Direita brigadeiro e esquerda batata doce. Ou: a luta pela democracia da comida

 

Ah! A Páscoa! Esse feriadinho maroto cheio de significados religiosos e consumistas. Essa sexta sem escola e almoço de domingo, sinônimos de stress para nós, pais da centro-esquerda da democracia alimentícia. Comunistas comedores de tomate, cenoura e melancia.

Centro-esquerda porque não fazemos lancheiras de extrema-esquerda a la Bela Gil. Centro-esquerda porque achamos uma delícia brigadeiro na colher feito em casa com os amigos. Centro-esquerda porque devoramos aquele cachorrinho-quente com a salsicha cheia de restos nojentos de porco, entupida de corante vermelho (claro!) e símbolo dos rega-bofes infantis. Centro-esquerda porque somos saudosos daquela memória afetiva de avó e criança na cozinha raspando a dedo aquele creminho que sobrou na tigela da batedeira enquanto o bolo assa no forno. Centro-esquerda porque acreditamos que uma boa alimentação se pratica desde o dia 1 e não se tenta consertar depois em programas de TV como aquele “Socorro! Meu filho come mal!” ou “Bem Estar”. Centro-esquerda porque entendemos que seu filho sempre comeu mal, você que só percebeu agora.

A indisposição que a (boa) alimentação infantil causa nas pessoas é tamanha que parece (e pelo visto é) uma discussão política. Cheia de lados, opiniões, julgamentos, ofensas, melindres,  falta de entendimento, empatia e respeito. Ninguém enfia um bife goela abaixo de uma pessoa vegetariana/vegana. Mas nega um biscoito passatempo pro seu filho que você logo sente o peso da direita brigadeiro. Muitos praticam gordofobia e/ou bullying infantil. Poucos percebem o quanto somos manipulados facilmente pela propaganda. Quase ninguém lê rótulos. Uma quantidade assustadora de pessoas acredita em tudo o que lê/ouve/vê na TV e em revistas de “grande circulação”.

Tenho entrado em pânico ultimamente quando me percebo saindo do espectro centro-esquerda e flutuando em direção da direita-liberal afim de evitar mágoas, olhares tortos, bufadas impacientes. “Ah! Só um suquinho de caixinha”, “Ah! Só um docinho desse!”, “Ah! Só um potinho de 1/10 de morango com mil aditivos e corantes”. E quando você vê, aquele um só, virou uma montanha. Porque o seu um só, meu amigo de direita, vira 10 quando todos do seu partido repetem o mesmo argumento.

A dicotomia imita as oposições políticas ferrenhas e ofensivas que estamos presenciando atualmente no Brasil. Tem raiva e desdém da direita, que não percebe o quão importante é a educação alimentar da criança. Ainda tem o subgrupo do “você sempre comeu isso e ta aí.”.

Num País onde programas de televisão ensinam a cozinhar, outros acabam ensinando a resolver problemas de saúde e de comportamento alimentar – muitos dos quais não existiriam se houvesse uma atenção maior ao inicio da prática na infância. A busca pela boa alimentação deveria ser um esforço conjunto, de todos, por todos e para todos. Livros, matérias, documentários, sites e mais sites. Bons médicos e especialistas. O conteúdo ta aí, quem tem acesso tem que deixar de ter preguiça.

Ninguém nasce comendo. É algo que se aprende, se pratica, se constrói a partir do exemplo. Assim como a moral, o caráter, o respeito, a empatia, o amor, a bondade. Mas dá muito trabalho e quem tem que educar são só os pais, não é mesmo? Esqueça ditos como aquele africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Nessa aldeia do século XXI, muitas vezes, depender da comunidade nos deixa fudidos, mal pagos, gordos e doentes.

Como fugir da cocaína do açúcar? Porque perder meia hora numa feira/sacolão toda semana, se no mercado tem tudo pronto, empacotado e dura meses? Porque beber a tão insossa água, mesmo que nosso corpo seja composto uns 70% por ela?

poster4Precisamos estragar o paladar logo na infância, desafiar os pais, perder conexões deliciosas entre as pessoas para depois deixar esse ser humano adulto correr atrás do prejuízo sozinho. E então julgá-lo, porque afinal de contas “é gordo porque quer”, “ninguém mandou não saber comer”, “câncer? Jura? Mas ele parecia tão saudável”. Nem vou começar a falar de refrigerantes, balas, bolachas recheadas, nuggets… Puta sociedade bacana né? Estamos de olho na sua participação por uma infância livre e saudável.

