Seja a mudança que quer ver no mundo

Ter filhos é se questionar o tempo todo. Acho que é cansativo porque – dentre outras razões- tudo, absolutamente tudo, que fazemos eles estão ali, de olho. E, livres de qualquer filtro ou julgamento, absorvem comportamentos e atitudes. Também, com a auto estima em construção, são frágeis, vulneráveis.
São as crianças, e nós, os adultos. Costumo dizer que são crianças fazendo criancices, ainda bem! Permitem que nós voltemos um pouco a fazê-las também. Só não podemos esquecer que, mesmo no mundo de fantasia, o adulto da relação somos nós. Acredito que a maneira como lidamos com as mais diversas situações, os desafios que eles nos trazem e como os acolhemos quando eles são desafiados, fazem diferença a curto, médio e longo prazo. Na vida deles e na construção da nossa relação.
Tento criá-los para que possamos ter uma conexão forte e sincera. Não penso na nossa relação apenas hoje, mas nela daqui 10, 20, 30 anos. Se estaremos próximos na adolescência e na vida adulta. Se serei um porto seguro que acolhe sem julgar, sem repreender, aceitando que são humanos com menos experiências e mais vulnerabilidades. Não escondo quando me sinto vulnerável, nem quando erro. Peço desculpas, assumo e reconheço – como espero que eles o façam. Não coloco peso nas sensações ruins que me fazem ter, procuro mostrar de forma amorosa porque fiquei triste, chateada para que não se sintam culpados.
A culpa é uma merda. Não quero jamais que passem perto dessa que foi minha parceira durante praticamente uma vida e que, hoje, batalho para que fique fora do meu território. É barrada na fronteira.
Com isso, procuramos praticar algumas coisas aqui em casa. Conversamos muito sobre nossa história e nossas sensações durante a vida, infância principalmente, para chegarmos juntos a maneiras de lidar com os nossos.
Hoje caiu nas minhas mãos – ou telas , na verdade, o texto “10 coisas que não devemos dizer para as crianças“. A gente não segue nenhuma linha, seja antroposófica, montessori, mais rígida ou menos rígida. Vamos juntando informações e sentimentos e adaptando para o que faz sentido pra nós. Um pouco daqui, um pouco dali e um pouco de coisa inventada pela gente mesmo.
Não acho que existam listas definitivas, verdades imutáveis, padrões que se encaixem a todos. Nós, por exemplo, falamos palavrão. Escapa, é nosso defeito. Hoje em dia, levamos chamada deles mesmo. Costumo dizer que eles também poderão falar, quando souberem o que é e quando usar.
Muitas das coisas, estendemos para as crianças com quem convivemos. Tratamos elas como gostariam que nossos filhos fossem tratados. Acolhemos a todas.
No nossa casa, não rotulamos. Eu sempre fui mal humorada, agressiva, nervosa. para outros, sempre tive um humor diferente, ácido, honesto. Perto dos 40, descobri que não sou nem uma coisa nem outra. Eu estava agressiva, mal humorada, nervosa. Em outros lugares, com outras pessoas, eu estava bem humorada, a vontade. Gabriel não é uma criança medrosa, ele está medroso por alguma razão que não sabemos. Eu acolho seu medo e não o provoco. Não digo que não precisa ter medo ou que não tem razões para isso. Porque, sim, ele tem.
Tomás, por sua vez, está uma criança chorosa. Ele não é. Ele está. Então, pergunto porque está chorando, explico que falando enquanto chora alto eu não consigo entender o que ele diz. Quando entendo o motivo, pergunto se o problema é grande ou pequeno. Dependendo da resposta, pergunto se chorar vai resolver. Se ele diz que sim, eu o abraço e o deixo chorar. Quando a resposta é não, tento fazer com que ele procure soluções e juntos resolvemos. Eu não peço apenas que pare de chorar.
Fico bem irritada quando uma criança bate, cai, tropeça e os adultos dizem que já passou ou que não foi nada. Foi sim! Precisamos parar com isso. Doeu ou assustou. Uma injeção ou pomada no bumbum assado, vai doer sim! Vamos juntos lidar com isso. Não acho justo invalidar os sentimentos e reações da criança. Não foi apenas um tombo, só uma batidinha, uma frescura.
Outra coisa que não entendo. Adultos, principalmente quando são os próprios pais, riem ou tiram barato dos erros, tombos das crianças. Não tem graça. Os pais fazendo uma espécie de bullying ao invés de acolher o filho e se colocar à disposição dele para que aprenda ou supere aquele problema, tristeza ou frustração.
Não comento sobre dizer que vai embora caso o filho não obedeça, porque prefiro acreditar que não existam adultos que promovam essa sensação de abandono e de amor condicional. Isso machuca muito e tem consequências irreversíveis e terríveis para a criança e para a relação dela com o mundo e as pessoas.
Tentamos, pouco a pouco, ser a mudança que gostaríamos de ver no mundo.

