Seja a mudança que quer ver no mundo

Ter filhos é se questionar o tempo todo. Acho que é cansativo porque – dentre outras razões- tudo, absolutamente tudo, que fazemos eles estão ali, de olho. E, livres de qualquer filtro ou julgamento, absorvem comportamentos e atitudes. Também, com a auto estima em construção, são frágeis, vulneráveis.
São as crianças, e nós, os adultos. Costumo dizer que são crianças fazendo criancices, ainda bem! Permitem que nós voltemos um pouco a fazê-las também. Só não podemos esquecer que, mesmo no mundo de fantasia, o adulto da relação somos nós. Acredito que a maneira como lidamos com as mais diversas situações, os desafios que eles nos trazem e como os acolhemos quando eles são desafiados, fazem diferença a curto, médio e longo prazo. Na vida deles e na construção da nossa relação.
Tento criá-los para que possamos ter uma conexão forte e sincera. Não penso na nossa relação apenas hoje, mas nela daqui 10, 20, 30 anos. Se estaremos próximos na adolescência e na vida adulta. Se serei um porto seguro que acolhe sem julgar, sem repreender, aceitando que são humanos com menos experiências e mais vulnerabilidades. Não escondo quando me sinto vulnerável, nem quando erro. Peço desculpas, assumo e reconheço – como espero que eles o façam. Não coloco peso nas sensações ruins que me fazem ter, procuro mostrar de forma amorosa porque fiquei triste, chateada para que não se sintam culpados.
A culpa é uma merda. Não quero jamais que passem perto dessa que foi minha parceira durante praticamente uma vida e que, hoje, batalho para que fique fora do meu território. É barrada na fronteira.
Com isso, procuramos praticar algumas coisas aqui em casa. Conversamos muito sobre nossa história e nossas sensações durante a vida, infância principalmente, para chegarmos juntos a maneiras de lidar com os nossos.
Hoje caiu nas minhas mãos – ou telas , na verdade, o texto “10 coisas que não devemos dizer para as crianças“. A gente não segue nenhuma linha, seja antroposófica, montessori, mais rígida ou menos rígida. Vamos juntando informações e sentimentos e adaptando para o que faz sentido pra nós. Um pouco daqui, um pouco dali e um pouco de coisa inventada pela gente mesmo.
Não acho que existam listas definitivas, verdades imutáveis, padrões que se encaixem a todos. Nós, por exemplo, falamos palavrão. Escapa, é nosso defeito. Hoje em dia, levamos chamada deles mesmo. Costumo dizer que eles também poderão falar, quando souberem o que é e quando usar.
Muitas das coisas, estendemos para as crianças com quem convivemos. Tratamos elas como gostariam que nossos filhos fossem tratados. Acolhemos a todas.
No nossa casa, não rotulamos. Eu sempre fui mal humorada, agressiva, nervosa. para outros, sempre tive um humor diferente, ácido, honesto. Perto dos 40, descobri que não sou nem uma coisa nem outra. Eu estava agressiva, mal humorada, nervosa. Em outros lugares, com outras pessoas, eu estava bem humorada, a vontade. Gabriel não é uma criança medrosa, ele está medroso por alguma razão que não sabemos. Eu acolho seu medo e não o provoco. Não digo que não precisa ter medo ou que não tem razões para isso. Porque, sim, ele tem.
Tomás, por sua vez, está uma criança chorosa. Ele não é. Ele está. Então, pergunto porque está chorando, explico que falando enquanto chora alto eu não consigo entender o que ele diz. Quando entendo o motivo, pergunto se o problema é grande ou pequeno. Dependendo da resposta, pergunto se chorar vai resolver. Se ele diz que sim, eu o abraço e o deixo chorar. Quando a resposta é não, tento fazer com que ele procure soluções e juntos resolvemos. Eu não peço apenas que pare de chorar.
Fico bem irritada quando uma criança bate, cai, tropeça e os adultos dizem que já passou ou que não foi nada. Foi sim! Precisamos parar com isso. Doeu ou assustou. Uma injeção ou pomada no bumbum assado, vai doer sim! Vamos juntos lidar com isso. Não acho justo invalidar os sentimentos e reações da criança. Não foi apenas um tombo, só uma batidinha, uma frescura.
Outra coisa que não entendo. Adultos, principalmente quando são os próprios pais, riem ou tiram barato dos erros, tombos das crianças. Não tem graça. Os pais fazendo uma espécie de bullying ao invés de acolher o filho e se colocar à disposição dele para que aprenda ou supere aquele problema, tristeza ou frustração.
Não comento sobre dizer que vai embora caso o filho não obedeça, porque prefiro acreditar que não existam adultos que promovam essa sensação de abandono e de amor condicional. Isso machuca muito e tem consequências irreversíveis e terríveis para a criança e para a relação dela com o mundo e as pessoas.
Tentamos, pouco a pouco, ser a mudança que gostaríamos de ver no mundo.

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