O poder do hábito

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Pic by Silvia Viñuales

A história sobre como lidei com o medo de metrô do Gabriel teve um retorno surpreendente: algumas pessoas disseram que estavam fazendo errado com seus filhos. Discordo. Eu não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado para os filhos dos outros.

Desde a gravidez do Gabriel e em todas as surpresas e dificuldades que apareceram no caminho até aqui, os blogs sobre maternidade sempre estiveram presentes. Li muitos. Descartei vários. Filtrei muita coisa. E muitas vezes me senti assim também. “Estou fazendo tudo errado.”

A gente já acha naturalmente que está fazendo errado. Nem precisavam existir outras mães para a gente se sentir assim. Costumo dizer que a maternidade é solitária. Mesmo que você tenha um marido ótimo, que seus filhos tenham um pai ótimo, sua rede de apoio seja ótima, sua comunidade, seu chefe, suas amigas etc. Acho a maternidade bem solitária. E aí mora, pra mim, o legal de ler, pesquisar, conhecer outras histórias. Ela também é solidária. O que me levou ao “existem mil maneiras de se maternar, me conte a sua”.

Se você não estiver humilhando, negligenciando, fazendo uso de violências físicas ou emocionais, não tem como estar errado.

Cada gramado é um gramado. Cada família é uma família.

Temos o privilégio hoje de conhecer como outros indivíduos formam o seu núcleo e os caminhos que seguem. E assim rever, aperfeiçoar, testar, experimentar, mudar – ou não – o nosso minimundo.

Tem a velha reclamação do “só falam do lado bom…”. Muitas mães passando por dificuldades profundamente reais como depressão pós-parto, estafa física e emocional etc tem dificuldades em achar algum tipo de apoio. Me sinto imensamente inspirada quando vejo que alguma coisa deu certo, que achei uma maneira legal de lidar com determinada coisa. E é isso que acabo compartilhando. Não é por egoísmo, é vontade de mostrar para outras mães que as vezes temos uns dias bons. Não me sinto inspirada a contar as vezes que perco o rumo, que falho, que me percebo consumida pela famosa culpa. Eu quero mostrar e guardar como consegui acertar uma vez depois de tantas tentativas frustradas. Dias bons.

Em relação a história do medo, pode ter ficado a impressão de que eu sempre reajo dessa maneira. Não é verdade. Não mesmo!

O medo do Gabriel é uma questão pra mim. Ele tem muitos. Muitos mesmo. Todas as crianças tem medos. Umas mais, outras menos. O Gabriel está no grupo do mais. E a minha dificuldade em lidar com isso é enorme. Não que eu não tenha medo. Muito pelo contrário. Me cago por pouco. Sou insegura. Só que alguns medos tem um efeito impulsionador em mim. Eu tenho, mas sou do time “se tem medo, vai com medo mesmo”. Eu quase diria que o medo é o que mais me encoraja – por mais antagônico que isso seja. Outros eu simplesmente me recuso a sentir. Fujo.

Debaixo dos caracóis do meu filho, os medos paralisam. O aterrorizam. Ele não sabe lidar. Que criança sabe? Embora algumas sintam menos, outras se joguem como eu no “se tem, vai assim mesmo”, tem também as que, como o Gabriel, são mais sensíveis, precisam de mais tempo, mais acolhimento. Isso, confesso, eu já havia percebido, mas aquele dia no metrô foi a primeira vez que consegui achar uma maneira legal para lidarmos com isso – eu e ele.

E mesmo depois, já me peguei uma ou duas vezes falando que “não precisa ter medo não”. Justamente o que critiquei! A vida entra no automático muito facilmente, não é mesmo? A rotina, o cansaço e outras desculpas nos afastam do tempo e da disponibilidade que ações como aquela pedem – até que elas possam, enfim, se tornar um hábito.

“Medo do quê?”, “Não precisa ter medo”, “Que medo o quê!”, “Ai Gabriel…”, “Não precisa ter medo porque blá blá blá” essas e outras frases causam qualquer coisa menos conexão, passam qualquer outro sentimento menos o de acolhimento, e já escapuliram da minha boca. E provavelmente ainda vou derrapar e repeti–las. Mas talvez isso funcione para a sua família, talvez você tenha uma outra maneira de lidar com isso, talvez eu descubra outro jeito de me conectar com ele…

Tudo o que eu sei hoje é que naquele dia nós nos conectamos. Naquele momento. As vezes caio na rotina e não rola, as vezes estou mais presente e é uma delícia. A diferença é que agora eu me policio mais. E sigo por tentativa e erro, torcendo pra que um dia as boas descobertas das nossas relações se tornem o hábito.

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