Primeira carta aos meus filhos

(Foto Otavio Sousa – papai)

Meninos,

Vocês não precisam dar beijo quando não querem. Não precisam abraçar ou serem abraçados quando não querem. Vocês não precisam sentar no colo de ninguém se não estão afim. Não são obrigados a tocar ou serem tocados por nenhuma outra pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. Isso inclui a mim e a seu pai. Nós também não podemos invadir o espaço que é de vocês – e o seu corpo é só seu.

Não deixem que os adultos confundam vocês exigindo respeito em forma de beijos, abraços, carinhos. E não confundam também.

Respeito é essencial. Devemos respeitar a todos. Mas ele não envolve contato físico. E respeito a vocês mesmos é tão importante quanto à qualquer outro ser humano.

Respeito envolve não abraçar quem não quer abraçar vocês. Não beijar, não tocar, não brincar nem brigar. Respeito também significa empatizar ao perceber um amigo passando por uma situação na qual ele não está confortável ou seguro. Meus amores, se alguém tentar violar seu espaço, seu corpo, seu emocional, sua cabeça… Se vocês perceberem um amigx numa situação dessas… Por favor… Espero que eu consiga mostrar no dia a dia como podem agir para se defenderem e ao próximo. Como é de direito de vocês exigirem respeito ao próprio corpo, às suas vontades. Como é importante que interfiram quando presenciarem o desrespeito à outras pessoas. Segurem quem estiver agindo desta forma e façam com que a situação pare.

Nessa história toda, temos um agravante horroroso, meninos. O machismo, a misogenia. Essas palavras feias e difíceis estão presentes até mesmo em quem é vítima delas. Protejam suas amigas, as mulheres a sua volta. Vocês são privilegiados. Nunca se esqueçam disso. São homens e brancos. Eu sei que é complicado entender, mas apenas esses dois detalhes os colocam automaticamente nesta posição. Um privilégio injusto. Então, finquem raízes onde devemos estar. Fiquem ao lado das mulheres, dos homossexuais, negros, pobres, índios, imigrantes, dos doentes, das crianças.

Nunca esqueçam as mulheres maravilhosas e fortes que vocês tem na sua vida – eu, Tia Pi, Vovó Lus, Vovó Cida, Tia Cá, suas primas Alice, Julia e Catarina, a Claudia, a MariaRita e inúmeras outras. Não esqueçam do dia em que fomos ao casamento do André e do Eric e como vocês correram felizes pela sala deles, como vocês adoram comer pipoca e dormir naquela cama enorme. Continuem cumprimentando os moradores de rua. Da sua primeira “tatuagem”, Gabriel, de super-heróis e piratas feita pela Ju com as canetinhas trazidas pela namorada dela. Totom, do amor e carinho e respeito enorme que a Francisca, negra, pobre e doente tem por você. Gá, lembra como foi lindo quando você perdeu o medo do Arthur e entregou a massinha pra ele? Autismo, Down e tantas outras condições não são motivos de afastamento, pelo contrário.

Esses são alguns fragmentos da vida de vocês que destaco para que entendam, mais uma vez, como são privilegiados. Desta vez, a palavra vem com outro significado. Temos muita sorte em conviver com tanta diversidade. E respeitá-las, amá-las e querer tê-las por perto e em segurança sempre. É rico demais esse universo, meus amores. Não deixem que tirem isso de todos nós, seres humanos. Não deixem que aprisionem quem vocês são. Nem quem são os outros. E essa é uma luta diária, que se dá, inclusive, nos detalhes.

Nunca, jamais façam piadas sexistas. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem riam de uma. Nunca, jamais se refiram a uma mulher com termos pejorativos como “puta”, “vadia” e tantos outros. Nunca, jamais aceitem de boca fechada um desrespeito pelo outro. E lembrem-se, nem sempre a pessoa que está sendo desrespeitada entende o que está realmente acontecendo. É esse o absurdo de sociedade na qual vivemos nestes anos. Muitas mulheres e homens foram criados dentro do contexto machista, e, sem saber, replicam essas atitudes. Eles não tem culpa, e vocês podem ajudá-los a entender.

Sempre, o tempo todo, peçam desculpas ao perceberem que passaram de algum limite. Que erraram. Que desrespeitaram. Quantas vezes a mamãe pede pra vocês? Pedir desculpas não é motivo de vergonha, não é humilhante, não te coloca em posição vulnerável. Pedir desculpas de verdade é para os fortes, filhos. Sejam fortes.

Nunca, meninos, jamais sejam coniventes com o machismo. Nem na sua forma mais disfarçada. Ele é traiçoeiro e pode te enganar. Fiquem atentos. Se policiem. Com um pouco mais de sorte, isso não será difícil e sim natural.

Me repreendam se algum dia eu escorregar. Essa é uma batalha que luto diariamente.

São infintos os motivos que me fizeram chorar na semana passada. E amanhã eu vou pra Paulista, me juntar ao que espero ser uma multidão. Lutar pelo feminismo, pela liberdade, pelo respeito. Vocês não vão. Eu queria levá-los, mas não estou preparada. Respeito meu tempo e o de vocês. Sintam orgulho das mulheres, filhos. E, nesse momento, vergonha dos homens.

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