Não basta ser pai, tem que participar – a frase que não faz sentido

Essa semana encontramos um amigo que não víamos há algum tempo. Seu filho tem a idade do Gabriel, 3 anos, e eles são muito parceiros. Então que no meio da conversa, ele disse: “blá blá blá (não vem ao caso) porque, porra!, eu sou o pai né. Não sou um cara ali, sou o pai!”

Nesse instante uma ficha me caiu. Tenho a sorte de conhecer muitos pais. Não o cara que ajudou a por fermento no bolo. Pais. Assim. Com P maiúsculo.

Acho engraçado quando dizem que “fulano é um pai presente.” Ou as variáveis: pai ativo, pai participativo, pai que ajuda… Cara! Ou é pai ou não é. Ou é pai ou é só um cara ali. Vamos combinar isso sociedade?

Crescemos acostumados a enaltecer o cara que exerce a paternidade com entrega, parceria, presença, amor e adjetivarmos eles com palavras que nos ajudam a deixar claro o quão bons pais eles são. Enquanto que aqueles que não estão, não fazem, não querem, abandonam, não ligam, não exercem, não participam são os pais.

Trocamos pessoal. Trocamos as bolas. Mas ainda há tempo de corrigir.

Vamos lá. O cara que a gente elogia é pai.

Assim sendo, o outro cara, sim, precisa ser adjetivado, explicado, desenhado. Ele que deveria ser a exceção. Ele que é o cara estranho, o cara que não cumpre seu papel. É ele o cara que precisa entender quem é para que tenha oportunidade de rever seus comportamentos e conceitos e também para que outras famílias não caiam na armadilha do pai que acha que trocar uma fralda é fazer demais.

Eles são os pais ausentes, os pais negligentes, os pais que ajudam (sim, isso é uma maneira triste de referir-se a um pai e não um elogio), os pais distantes, os pais que as vezes nem merecem esse título.

Minha mãe uma vez me disse “eu não fiz com o dedo”. Eu amo essa frase. Porque é isso. Com exceção das escolhas de outras formas de parentar (como produção independente por exemplo), a mulher não fez com o dedo, não fez com o vibrador, não fez sozinha. Tirando os abusos que geram gravidez, é esperado que duas pessoas tenham topado entrar nessa – não importa se transando, fazendo inseminação ou adotando. São duas pessoas independentes de gênero e título que, espera-se, chegaram juntas ao desejo de ter uma criança. Caso contrário, não tenham, por favor.

Não é surpreendente se elas fizerem tudo isso com amor, entrega e algumas abdicações. Não deveria ser.

Surpreendente e inaceitável é quando uma delas supõe que a outra tem mais deveres, obrigações e até talento – ou o contrário, que ela própria tem tudo isso de menos.

Porque nesses casos, meus amigos, talento nem sempre é inato – eu bem sei. Deveres e obrigações não vem num manual de instruções parido com o bebê.

Mas amor e todo o resto sim. E só aumenta com o tempo.