Sobre dormir

O blog andou meio parado porque a vida deu uma corrida e fiquei sem fôlego. Mas a ideia e, principalmente, a vontade, é voltar.

Então vou postando aqui algumas coisas que tenho escrito e que tem estado aí pelo mundão. Começando por essa matérinha que fiz sobre o dormir das crianças, que conta um pouquinho de como é aqui em casa também. Conta como é por ai também!

(No fim tem o link pra matéria no lugar original do Yahoo).

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O segredo de fazer nossas crianças dormirem bem

Quando engravidei, pipocaram histórias sobre como os bebês não dormem e que eu deveria aproveitar a gestação para descansar. Em compensação, quando os meninos nasceram, muitas famílias se gabavam de como seus filhos dormiam a noite toda sem problemas. Essas mensagens eram muito misteriosas pra mim. Foi quando o segundo filho chegou e mostrou uma relação diferente com o sono que eu finalmente desconstruí todos os diferentes conselhos e entendi que não adiantava querer impor uma regra comum para dois seres humaninhos tão diferentes.

Eu acho que esse seria o conselho que eu daria se me atrevesse a cutucar a maternidade alheia. Mesmo porque, dormir bem é relativo. Como explica Sônia Masson Sertório, enfermeira especialista em obstetrícia e consultora do sono materno infantil, isso envolve diversos fatores: ambiente, alimentação, rotina, ritual. Segundo a especialista, as crianças passam a dormir melhor a partir dos 4 meses, mas para dormir sozinho não existe uma idade precisa.

Uma das sugestões que Sônia passa é em relação à rotina de sono. Ajudar o bebê a relaxar e se preparar para dormir pode facilitar bastante. “Para isso, é muito importante a manutenção de uma rotina e dos rituais diários que antecedem a hora de dormir.”, explica. Como em todos os momentos, os pequenos gostam de previsibilidade, saber o que vai acontecer. Isso traz conforto e segurança.

O pediatra espanhol Carlos Gonzáles, em seu livro “Besame Mucho”, explica que os bebês estão geneticamente preparados para acordar de tempos em tempos, herdaram esse padrão dos dias em que nós precisávamos dormir em estado de alerta para não sermos surpreendidos por animais no meio da noite. Em um trecho, ele conta que “As crianças «estão de plantão» para se certificarem de que a mãe não se foi embora. Se o bebê consegue cheirar a mãe, tocar-lhe, ouvir a sua respiração, talvez mesmo mamar, volta a adormecer de seguida. Em muitas das vezes, nem a mãe nem o bebê despertam completamente. Mas, se a mãe não está, a criança acorda completamente e começa a chorar. Quanto mais tempo tiver chorado antes que a mãe lhe acuda, mais nervosa estará e também mais difícil de consolar.”. De fato, com meu segundo filho, enquanto fazíamos o dormir compartilhado, os despertares – apesar de mais vezes por noite que o mais velho – eram menos trabalhosos.

A especialista em sono materno infantil reforça contando que as crianças acordam porque o sono é cíclico e o que vai diferenciar é que ela consiga voltar a dormir sem precisar da intervenção dos pais. “Por isso a importância de conhecer as associações negativas para não incentivá-las: sugar até adormecer, precisar ser ninada até adormecer, oferecer mamadeira para voltar a dormir… Considero problema a crianças acordar de hora em hora ou ter mais de dois despertares durante toda a noite, para bebês acima de 4 meses.”, conta.

Muitas famílias optam por chamar consultoras como a Sônia, e existem várias técnicas diferentes. É uma ótima oportunidade para se acalmarem e buscarem juntos maneiras de lidar com o problema. Gonzáles conta no livro que os especialistas em sono infantil concordam que “o objetivo dos seus métodos não é conseguir que a criança não acorde, isso é impossível. O que querem é que, quando acorda, em vez de chamar pelos pais, se mantenha calada até voltar a adormecer.”

