Sobre termos tempo pra cada um de nós – 3. obrigado por vir

20150614_101849Enquanto o Gabriel é meu maluquetêra, o Tomás é meu guerreirão. Eita rapaz forte! Tomás é bravo, porém sábio. Ele não se abala (ainda) com as disputas do irmão. Sabe exatamente como conseguir um colo, um chamego. Não se faz de rogado: se quer um carinho, pega minha mão e mostra como quer o cafuné.

Tomás e eu temos uma coisa de cheiro, de pele. E ai você começa a entender que realmente não se ama um mais que o outro, mas diferente. Eu dou umas cafungadas daqui, ele me lambe dali. E em nosso tempo junto rola a maior pegação.

sempre tem café da manhã na padoca
sempre tem café da manhã na padoca

Ele é o cara que topa qualquer parada. Desde que meu colo esteja a disposição, a vida tá maravilhosa em todo lugar. Aqui ele se aninha e o tempo parece que para.

Tivemos nosso primeiro tempo juntos quando caí no repouso forçado da gravidez. Desde então, tiramos muitas sonecas juntos. Tom deita ao meu lado e fica só me olhando. E eu paquero de volta. Nós adoramos uma preguiça na cama.

Nesse momento de re-união da família, tivemos nosso primeiro tempo exclusivo há pouco e choveu a beça. Como eu, Tomás é de casa. Aqui ficamos, brincamos, rolamos no chão, rimos, nos abraçamos, ficamos deitados olhando pro teto, pro outro e brincando com nossos pés. Tom é tranquilo demais – até sentir falta do irmão e sair pela casa “bieu, bieu, bieu” levando na mão algum brinquedo preferido do Gabriel. Dormimos. Muito.

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Tom é zueira e sorriso

Não é que qualquer coisa tá bom. Mas se o contato pele a pele estiver disponível, tudo fica possível. Sei que isso deve passar em breve, quando ele chegar ali onde o mais velho está hoje. Mas, com ele aos 1 ano e 7 meses, tenho sido mãe de primeira viagem de crianças nessa fase. E a intensidade dessa relação veio desde sempre e, sorte nossa, nunca se perdeu. Tomás me preenche de amor e força. Ele não me deixa desistir, nem me render. Se o Gabriel já era meu combustível, Tom o deixou aditivado-super-power.

Foi Tom quem me empoderou. E todo dia, junto com o beijo de boa noite, eu agradeço: Obrigada Tom, obrigada por vir.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 2. tatuagens emocionais

20151101_111212-01(é uma séries de posts já prontos, um por semana. depois da introdução, hoje falo do meu tempo com gabriel. semana que vem, com o tomás. tem também tempo de casal e tempo “meu comigo mesma”.)

Essa história de tempo dedicado com cada um dos meninos apareceu há muito tempo. Achamos importante a construção da cumplicidade, manter a conexão viva e forte. É um caminho eterno, um exercício diário, e não abrimos mão dele.

Gabriel tem se tornado uma criança muito agressiva e raivosa – especialmente em relação a mim e ao irmão. O que me deixa ansiosa por um dia só nosso. E o destino, esse eterno fanfarrão, não estava muito afim de facilitar as coisas.

Nossa primeira vez foi horrível – pra mim. Ele sabia que depois iria pra casa da avó e não conseguia falar e pensar em outra coisa. Foi um dia só nosso, mas com a presença constante da avó e cheia de comportamentos agressivos. Ainda assim, os dias que se seguiram a esse foram especialmente melhores. Ficou muito claro como essa relação exclusiva é necessária. Gabriel só tem 3 anos, ele não tem que entender nada.20150815_102106~2

Ele não tem que entender que é difícil pra mim dividir por igual meu tempo, atenção e dedicação entre ele, Tomás, o marido, o trabalho, as chatíssimas funções da casa, e – inclusive – eu mesma!

Ele não tem que entender que agora não dá. Que o mais novo demanda mais atenção. Que a gente precisa trabalhar. Que o gato não gosta de abraço apertado. Que não pode jogar bola dentro de casa. Que cuspir é uma bobagem que ele vai usar muito com os amigos, fora de casa, quando for maior. Que a casa está limpinha e mijar fora da privada não é engraçado (até porque, é né! Hehehe).

Nossa segunda vez foi meio aos trancos e barrancos, mas foi. Eu tinha planejado um dia no parque com bicicleta e picnic, mas amanheceu um dia horroroso e chuvoso. Me pegou desprevenida de ideias – e o Gabriel não aguenta ficar dentro de casa, é uma pessoa da rua, da natureza, do dia. Embora todo atrapalhado e mais curto do que eu queria, me rendeu a tatuagem na alma “Lembra quando era só eu e você, mamãe?”.

