente quando passa o barulhento caminhão de lixo, as chuvas fortes com trovoadas, as febres, cólicas e gases. Se encolhe todo para entrar no esconderijo atrás do sofá ou embaixo da mesa. É o corpo que caminha na Sumaré porque sabe que vai ter que jogar bola, correr na praça, entrar na piscina, dançar a música do Leão, levar pra escola de cavalinho e trazer voando como um foguete. Carregar dois pesos de ouro, muitas vezes ao mesmo tempo, no enorme colo que agora tem.

É um corpo que tem novas prioridades. E ele nem precisou da cabeça para descobrir isso. Só do coração.

A natureza é linda demais.

Sobre pintos, xoxotas e gêneros

Gabriel descobriu o pinto. E descobriu que, assim como ele tem pinto, outras pessoas também tem. Só que a mamãe não tem. “A mamãe tem xoxota e o Gabriel tem pinto.” Essa frase é repetida diariamente na hora do banho – tomamos todos juntos aqui em casa, é uma maravilha! Se está no chuveiro com o pai a frase é “Você também tem pinto papai?”.

Quando essa história começou, expliquei pra ele que tem gente no mundo que tem pinto e tem gente que tem xoxota. Então começamos uma lista: papai tem pinto, mamãe tem xoxota, Totom tem pinto, Tia Pi tem xoxota, o leão tem pinto, a leoa tem xoxota… e assim seguimos. Ele adora dizer que meu pinto está escondido dentro da minha xoxota e faz essa mesma observação para todas as pessoas que tem xoxota.

Dividir isso com alguns amigos num jantar foi divertido. Tivemos risadas e mais vinho. Mas também uma certa polemicazinha: o fato de que eu explico pra ele que existem pessoas com pinto e pessoas com xoxota. Eu não disse o tradicional: mulher tem isso e homem tem aquilo.

A primeira vez que tocamos nesse assunto eu usei “gente” e “pessoa” sem querer. Depois cheguei a conclusão de que eu não preciso ligar os pontos pra ele. Mesmo porque, acho que fica mais orgânico o entendimento dos diferentes gêneros se nunca houver o rótulo.

Um amigo não concordou. Acha que mulher tem isso e homem tem aquilo e que, quando for necessário, explica-se que aquela pessoa trocou isso por aquilo ou aquilo por isso.

Minha ingenuidade (talvez) me leva a crer que vem chegando uma geração que não terá muita paciência para algumas explicações. Eles aprendem muito rápido. Na minha cabeça, essa intencionalidade de não diferenciar gêneros não atrapalha o claro entendimento de que a maioria das mulheres com quem ele convive tem xoxota e também, espero, não causará estranhamento quando ele descobrir que a Thammy Miranda também tem.

Captura de Tela 2015-09-16 às 15.55.00
Foto: Instagram Thammy Miranda

Vislumbro um mundo onde Caitlyn Jenner não precisaria se expor num reality show, pois o fato de ser transgênero não será mais visto como algo fora da casinha. A polêmica caminha pela outra mão: quem é retrógrado e pensa que homem é homem, mulher é mulher e o resto é coisa de vagabundo maldito é que vai sofrer as consequências de suas mentes fechadas e opiniões sem fundamento – ou, em alguns casos, fundamentadas em pensamentos e teorias de séculos atrás.

Foto: Annie Leibovitz para Vanity Fair
Caitlyn Jenner Foto: Annie Leibovitz /Vanity Fair

Esse ser humano que duramente não aceita as pessoas “diferentes” não percebe que está se tornando ele o que não se encaixa mais na sociedade moderna? (pós-moderna? Uber-moderna? Alguém sabe?).

Não me diga que isso é utópico. Não me traga essa tristeza. Entenda que não falo de amanhã nem do ano que vem. Mas imagino que quando Gabriel e Tomás forem adultos, se nós enchermos essa geração de conceitos de amor, paz, união e – especialmente – empoderamento e empatia, talvez até mesmo os herdeiros dos herdeiros dos herdeiros dos Malafaias e Bolsonaros tenham salvação.

“Ter filho homem é: Treinar a esquiva 24hs por dia.”

