Sobre pintos, xoxotas e gêneros

Gabriel descobriu o pinto. E descobriu que, assim como ele tem pinto, outras pessoas também tem. Só que a mamãe não tem. “A mamãe tem xoxota e o Gabriel tem pinto.” Essa frase é repetida diariamente na hora do banho – tomamos todos juntos aqui em casa, é uma maravilha! Se está no chuveiro com o pai a frase é “Você também tem pinto papai?”.

Quando essa história começou, expliquei pra ele que tem gente no mundo que tem pinto e tem gente que tem xoxota. Então começamos uma lista: papai tem pinto, mamãe tem xoxota, Totom tem pinto, Tia Pi tem xoxota, o leão tem pinto, a leoa tem xoxota… e assim seguimos. Ele adora dizer que meu pinto está escondido dentro da minha xoxota e faz essa mesma observação para todas as pessoas que tem xoxota.

Dividir isso com alguns amigos num jantar foi divertido. Tivemos risadas e mais vinho. Mas também uma certa polemicazinha: o fato de que eu explico pra ele que existem pessoas com pinto e pessoas com xoxota. Eu não disse o tradicional: mulher tem isso e homem tem aquilo.

A primeira vez que tocamos nesse assunto eu usei “gente” e “pessoa” sem querer. Depois cheguei a conclusão de que eu não preciso ligar os pontos pra ele. Mesmo porque, acho que fica mais orgânico o entendimento dos diferentes gêneros se nunca houver o rótulo.

Um amigo não concordou. Acha que mulher tem isso e homem tem aquilo e que, quando for necessário, explica-se que aquela pessoa trocou isso por aquilo ou aquilo por isso.

Minha ingenuidade (talvez) me leva a crer que vem chegando uma geração que não terá muita paciência para algumas explicações. Eles aprendem muito rápido. Na minha cabeça, essa intencionalidade de não diferenciar gêneros não atrapalha o claro entendimento de que a maioria das mulheres com quem ele convive tem xoxota e também, espero, não causará estranhamento quando ele descobrir que a Thammy Miranda também tem.

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Foto: Instagram Thammy Miranda

Vislumbro um mundo onde Caitlyn Jenner não precisaria se expor num reality show, pois o fato de ser transgênero não será mais visto como algo fora da casinha. A polêmica caminha pela outra mão: quem é retrógrado e pensa que homem é homem, mulher é mulher e o resto é coisa de vagabundo maldito é que vai sofrer as consequências de suas mentes fechadas e opiniões sem fundamento – ou, em alguns casos, fundamentadas em pensamentos e teorias de séculos atrás.

Foto: Annie Leibovitz para Vanity Fair
Caitlyn Jenner Foto: Annie Leibovitz /Vanity Fair

Esse ser humano que duramente não aceita as pessoas “diferentes” não percebe que está se tornando ele o que não se encaixa mais na sociedade moderna? (pós-moderna? Uber-moderna? Alguém sabe?).

Não me diga que isso é utópico. Não me traga essa tristeza. Entenda que não falo de amanhã nem do ano que vem. Mas imagino que quando Gabriel e Tomás forem adultos, se nós enchermos essa geração de conceitos de amor, paz, união e – especialmente – empoderamento e empatia, talvez até mesmo os herdeiros dos herdeiros dos herdeiros dos Malafaias e Bolsonaros tenham salvação.

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