Tem que ter medo, sim!

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Gabriel adora andar de ônibus. As janelas grandes, não ter cadeirinha nem cinto de segurança, a liberdade, a paisagem, ele conversa com o cobrador, quer visitar o motorista, muda de banco, fala oi pros outros ônibus… já vale a saída se for só pra ficar lá dentro. Quando descemos no ponto hoje, ele disse: “Na próxima vez vamos ficar um tempão né? No ônibus, né?”

Gabriel morre de medo do metrô. Começa na troca de ideias enquanto andamos na rua.

“Já sei! Vamos de ônibus?”

“Tive uma ideia, vamos de taxi?”

“Mãe, você vai de metrô, eu vou correndo tá? Tá?”

O pânico vem na escada. Fomos descendo e ele tagarelando sobre o metrô. Visivelmente tenso. Chegamos na máquina para carregar o Bilhete Único:

“Mas mãe, não vamos de metrô. Eu tenho medo.”

“Eu sei filho. O que você acha que pode acontecer?”

“Pode dar ruim, mamãe. Pode dar ruuuuuiiiimmmm…” (mini chorinho)

“É difícil dar ruim. Mas a gente faz o seguinte, vamos juntos o tempo todo. Você vai no meu colo até o final, tá? Aí, quem sabe, não dá ruim. Dá bom, né?”

Ele agarrou meu pescoço. Passamos a catraca. Escada rolante.

Nos posicionamos na plataforma. Senti que o trem do sentido contrário estava chegando. Contei pra ele. Ele desabou. Chorou. Alto, no colo, agarrado. Caguei para todos os olhares. Agarrei nele também, com a mesma intensidade. Não falei nada.

Senti que vinha o nosso. Falei baixinho no ouvido dele. Sem empolgação, sem alerta, sem emoção alguma – apenas informando. Deixa ele sentir o medo. O vento. O barulho. As pessoas. Deixa eu sentir ele com medo.

“Vamos entrar.” De novo no ouvido, de novo apenas informação. Estávamos quietos. Eu apenas respondia às suas perguntas. Sem explicações, sem exaltação. Não preciso direcionar os sentimentos dele. Deixa ele sentir. O medo. A curiosidade. A descoberta. A conexão.

Ele aqui. Macaquinho no colo. ‘Garrado como nunca. Rosto escondido no meu pescoço. Perguntou o que era aquele sinal. “Pra avisar que as portas vão fechar.” Força no agarrão!

“Vamos descer?”. Saímos. Ele desgarrou, ainda no colo. Perguntou onde o metrô ia. Encontrar os amigos? Pra casa? Conversar com o ônibus? Deu tchau.

Cochichei no ouvido dele: “Vencemos o medo, filho! Foi bom?”. Ele respondeu com o olhar, um abraço e beijos.

O medo tem disso. Te dá a chance de entender que apoio, parceria, cumplicidade, amor se mostra com conexão e não com palavras. Ficar tagarelando que não precisa ter medo, não resolve o medo, não passa segurança, não ensina a lidar com essa emoção tão forte, tão importante, tão presente a vida toda. Perguntar pra uma criança de 3 anos do quê ela está com medo, também não faz sentido. Acolhimento sim.

“Eu matei ele!” Contava depois do banho. Feliz. “Eu venci o medo e você também, mamãe!!”

Ele tem razão. Gabriel matou o medo do metrô, e eu matei um pouco daquele medo que a gente sempre tem de achar que estamos fazendo a coisa do jeito errado.

aqui, agora, com eles.

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Esse ano novo teve um gostinho especial pra mim. Foi a primeira vez que fiz uma reflexão mais profunda e fiquei muito feliz e orgulhosa do que encontrei. Dois mil e quinze foi um ano de revisitar a minha vida e me reencontrar em diversas etapas dela. Passei pelo pouco que lembro da minha primeira infância, forcei a memória para os anos seguintes, me envergonhei e me orgulhei da minha adolescência. Revi acontecimentos, analisei situações, pude escolher o que foi maravilhoso e o que não preciso mais. O que quero guardar, repassar, colar na minha memória, história, o que quero, posso, preciso mudar pra mim, para minha pequena família, pro nosso futuro desconhecido.

Quando estava grávida do Gabriel, uma amiga me falou sobre um livro chamado “O encontro com a própria sombra”. Eu nunca li. Pois só o título já me deu corda pra tanta coisa que nem sobrou tempo de ir atrás da obra.

A partir dessa frase, olhei pra muita coisa e com muitos olhos. De saudade, de saudosismo, de tristeza, de alegria, de raiva, de rejeição, de crítica, de negligência, de solidão, de amor, de intensidade, de culpa (nossa! Quanta culpa!), de conexão e de distanciamento. Só o nome desse livro me trouxe uma avalanche de sentimentos e reflexões, muitas vezes diferentes sobre um mesmo encontro, uma mesma sombra. Passei por fases de escuridão, de isolamento. Mas também por excitantes (re)descobertas.

Posso dizer, então, que 2015 me proporcionou a fantástica viagem no tempo que a maternidade já andava ensaiando em me levar.

Perdi milhares de certezas absolutas, descobri alguns bons e novos caminhos. Mas meu maior presente, e por isso 2015 foi tão especial, foi ter percebido a importância, assumido a responsabilidade e me empoderado do privilégio de estar com eles. Aqui. Agora.