O desfralde nosso de cada dia

(pic: elizabeth pfaff – flickr)

“Traz uma cueca dele amanhã pra gente mostrar na roda”. E assim o coração da mãe aqui se encheu de esperança ao vislumbrar um desfralde ali na esquina.

Veja bem, nossa empolgação não é pelo desfralde em si, por ele estar crescendo, por mais essa novidade e de como será, etc. Então eu começo a achar que só o primeiro filho tem esse luxo. Afinal é uma descoberta para todos os envolvidos da casa: mãe, pai e filho estão entendendo esse processo, como ele pode acontecer e cada passo desse caminho.

Dali em diante, pode ser apenas uma questão de economia. Pelo menos é a sensação agora, aqui em casa. Claro que a gente se empolga e se emociona com cada nova experiência do Totom, mas algumas emoções acabam misturadas com um pouco de vida prática. As vezes fico me perguntando se estamos sendo mais frios com ele, outras acho que tudo bem e que a vida é assim mesmo.

O desfralde do Gabriel foi super rápido e tranquilo. Um dia levamos a cueca na escola, noutro ele passou o dia todo sem fraldas, no terceiro já não vazou nenhum xixi. E assim foi. Sem muitos sustos. Só uma vez que ele entrou correndo no quarto, calças arriadas, dizendo que o gato tinha feito cocô no chão da sala. Até hoje, fingimos que acreditamos. Achávamos que ia demorar, por culpa nossa. Sempre esquecíamos de perguntar se ele queria fazer xixi, se queria ir ao banheiro, se tinha vontade de fazer cocô, essas coisas que os adultos em geral fazem de 15 em 15 minutos num “desfraldante”. Inconscientemente ele devia perceber esse vacilo nosso e acabava sempre pedindo, indicando, ou indo por conta própria numa árvore ou matinho. “Temos nosso próprio tempo”, disse Renato Russo. E como isso é importante de ser respeitado.

Foi a professora do Tomás quem pediu as cuecas do começo desse texto. Então, nos demos conta de que ele ainda não tinha. Na pressa, acabei lavando bem e mandando as mesmas que foram as primeiras do Gabriel. Ele demorou dias pra usar. E depois de um dia ou dois de sucesso, voltou cheio de amor para as fraldas. Veio o frio, e essa não é uma época muito agradável para uma experiência dessas – temos suas exceções, como em tudo nessa vida fanfarrona. Não estamos com pressa que ele largue delas, nem que ele cresça, nem que ele atropele seu tempo. Estamos apenas ansiosos em tirar esse custo do nosso orçamento. Simples assim. Mas, adultos que somos, trancamos a pressão numa gaveta bem guardadinha e a transformamos em muito amor, apoio e compreensão.

Em tempos de crise forte e trabalho escasso, o bolso reclama. Mas ele vai ter que esperar, porque nós podemos recuperá-lo, mas os efeitos de um desfralde precoce, fora do momento certo e movido por pura ansiedade e necessidade dos pais, pode ser traumático pra todos nós.

** Tá passando pelo desfralde pela primeira vez? Quer umas dicas? Dr Daniel Becker tem um vídeo legal no Criar e Crescer.

Sobre como afastamos nossas crianças da empatia

Empatia, dentre outras coisas, é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Compreender e, assim, acolher suas emoções e sentimentos. Hoje, estamos a anos-luz de uma sociedade empática. Ao mesmo tempo que nunca falou-se tanto sobre como ela é importante para a conexão entre as pessoas e a educação emocional de nossas crianças.

O ser humano nasce com essa capacidade. Somos nós, adultos, que os afastamos dela. Nós mesmos, que depois exigimos tanta compreensão das crianças, jovens e adultos ao nosso redor. Nós mesmos, que temos a capacidade de entender que o mundo precisa de mais união e senso de coletividade. Nós mesmos, que depois acusamos uns aos outros por não sermos compreensivos, e saímos a procura de um conforto que não existirá sem a empatia.

Há algum tempo, pipocou na interwebs um vídeo de um garoto americano que foi tomar uma injeção – não sei se era vacina ou medicação. O menino estava visivelmente apreensivo. O pai, tentando lhe dar apoio, repetia insistentemente para ele não chorar, que ele era um menino grande e, ao final, o fez repetir “Sou homem”.

Compartilhamentos fazendo alusão à fofurice do vídeo. Em mim a reação foi completamente diferente. Me bateu uma tristeza profunda. Aquele menino absorveu tantos conceitos tortos naqueles 2 minutos… A ideia de que homem não chora, o machismo, a falta total de carinho do pai, o distanciamento emocional. A cara dele segurando o choro, o esforço, é de cortar o coração. Os adultos entenderam tudo errado e enalteceram a atitude do pai, em direção totalmente oposta a qualquer sentimento de compaixão e carinho por aquela criança.