Acho que aqui, no centro-esquerda, estão pessoas que deixaram a preguiça de lado, pegaram a informação disponível e buscam um caminho. É uma pena que, ainda assim, sejamos taxados de radicais. Talvez fosse mais fácil sê-lo mesmo. Meus filhos comem chocolate, sim. Só não precisam ganhar mais de UM ovo de páscoa tamanho normal. É desnecessário e não deveria ser uma ofensa pra ninguém. Não deveria atingir você, quando o oposto atinge diretamente pequenos seres humanos que ainda estão entendendo como sobreviver neste mundo. E eles podem ganhar esse ovo participando de uma caça aos ovos do coelhinho, cheia de imaginação, diversão, conexão, cenouras, patinhas, cestas, frutas, ovo de chocolate, amigos, família.

Não precisam de 5 ovos grandes e de chocolate de má qualidade para serem felizes. Eu garanto que eles não vão amar mais ou menos a pessoa que os entope de porcaria. Mas eu tenho absoluta certeza de que serão eternamente gratos e amorosos com uma comunidade que se preocupou em ajudá-los a serem humanos saudáveis, que os mostrou que é possível comer 3 brigadeiros numa festa e não a mesa toda, que construiu junto um caminho cheio de lembranças com muitas cores, cheiros, sabores e amor.

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Não sabe onde tem info? #ficaadica

#Doc Muito Além do Peso (Tem no Netflix)

#Doc “Foodmatters” (Tem no Netflix)

#Doc “Fed Up” (Tem no Netflix)

#Série “Cooked” (Tem no Netflix)

#Matéria O gosto amargo do açúcar e toda a TRIP desse mês

#YouTube canal “Do campo à mesa” (tem também uma lista de livros e documentários bem boas)

#Doc “The sugar film”

pequenos diálogos – gabriel

 

interior – noite (por volta das 19h30/20h) – essa cena toda não durou 5 minutos

estamos na sala. brincando no que chamamos de “colorido” – que nada mais é que um pedaço do ambiente coberto por tatame de eva colorido, onde ficam os brinquedos e a maioria das brincadeiras acontecem.

gabriel, milagrosamente, está concentrado. ele brinca com uma casa das chaves. pela primeira vez consegue abrir e fechar as portinhas coloridas com alguma facilidade. está tranquilo e cada vez mais focado em manter o sucesso da atividade abre-fecha/destranca-tranca.

estou deitada ao lado dele. minha cabeça apoiada numa almofada e meu corpo estendido a seu lado, relaxando. apenas o observo. não vejo necessidade de interagir, isso significaria tirá-lo do pequeno-mini-transe em que se encontra. ele está bem. não está entediado, nem jogando tempo fora. está apenas focado e isso é uma coisa nova pra mim e – provavelmente – pra ele.

eis que então, depois de alguns minutos de silêncio entre nós (e minutos são horas no microcosmos de uma criança de 3 anos), ele me diz em tom de conclusão, quase que junto com um suspiro:

– eu só tenho essa vida mamãe.

gabriel, meu pequeno grande filósofo. 3 anos e 6 meses, 03/março/2016

Minha auto ajuda

Os TEDs Talks são, pra mim, a melhor invenção que a auto ajuda já teve. Uma das coisas que mais me agradam é que sempre quem fala conta como fracassou antes de descobrir toda aquela maravilha que vai dividir com a gente. Lembro de ter ouvido isso num dos milhares que já assisti: “O TED é uma reunião de fracassados.”.

Um dia caiu na minha mão o TED de uma mulher chamada Brené Brown. O nome era “The Power Of Vulnerability”. É um dos meus prediletos. Ela finalmente fez com que eu entendesse que o que falta no mundo é empatia, e como ela funciona. E como ela está em falta em doses cavalares. Mesmo as pessoas que acham que praticam a empatia, não a fazem. Eu não a fazia – e tenho certeza que nem sempre (ou quase nunca!) consigo.

Isso me abriu um novo mundo em relação aos meus filhos. Como me conectar com eles, como ser uma pessoa melhor pra eles, como me colocar em seu lugar e assim fazê-los entender um pouco do mundo.

Já tínhamos escolhido aqui em casa a história de não querer que eles entendam as coisas com o uso imperativo das palavras. Acreditamos na capacidade deles de compreender por outras formas e entendemos que a postura superior, imperativa, que ordena também distancia e pode causar sentimentos pouco agradáveis.

É muito difícil. Muitas e muitas vezes acabamos perdendo a mão e apelando para o caminho mais curto e enraizado da ordem, da obediência através do falso respeito, do descontrole emocional que se espalha como fogo.

Mas estamos tentando, dia após dia. E, muito importante, reconhecendo cada um desses momentos de perda da rota e indo até eles com desculpas e novas maneiras de se entender..