Rehan e Marissa: o que suas escolhas nos dizem sobre o mundo

Captura de Tela 2015-09-03 às 22.01.55Foi uma semana intensa nesse mundão. Dentre tantas coisas tristes e que fogem à minha compreensão, duas me abalaram profundamente. E dizem muito sobre o mundo em que vivemos e o triste buraco onde podemos acabar.

Acordamos um dia com a foto que virou símbolo da guerra. A imagem que chocou a nós, que estamos longe do “front” e que vemos, do conforto do lar, o horror que aquelas famílias estão passando. Eu não entendo nada. Eu não entendo a guerra – nenhuma delas -, não entendo exatamente pelo o quê eles brigam, e acho que nem eles. Suspeito que cada um entra nessa por algum interesse extraordinariamente egoísta e que são todos seres sem alma, sem vida.

Soube que tem mais fotos de outras crianças. Não quero vê-las, e, sim!, me sinto culpada por elas. Pelas mortes daquelas crianças.

Chocou a nós porque, infelizmentessíssimamente, esse menino não foi o primeiro nem será o último. Mas quem está ali, seja fugindo, seja ajudando voluntariamente, seja fazendo parte do lado escroto de tudo isso, convive com essa e outras cenas tão ou mais chocantes, tristes, horrorosas.

Depois fiquei sabendo da história da CEO do Yahoo, Marissa Mayer, que anunciou a gravidez de gêmeas e aproveitou para tornar público o fato de que não vai tirar por completo a licença maternidade a que tem direito. Pretende voltar ao trabalho antes. Mais precisamente catorze dias depois do parto. “Se afastar por tempo limitado e trabalhar durante a gravidez”.

Bom, “trabalhar durante a gravidez” não é mérito nenhum dela. Mulher grávida não é mulher doente. Temos as exceções em gravidez de risco, mas, caso contrário, trabalhar durante a gestação não é nenhuma novidade na história da Humanidade. Tem mulheres pelo mundo em situação econômica e social inimagináveis e trabalhando até o dia do parto. E no dia seguinte. Tem mulheres, neste momento, com barrigão e refugiadas em algum lugar do oceano num barco de borracha com a esperança de chegarem vivas a Europa. Senão acabou. É o fim pra elas, para os bebês nas barrigas, para todas aquelas crianças. Rehan, a mãe de Aylan, o menino da foto, não tinha escolha.

12Estamos em 2015, século 21, e batalhando como nunca pelos direitos de mães e pais de passarem mais tempo com seus bebês. Estamos na era da morte ao workaholismo (?), da busca por relações saudáveis. Lutamos por direitos que são óbvios e que não deveriam ser questionados, julgados, medidos: os de que mães e pais possam receber seus filhos nesse planeta onde grávidas, crianças, idosos, homens e mulheres precisam fugir aos bandos em barcos de borracha super-hiper lotados porque pessoas muito muito muito más estão assustando e matando famílias inteiras.

Batalhamos para que pais, casais homossexuais, pais solteiros, mães e pais adotivos… tenham direito a esse beneficio. Precisamos que as crianças venham ao mundo bem recebidas, acolhidas, que sejam apresentadas à essa montanha-russa que é a vida aqui fora de forma segura e amorosa. Por incrível que pareça, desta guerra nós precisamos. E a escolha de Marissa vai contra tudo isso.

Sou completamente a favor de que mães e pais retomem suas posições profissionais ao final da licença maternidade. Mas não consigo entender porque, voluntariamente, se abster desse momento tão intenso, rico e importante. São apenas 16 semanas! (no caso das funcionárias do Yahoo). Marissa tem estabilidade profissional, com certeza um bom salário, ela não precisa voltar a trabalhar catorze dias depois do parto. Ela tem escolha.

Fico pensando em como se sente um ser humano que aos 14 dias de vida não tem seus pais disponíveis quando precisa. Quem serão essas meninas? Que tipo de empatia elas terão pelos outros? O que pensarão de pessoas como o menino Aylan, sua mãe Rehan e tantas outras famílias de refugiados? O que entenderão por união, respeito, amor, segurança, entrega?

Pobres meninas ricas.

** Existe uma família que gasta milhões do próprio bolso para ajudar refugiados que se perdem no mar. As fotos no meio desse post foram tiradas deste vídeo que conta um pouco sobre essa história e o crowdfunding pra ajudar a manter esse trabalho.

**O Buzzfeed Brasil fez um post bem legal com 7 maneiras de ajudar refugiados no Brasil e na gringa.

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