Sobre como afastamos nossas crianças da empatia

Empatia, dentre outras coisas, é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Compreender e, assim, acolher suas emoções e sentimentos. Hoje, estamos a anos-luz de uma sociedade empática. Ao mesmo tempo que nunca falou-se tanto sobre como ela é importante para a conexão entre as pessoas e a educação emocional de nossas crianças.

O ser humano nasce com essa capacidade. Somos nós, adultos, que os afastamos dela. Nós mesmos, que depois exigimos tanta compreensão das crianças, jovens e adultos ao nosso redor. Nós mesmos, que temos a capacidade de entender que o mundo precisa de mais união e senso de coletividade. Nós mesmos, que depois acusamos uns aos outros por não sermos compreensivos, e saímos a procura de um conforto que não existirá sem a empatia.

Há algum tempo, pipocou na interwebs um vídeo de um garoto americano que foi tomar uma injeção – não sei se era vacina ou medicação. O menino estava visivelmente apreensivo. O pai, tentando lhe dar apoio, repetia insistentemente para ele não chorar, que ele era um menino grande e, ao final, o fez repetir “Sou homem”.

Compartilhamentos fazendo alusão à fofurice do vídeo. Em mim a reação foi completamente diferente. Me bateu uma tristeza profunda. Aquele menino absorveu tantos conceitos tortos naqueles 2 minutos… A ideia de que homem não chora, o machismo, a falta total de carinho do pai, o distanciamento emocional. A cara dele segurando o choro, o esforço, é de cortar o coração. Os adultos entenderam tudo errado e enalteceram a atitude do pai, em direção totalmente oposta a qualquer sentimento de compaixão e carinho por aquela criança.

Essa semana, novamente, apoiamos soluções paliativas carregadas de individualismo, rancor e desconexão. Apareceu na internet uma foto de dois irmãos dentro de uma camiseta enorme – a “camiseta da união”. Muita gente compartilhou com coraçõeszinhos, comentários de fofurice ou “vou arrumar uma dessa” – considerando aplicar a mesma técnica de educação dentro de casa.

Captura de Tela 2016-06-21 às 10.26.41

Sério mesmo mundão? Irmãos brigam o tempo todo. É natural. Entendo que queremos que eles se amem, que saibam que existe uma ligação intensa ali. Desejamos fortemente que eles se apoiem e sejam unidos. Mas acredito que essa é uma conexão criada a partir de momentos de amor e raiva. De tapas e beijos mesmo. Eles também precisam aprender a respeitar o espaço de cada um. Não tem o menor problema que não queiram se abraçar logo após uma briga. Precisam se acalmar, digerir, refletir, dar um tempo. Não é assim conosco muitas vezes?

Em um minuto de reflexão, podemos rever nosso comportamento em relação a essas situações. Antes de compartilhar, de achar fofo, de usar algumas “técnicas” em casa, coloque-se no lugar dessas crianças. Quando você discute com alguém, gostaria de ficar preso numa camiseta gigante com essa pessoa? Ser obrigado a dizer que ama num momento de raiva? Pedir desculpas sem ter refletido sobre o que aconteceu?

Preferimos seguir afastando nossas crianças em prol de compartilhamentos e likes ou conectá-las com o próximo preservando-as e acolhendo-as? Por enquanto, temos sido seres humanos horríveis.

*Se quiser ver o vídeo do garoto da vacina, procure. Não acho saudável compartilhar essas coisas.

*Em relação à foto, tirei o rosto das crianças. Numa pesquisa rápida no Google Imagens com “Get Along Shirt” (essa “técnica” veio dos EUA), você verá fotos de crianças sempre tristes, bravas, com raiva. Além de tudo, os pais ainda acham legal expor seus filhos nessa situação. Lamentável, mundo, lamentável.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s