Entre as mais diversas técnicas, a mais controversa é a de deixar a criança chorando. No programa “Bons Sonhos” do canal a cabo GNT, a consultora Márcia Horbácio apelidou esse método de “chororô do bem”, causando indignação entre algumas famílias. Na literatura sobre o assunto, o “Nana, Nenê” é o manual mais popular. A técnica é bem similar ao do programa de tv, chamada aqui de “choro controlado” – os pais entram no quarto em intervalos controlados para mostrar ao filho que estão por ali.

A consultora Sônia não atua com a técnica do deixar chorar. Ela explica que acredita que o vínculo não pode ser quebrado para sanar dificuldades com o sono. E continua: “Sei que os resultados são muito mais rápidos quando se utiliza o deixar chorar, mas prefiro o atendimento a longo prazo. Já atendi diversas famílias que utilizaram a técnica de deixar chorar, as crianças passaram a dormir bem e depois de um determinado episódio de adoecimento ou nova conquista de desenvolvimento, passaram novamente a ter dificuldades com o sono e então o novo processo de deixar chorar passa a ser mais sofrido ainda.”

O que todos os métodos, conselhos, dicas tem em comum é a rotina. Quando organizamos um ritual que será repetido todas as noites antes de deitar-se, as crianças sentem-se mais confiantes e compreendem melhor o que está por vir. É importante que o ritual seja tranquilo e, quando possível, envolva a criança nas atividades. Lá em casa, por exemplo, começamos diminuindo as luzes e buscando atividades mais tranquilas como colorir, ler histórias, pequenos jogos. Depois de um tempo, eles mesmos já sabem que está na hora de escovar os dentes, fazer xixi e ir pra cama. Lá contamos histórias, cantamos músicas – muitas vezes com as luzes já apagadas.

Cada família é única. E não existe caminho certo ou errado. O que podemos fazer é achar uma maneira em que todos estejam confortáveis. Elaborar uma rotina, dentro de horários e atividades que façam sentido para os cuidadores e as crianças. Assim como achamos que elas precisam aprender a dormir, não podemos esquecer que nós também precisamos estar dispostos a aprender, entender e aceitar o tempo e a personalidade de nossos filhos.

https://br.vida-estilo.yahoo.com/o-segredo-de-fazer-nossas-criancas-dormirem-bem-203650704.html

Quando aquela mina vira mana.

Esse ano não tinha nem um pingado de dinheiro pra passar um final de semana fora de São Paulo nas férias. Terminei junho ficando vizinha dos quarenta e programando dias intensos de alternância entre crianças e home office no inverno.

Não tinha nem um pingadinho de grana pra uma celebração de aniversário, um final de semana fora de São Paulo ou mesmo um intensivão de cinema (a conta 4 ingressos + pipocas + água + estacionamento não fechava). Resolvemos ser ousados e nos dedicar às férias em casa, sem muito planejamento, sem curso de férias e com algum trabalho. “A gente se divide e eles entendem melhor nossa rotina real”. Ha – Ha – Ha

Ganhamos conexão, muita risada e briga também. Nós quatro, todo dia, toda hora, todo lugar junto deu pano pra manga: pra manga de amor, pra manga de treta, pra manga de ideias, pra muita manga de culpa.

E então o universo foi bem maroto e colocou na minha frente um trampo capcioso. Pouca (bem pouca mesmo sabe) grana, muitas horas de dedicação e, aparentemente, nenhum reconhecimento ou resultado (até agora). Na pindaíba e louca pra largar produção e escrever cada vez mais, conversamos em casa e topei. Em plenas férias (não que fora dela isso fosse okay), me vi num trabalho que não respeita horário, final de semana, filhos ou marido, vida própria. Retornos (“feedback” na linguagem de agência) durante a noite, madrugadas. Reunião de domingo. E muita culpa materna. Muita mesmo.

Mas então, como Poliana, procurei o lado bom. E essa loucura toda teve dois: Helen Ramos e Mah Lobo. Essas mamas guerreiras com quem dividi o trabalho, as noites, as pizzas e as confissões de mães – e também dividimos a culpa e muitas ideias maravilhosas.

Essas manas com quem me encontro neste vídeo, compartilhando um pouquinho da vibe boa, leve e divertida que rola quando a gente senta e fala desse intenso, misterioso e apaixonante lance de ter filhos.

Adorei o convite HelMother. Chama mais?

O desfralde nosso de cada dia

(pic: elizabeth pfaff – flickr)

“Traz uma cueca dele amanhã pra gente mostrar na roda”. E assim o coração da mãe aqui se encheu de esperança ao vislumbrar um desfralde ali na esquina.