Essa semana, novamente, apoiamos soluções paliativas carregadas de individualismo, rancor e desconexão. Apareceu na internet uma foto de dois irmãos dentro de uma camiseta enorme – a “camiseta da união”. Muita gente compartilhou com coraçõeszinhos, comentários de fofurice ou “vou arrumar uma dessa” – considerando aplicar a mesma técnica de educação dentro de casa.

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Sério mesmo mundão? Irmãos brigam o tempo todo. É natural. Entendo que queremos que eles se amem, que saibam que existe uma ligação intensa ali. Desejamos fortemente que eles se apoiem e sejam unidos. Mas acredito que essa é uma conexão criada a partir de momentos de amor e raiva. De tapas e beijos mesmo. Eles também precisam aprender a respeitar o espaço de cada um. Não tem o menor problema que não queiram se abraçar logo após uma briga. Precisam se acalmar, digerir, refletir, dar um tempo. Não é assim conosco muitas vezes?

Em um minuto de reflexão, podemos rever nosso comportamento em relação a essas situações. Antes de compartilhar, de achar fofo, de usar algumas “técnicas” em casa, coloque-se no lugar dessas crianças. Quando você discute com alguém, gostaria de ficar preso numa camiseta gigante com essa pessoa? Ser obrigado a dizer que ama num momento de raiva? Pedir desculpas sem ter refletido sobre o que aconteceu?

Preferimos seguir afastando nossas crianças em prol de compartilhamentos e likes ou conectá-las com o próximo preservando-as e acolhendo-as? Por enquanto, temos sido seres humanos horríveis.

*Se quiser ver o vídeo do garoto da vacina, procure. Não acho saudável compartilhar essas coisas.

*Em relação à foto, tirei o rosto das crianças. Numa pesquisa rápida no Google Imagens com “Get Along Shirt” (essa “técnica” veio dos EUA), você verá fotos de crianças sempre tristes, bravas, com raiva. Além de tudo, os pais ainda acham legal expor seus filhos nessa situação. Lamentável, mundo, lamentável.

#MaternagemDesabafa

A gente aqui é mãe tentante sabe. Mãe que tenta um estilo de educação com conexão. Mãe que tenta uma alimentação mais saudável. Mãe que tenta fugir de artifícios tecnológicos como TV e iPads. Mãe que tenta estar sempre disponível para brincadeiras. Mãe que tenta almoçar e jantar junto nos horários das crias. Mãe que tenta estar de bom humor em toda aula de natação do bebê. Mãe que curte levar e buscar na escola. Mãe que pensa em passeios, programas, brincadeiras etc.

Mas a real é que em todos os dias, todos, todinhos mesmo, sempre tem aquele momento de respirar fundo, pegar no tranco e ir. De cavar lá no fundo da noite mal dormida, das contas mal pagas, dos canos de ferro do apartamento velho que despejam água amarela, dos vômitos de pêlo de gato, da luz do tanque de gasolina acesa, da conta no vermelho, do freela que ainda não foi pago, das duas únicas botas sem sola e os tênis furados, das inseguranças, da solidão da maternagem, do papel chato de dona de casa, do papel chato de profissional, da vontade zero de brincar.

Sendo assim, aqui a gente também é mãe cansada. Mãe cansada do escândalo por conta de uma banana que se quebra antes da primeira mordida. Mãe cansada dos puxões que o rabo do gato leva. Mãe cansada de toda santa vez ter que escovar os dentes pedindo pra abrir a boca igual ao Homem de Ferro ou Capitão América ou Hulk ou Thor. Mãe cansada de toda fucking hora de sair de casa ter que ficar caçando filho pra colocar o sapato e ir “tocando ovelha” até chegar na escola/natação/praça/padaria/parque. Mãe cansada de inventar história e música para a soneca da tarde, da noite, da madrugada. Mãe cansada de ter que fingir que está tudo bem porque afinal “quem mandou ter filho”. Mãe cansada de ouvir que é exagerada ou radical ou “tem certeza?” ou “mas e se…”. Mãe cansada de ser questionada. Mãe cansada de ter que ter justificativa para toda e qualquer escolha que seja diferente de outra mãe. Mãe cansada que quando deixa as crias pra dormir na avó morre de saudades e tira cochilo na cama dos filhos, cheirando roupa e abraçando o travesseiro.

Mãe cansada de quem acha que mãe que reclama, não gosta de ser mãe ou de ter filho ou de exercer essa função fucking maravilhosa todo santo dia, 24 horas por dia, nesse job eterno, com o cachê mais bem pago do universo.