VLUU L100, M100 / Samsung L100, M100Li isso no facebook de uma amiga esses dias. Ri e concordei. Não sei se é exclusividade de menino. E acho que pode ser uma coisa de fase, independente de gênero.

Assim como acho que existem meninos mais tranquilos, devem ter meninas mais agressivas e que curtem tabefes, chutes, mordidas com a mesma intensidade. Mães de meninas, o que vocês me dizem?

Eu tenho dois meninos em casa. Um que se expressa bastante com muito choro e perigosas expressões corporais, outro que é mais bravo porém mais comedido. Enquanto o mais velho tem crises de xilique, choros incontroláveis, berros de leão, rosto vermelho de raiva, e – claro – tapas, chutes e mordidas, o caçula dá poucos e certeiros tapas, nos presenteia com expressões faciais que não escondem o quão puto ele está e pratica arremesso de brinquedos.

São pequenos ainda, e tudo isso pode mudar. Por enquanto tem sido mais fácil pra mim lidar com o bravo. Ele fica puto. Eu entendo a putisse. Ele extravasa de maneira mais focada e as vezes me pego pensando se quando ele for mais velho terá interessantes e objetivas formas de expor seus sentimentos e opiniões. Será que ele vai ser mais racional? Não penso se isso é bom ou ruim, porque isso depende dele. De como ele vai se sentir mais confortável e seguro ao se expor – eu estarei ao lado dele, e espero que assim possa ser sua parceira de escuta. Vejo nele um pouco de quem sou hoje. Mais ponderada, porém não menos brava.
Me pego assustada com o mais velho. Me vejo imensamente nele. Percebo dentro dele toda a raiva que já tive em mim e, de novo como ele, nunca soube muito bem como externa-la. Fico tranquila ao ver que ele a coloca pra fora, não guarda, não esconde, não a alimenta, e preocupada quando vejo que vem tão intensamente em sua forma física colocando a ele e a mim, pai e irmão sob o risco de se machucar.

Justamente por tanta identificação nesse comportamento, procurei novas e diferentes formas de lidar isso. Quero que ele se livre das maneiras perigosas e encontre outras mais saudáveis de se livrar disso (mais pra frente, a escolha de um esporte deverá ajudar) e entender como posso ser uma facilitadora nesse processo. Uma das primeiras novidades, antes mesmo de ele ter idade pra tanto, foi a escuta do choro. Vou captando comportamentos que sei que podem culminar numa explosão, aparentemente, sem sentido e quando consigo perceber um encontro entre esse momento e meu estado emocional disponível, levo ele para outro cômodo and let the cry begin! Com o tempo, já consigo discernir algumas vezes o choro que precisa ser escutado, e também me dou a liberdade de não escutar quando não me sinto emocionalmente bem ou paciente. É importante a disponibilidade e entrega nessa relação, até porque nem sempre acho que a escuta funciona e talvez não seja a melhor alternativa para todas as famílias. Fomos testando e entendendo aqui em casa. Com a terapia, esses momentos se tornaram ainda mais possíveis – pois que eu tenho a minha parceria de escuta também.

Muitas vezes o choro para antes que aquele bichinho tenha ido embora por completo, as vezes para porque ele, exausto, dorme, outras porque eu acabo me desconectando no meio do processo…

Isso aconteceu esse final de semana. Ele precisava, eu me disponibilizei. Ele se debateu, gritou. Ele quis me morder, me bater, me chutar. Gritou coisas pra mim que sei que não são dele. Foi intenso demais e acabei dando um grito no meio. No instante seguinte eu já estava me chicoteando internamente por isso e procurei retomar a conexão. A partir dali também deixei de estar tão passiva. Ele suava demais então comecei, mesmo contra a sua vontade, a tirar sua roupa. Até que ele pediu pra ficar pelado, e cada peça que eu tirava, mais calmo ele ficava. Começou a aceitar o colo. Chamou pelo pai que estava viajando. O choro foi diminuindo, virando um soluço e ele se acalmando.

Então encostou a cabeça no meu ombro e disse: “Eu não quero morder as pessoas, mamãe”. “Eu sei”, respondi segurando o meu choro e abraçando-o firmemente. Ele pediu pra dormir. Deitamos juntos (“aqui seu espacinho mamãe”), vesti nele um moletom limpo, meias e cueca. Contamos histórias, demos abraços e beijos e então ele quis levantar e ir brincar na sala. Exausta, quem dormiu fui eu.