Já tivemos a terceira experiência. E que maravilhosa que foi! Ele agora já sacou o combinado. E curtiu, aproveitou. Criamos pequenas piadas internas, só nossas. Também gestos e códigos. Compartilhamos estórias, falamos de amigos, de coisas que adoro e ele também. Ele trocou o “tá” por “eu te amo, mamãe” quando me declarei, mais de infinitas vezes, tontamente pra ele. Minhas tatuagens emocionais agradecem. E sei que ele começa a ter as suas. Os sorrisos entregaram.

Deixei ele na avó para meu tempo com o Tomás. Ele jogou beijos e pediu que eu os guardasse. Joguei os meus e ele guardou. No coração. Virei a esquina e chorei de saudades. Senti um vazio enorme. Sorri. Estamos num caminho bom.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 1. tempo como presença

quando era eu e ele.

“Lembra quando era só eu e você?” Gabriel me perguntou uma vez. Foi um tabefe bem dado. Certeiro. Importante. A gente já tinha conversado aqui em casa sobre a divisão do tempo X pessoas em todas as possibilidades. Só eu e Gabriel. Otavio e Tomás. Otavio e Gabriel. Eu e Tomás. Nós dois e Gabriel. Nós dois e Tomás. Porque nós quatro já somos. O tempo todo. Sempre. Muito. Intensamente.

Quando Gabriel nasceu éramos colados. Ele ia comigo para todo lugar. Qualquer que fosse, qualquer horário. Foi quando começamos a entender que ele não é essa pessoa. E que respeitar isso é fundamental.

Gabriel gosta de bagunça, só que não sabe brincar quando está com sono. É amoroso, doce e educado. Tem personalidade forte, mas é facilmente influenciável (fase, fase, eu sei…). Quando está cansado, fala que quer tudo e nada e qualquer coisa. Fica literalmente bêbado de sono. Tem medos que ainda respiro fundo para tentar entender e aceitar. Tudo isso nós aprendemos quando éramos três. Gabriel tem sido uma criança insegura. E isso nós só percebemos quando viramos quatro.

Descobri a gravidez do Tomás no dia do aniversário de 1 ano do mais velho. Escolhemos não contar nada a ninguém porque naquela comemoração, pro Gabriel, ainda precisávamos ser 3. Também porque foi um baita susto. Não era pra ser. Não era pra ter. Não era o plano. Eu precisei digerir, entender, aceitar, me acalmar.

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na festinha de 1 ano

Dali em diante viramos 4 por pouco tempo. Um tempo que – pra mim – foi uma montanha russa de sentimentos, eu era uma mãe que mudava de humores quase que de hora em hora. E logo entraríamos numa dança de dois pra lá, dois pra cá – sendo as duplas sempre as mesmas: eu e Tomás pra cá, descansando e cuidando e aguardando a hora e Gabriel e Otavio pra lá, saindo, vivendo, se apoiando na falta que sentíamos de sermos nós todos. Foi nosso primeiro distanciamento.

primeiro contato
primeiro contato

Quando Tomás chegou, parecia que o mais difícil tinha passado. Mas Gabriel mal teve tempo de entender o novo morador e já nos separamos de novo. Dessa vez de forma menos justa e mais abrupta. Foram três pra cá e um pra lá. Tomás na UTI com presença constante e integralmente dedicada do pai e da mãe. Gabriel passou no mesmo PS enquanto o irmão internava – nós estávamos assustados demais, assim que ele passou na consulta com a minha mãe e de lá seguiu pra casa dela. É impossível pedir que uma criança de menos de dois anos compreenda essa situação. Nos via apenas ao acordar e, as vezes, antes de dormir. E via dois trapos. Duas pessoas que estavam ali fisicamente apenas. E ele estava nesse mundo não tinha nem 2 anos. Como entender?

futuros parças. (tomás de lançando moda usando calça gigante do irmão.)

Gabriel tinha 1 ano e 7 meses quando chegou a conturbada hora do irmão nascer. Hoje Tomás está exatamente com essa idade. Um ano e sete meses. Olho pra trás e vejo que foi um caminho bonito, intenso e cheio de derrapagens. Temos pra nós que a parte mais difícil – finalmente – acabou. Agora estamos levantando e sacudindo a poeira. Chegou a hora de re-unir essa família. Reforçar os laços de cada dupla, cada trio, para que possamos ser quatro inteiros e felizes. E a nossa estratégia é essa, e é linda. Tempo, presença integral, para e com cada um de nós.