Veja bem, nossa empolgação não é pelo desfralde em si, por ele estar crescendo, por mais essa novidade e de como será, etc. Então eu começo a achar que só o primeiro filho tem esse luxo. Afinal é uma descoberta para todos os envolvidos da casa: mãe, pai e filho estão entendendo esse processo, como ele pode acontecer e cada passo desse caminho.

Dali em diante, pode ser apenas uma questão de economia. Pelo menos é a sensação agora, aqui em casa. Claro que a gente se empolga e se emociona com cada nova experiência do Totom, mas algumas emoções acabam misturadas com um pouco de vida prática. As vezes fico me perguntando se estamos sendo mais frios com ele, outras acho que tudo bem e que a vida é assim mesmo.

O desfralde do Gabriel foi super rápido e tranquilo. Um dia levamos a cueca na escola, noutro ele passou o dia todo sem fraldas, no terceiro já não vazou nenhum xixi. E assim foi. Sem muitos sustos. Só uma vez que ele entrou correndo no quarto, calças arriadas, dizendo que o gato tinha feito cocô no chão da sala. Até hoje, fingimos que acreditamos. Achávamos que ia demorar, por culpa nossa. Sempre esquecíamos de perguntar se ele queria fazer xixi, se queria ir ao banheiro, se tinha vontade de fazer cocô, essas coisas que os adultos em geral fazem de 15 em 15 minutos num “desfraldante”. Inconscientemente ele devia perceber esse vacilo nosso e acabava sempre pedindo, indicando, ou indo por conta própria numa árvore ou matinho. “Temos nosso próprio tempo”, disse Renato Russo. E como isso é importante de ser respeitado.

Foi a professora do Tomás quem pediu as cuecas do começo desse texto. Então, nos demos conta de que ele ainda não tinha. Na pressa, acabei lavando bem e mandando as mesmas que foram as primeiras do Gabriel. Ele demorou dias pra usar. E depois de um dia ou dois de sucesso, voltou cheio de amor para as fraldas. Veio o frio, e essa não é uma época muito agradável para uma experiência dessas – temos suas exceções, como em tudo nessa vida fanfarrona. Não estamos com pressa que ele largue delas, nem que ele cresça, nem que ele atropele seu tempo. Estamos apenas ansiosos em tirar esse custo do nosso orçamento. Simples assim. Mas, adultos que somos, trancamos a pressão numa gaveta bem guardadinha e a transformamos em muito amor, apoio e compreensão.

Em tempos de crise forte e trabalho escasso, o bolso reclama. Mas ele vai ter que esperar, porque nós podemos recuperá-lo, mas os efeitos de um desfralde precoce, fora do momento certo e movido por pura ansiedade e necessidade dos pais, pode ser traumático pra todos nós.

** Tá passando pelo desfralde pela primeira vez? Quer umas dicas? Dr Daniel Becker tem um vídeo legal no Criar e Crescer.

Sobre como afastamos nossas crianças da empatia

Empatia, dentre outras coisas, é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Compreender e, assim, acolher suas emoções e sentimentos. Hoje, estamos a anos-luz de uma sociedade empática. Ao mesmo tempo que nunca falou-se tanto sobre como ela é importante para a conexão entre as pessoas e a educação emocional de nossas crianças.

O ser humano nasce com essa capacidade. Somos nós, adultos, que os afastamos dela. Nós mesmos, que depois exigimos tanta compreensão das crianças, jovens e adultos ao nosso redor. Nós mesmos, que temos a capacidade de entender que o mundo precisa de mais união e senso de coletividade. Nós mesmos, que depois acusamos uns aos outros por não sermos compreensivos, e saímos a procura de um conforto que não existirá sem a empatia.

Há algum tempo, pipocou na interwebs um vídeo de um garoto americano que foi tomar uma injeção – não sei se era vacina ou medicação. O menino estava visivelmente apreensivo. O pai, tentando lhe dar apoio, repetia insistentemente para ele não chorar, que ele era um menino grande e, ao final, o fez repetir “Sou homem”.

Compartilhamentos fazendo alusão à fofurice do vídeo. Em mim a reação foi completamente diferente. Me bateu uma tristeza profunda. Aquele menino absorveu tantos conceitos tortos naqueles 2 minutos… A ideia de que homem não chora, o machismo, a falta total de carinho do pai, o distanciamento emocional. A cara dele segurando o choro, o esforço, é de cortar o coração. Os adultos entenderam tudo errado e enalteceram a atitude do pai, em direção totalmente oposta a qualquer sentimento de compaixão e carinho por aquela criança.