Uma das coisas de ser mãe é que você nunca sabe se aquele caminho é o certo. Mas entendi ali que as vezes podemos saber quando não é o errado. Estamos num caminho bom.

“Vou te dar um toque, as pessoas acham que você virou mãe.”

Minhas manhãs quando o trabalho não é home office

Não consigo tirar essa frase da cabeça. Escutei ela no domingo quando encontrei uma amiga na livraria. Eu com meus meninos, ela com o menino dela.

Eu mãe, ela mãe. As pessoas que “acham que eu virei mãe” são mães e pais. Eu recebo isso com preocupação. Entendo no comentário das pessoas uma exclusão.

Fiquei com isso martelando alguns dias. O que quer dizer? As pessoas que falaram isso são amigos de trabalho. Acham que não voltei a trabalhar? Mas não me ligaram perguntando, estariam eles apenas supondo?

Primeira gravação do Gabriel.
Primeira gravação do Gabriel.

Eu emendei um filho no outro. A diferença entre eles é curta e a bola de neve de acontecimentos entre a chegada do Gabriel e o momento de poder colocar o Tomás na escola realmente não me permitiu trabalhar no que eu fazia antes. Nem da maneira que fazia antes. E a verdade é que eu também não queria – não quero.

Ainda assim, eu entendo como um comentário preconceituoso. Daquelas atitudes que temos e nem percebemos, sabe? “Eu não vejo problema nenhum/não tenho nada contra/acho normal, mas ela virou mãe.”

Se colocou o “mas”, meu amigo, é porque você vê problema sim! Você apenas não quer olhar pra ele.

Tomás making the living desde bebê
Tomás making the living.

Eu virei mãe mesmo. Super! De maneira mais intensa que jamais imaginei. Na primeira gravidez tinha certeza de que aquele serzinho que se adaptaria ao nosso estilo de vida e não o inverso.

Isso aconteceu de fato. Mas aconteceu também que nosso estilo de vida mudou. Eu tive, ainda tenho na verdade, muita dificuldade em entender isso. Não faria sentido que alguém de fora entendesse.

Só sei que não quero mais levar a vida que tinha antes e que era linda. Minhas vontades mudaram. Simples assim. Mas me assusta uma sociedade que ainda entende a mulher que tem vontade de passar tempo com os filhos como “virou mãe…”.

sonequinha na Globosat

Pessoal, eu continuo trabalhando, eu continuo curtindo muitas das mesmas coisas de sempre. Mas sabe o que é muito mais legal? Eu faço tudo isso com eles, meus parceiros de existência, que não me julgam e me aceitam por inteiro. Até mesmo quando eu os deixo na escola ou na casa de uma das avós para poder trabalhar, ver um show, jantar com o marido, tomar café com as amigas. Ser as outras coisas que eu também sou.

Eu faço tudo isso com uma frequência menor, mas é por opção viu! Não lamente. Foi uma escolha difícil e muito feliz que eu fiz. A consequência desse caminho é trabalhar ainda menos num momento onde todos no Brasil estão trabalhando muito menos por outras razões que não “virou mãe…”. Logo nosso pequeno dinheirinho fica focado em outros investimentos que diminuem a possibilidade de jantar fora com o marido, tomar café com as amigas, ver todos os shows que gostaria.

A gente ainda está entendendo esse equilíbrio. Chegamos na superfície há pouco tempo. Foi um longo, intenso e lindo mergulho que demos três anos atrás. Agora estamos tirando a cabeça da água. Respirando e absorvendo tudo. Podemos olhar em volta para entender nossa nova realidade. E escolhemos fazer isso com calma.

Não é possível voltar a vida anterior. Ainda bem.

Rehan e Marissa: o que suas escolhas nos dizem sobre o mundo

Captura de Tela 2015-09-03 às 22.01.55Foi uma semana intensa nesse mundão. Dentre tantas coisas tristes e que fogem à minha compreensão, duas me abalaram profundamente. E dizem muito sobre o mundo em que vivemos e o triste buraco onde podemos acabar.

Acordamos um dia com a foto que virou símbolo da guerra. A imagem que chocou a nós, que estamos longe do “front” e que vemos, do conforto do lar, o horror que aquelas famílias estão passando. Eu não entendo nada. Eu não entendo a guerra – nenhuma delas -, não entendo exatamente pelo o quê eles brigam, e acho que nem eles. Suspeito que cada um entra nessa por algum interesse extraordinariamente egoísta e que são todos seres sem alma, sem vida.

Soube que tem mais fotos de outras crianças. Não quero vê-las, e, sim!, me sinto culpada por elas. Pelas mortes daquelas crianças.

Chocou a nós porque, infelizmentessíssimamente, esse menino não foi o primeiro nem será o último. Mas quem está ali, seja fugindo, seja ajudando voluntariamente, seja fazendo parte do lado escroto de tudo isso, convive com essa e outras cenas tão ou mais chocantes, tristes, horrorosas.

Depois fiquei sabendo da história da CEO do Yahoo, Marissa Mayer, que anunciou a gravidez de gêmeas e aproveitou para tornar público o fato de que não vai tirar por completo a licença maternidade a que tem direito. Pretende voltar ao trabalho antes. Mais precisamente catorze dias depois do parto. “Se afastar por tempo limitado e trabalhar durante a gravidez”.

Bom, “trabalhar durante a gravidez” não é mérito nenhum dela. Mulher grávida não é mulher doente. Temos as exceções em gravidez de risco, mas, caso contrário, trabalhar durante a gestação não é nenhuma novidade na história da Humanidade. Tem mulheres pelo mundo em situação econômica e social inimagináveis e trabalhando até o dia do parto. E no dia seguinte. Tem mulheres, neste momento, com barrigão e refugiadas em algum lugar do oceano num barco de borracha com a esperança de chegarem vivas a Europa. Senão acabou. É o fim pra elas, para os bebês nas barrigas, para todas aquelas crianças. Rehan, a mãe de Aylan, o menino da foto, não tinha escolha.

12Estamos em 2015, século 21, e batalhando como nunca pelos direitos de mães e pais de passarem mais tempo com seus bebês. Estamos na era da morte ao workaholismo (?), da busca por relações saudáveis. Lutamos por direitos que são óbvios e que não deveriam ser questionados, julgados, medidos: os de que mães e pais possam receber seus filhos nesse planeta onde grávidas, crianças, idosos, homens e mulheres precisam fugir aos bandos em barcos de borracha super-hiper lotados porque pessoas muito muito muito más estão assustando e matando famílias inteiras.

Batalhamos para que pais, casais homossexuais, pais solteiros, mães e pais adotivos… tenham direito a esse beneficio. Precisamos que as crianças venham ao mundo bem recebidas, acolhidas, que sejam apresentadas à essa montanha-russa que é a vida aqui fora de forma segura e amorosa. Por incrível que pareça, desta guerra nós precisamos. E a escolha de Marissa vai contra tudo isso.

Sou completamente a favor de que mães e pais retomem suas posições profissionais ao final da licença maternidade. Mas não consigo entender porque, voluntariamente, se abster desse momento tão intenso, rico e importante. São apenas 16 semanas! (no caso das funcionárias do Yahoo). Marissa tem estabilidade profissional, com certeza um bom salário, ela não precisa voltar a trabalhar catorze dias depois do parto. Ela tem escolha.

Fico pensando em como se sente um ser humano que aos 14 dias de vida não tem seus pais disponíveis quando precisa. Quem serão essas meninas? Que tipo de empatia elas terão pelos outros? O que pensarão de pessoas como o menino Aylan, sua mãe Rehan e tantas outras famílias de refugiados? O que entenderão por união, respeito, amor, segurança, entrega?

Pobres meninas ricas.

** Existe uma família que gasta milhões do próprio bolso para ajudar refugiados que se perdem no mar. As fotos no meio desse post foram tiradas deste vídeo que conta um pouco sobre essa história e o crowdfunding pra ajudar a manter esse trabalho.

**O Buzzfeed Brasil fez um post bem legal com 7 maneiras de ajudar refugiados no Brasil e na gringa.