Essa semana, novamente, apoiamos soluções paliativas carregadas de individualismo, rancor e desconexão. Apareceu na internet uma foto de dois irmãos dentro de uma camiseta enorme – a “camiseta da união”. Muita gente compartilhou com coraçõeszinhos, comentários de fofurice ou “vou arrumar uma dessa” – considerando aplicar a mesma técnica de educação dentro de casa.

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Sério mesmo mundão? Irmãos brigam o tempo todo. É natural. Entendo que queremos que eles se amem, que saibam que existe uma ligação intensa ali. Desejamos fortemente que eles se apoiem e sejam unidos. Mas acredito que essa é uma conexão criada a partir de momentos de amor e raiva. De tapas e beijos mesmo. Eles também precisam aprender a respeitar o espaço de cada um. Não tem o menor problema que não queiram se abraçar logo após uma briga. Precisam se acalmar, digerir, refletir, dar um tempo. Não é assim conosco muitas vezes?

Em um minuto de reflexão, podemos rever nosso comportamento em relação a essas situações. Antes de compartilhar, de achar fofo, de usar algumas “técnicas” em casa, coloque-se no lugar dessas crianças. Quando você discute com alguém, gostaria de ficar preso numa camiseta gigante com essa pessoa? Ser obrigado a dizer que ama num momento de raiva? Pedir desculpas sem ter refletido sobre o que aconteceu?

Preferimos seguir afastando nossas crianças em prol de compartilhamentos e likes ou conectá-las com o próximo preservando-as e acolhendo-as? Por enquanto, temos sido seres humanos horríveis.

*Se quiser ver o vídeo do garoto da vacina, procure. Não acho saudável compartilhar essas coisas.

*Em relação à foto, tirei o rosto das crianças. Numa pesquisa rápida no Google Imagens com “Get Along Shirt” (essa “técnica” veio dos EUA), você verá fotos de crianças sempre tristes, bravas, com raiva. Além de tudo, os pais ainda acham legal expor seus filhos nessa situação. Lamentável, mundo, lamentável.

#MaternagemDesabafa

A gente aqui é mãe tentante sabe. Mãe que tenta um estilo de educação com conexão. Mãe que tenta uma alimentação mais saudável. Mãe que tenta fugir de artifícios tecnológicos como TV e iPads. Mãe que tenta estar sempre disponível para brincadeiras. Mãe que tenta almoçar e jantar junto nos horários das crias. Mãe que tenta estar de bom humor em toda aula de natação do bebê. Mãe que curte levar e buscar na escola. Mãe que pensa em passeios, programas, brincadeiras etc.

Mas a real é que em todos os dias, todos, todinhos mesmo, sempre tem aquele momento de respirar fundo, pegar no tranco e ir. De cavar lá no fundo da noite mal dormida, das contas mal pagas, dos canos de ferro do apartamento velho que despejam água amarela, dos vômitos de pêlo de gato, da luz do tanque de gasolina acesa, da conta no vermelho, do freela que ainda não foi pago, das duas únicas botas sem sola e os tênis furados, das inseguranças, da solidão da maternagem, do papel chato de dona de casa, do papel chato de profissional, da vontade zero de brincar.

Sendo assim, aqui a gente também é mãe cansada. Mãe cansada do escândalo por conta de uma banana que se quebra antes da primeira mordida. Mãe cansada dos puxões que o rabo do gato leva. Mãe cansada de toda santa vez ter que escovar os dentes pedindo pra abrir a boca igual ao Homem de Ferro ou Capitão América ou Hulk ou Thor. Mãe cansada de toda fucking hora de sair de casa ter que ficar caçando filho pra colocar o sapato e ir “tocando ovelha” até chegar na escola/natação/praça/padaria/parque. Mãe cansada de inventar história e música para a soneca da tarde, da noite, da madrugada. Mãe cansada de ter que fingir que está tudo bem porque afinal “quem mandou ter filho”. Mãe cansada de ouvir que é exagerada ou radical ou “tem certeza?” ou “mas e se…”. Mãe cansada de ser questionada. Mãe cansada de ter que ter justificativa para toda e qualquer escolha que seja diferente de outra mãe. Mãe cansada que quando deixa as crias pra dormir na avó morre de saudades e tira cochilo na cama dos filhos, cheirando roupa e abraçando o travesseiro.

Mãe cansada de quem acha que mãe que reclama, não gosta de ser mãe ou de ter filho ou de exercer essa função fucking maravilhosa todo santo dia, 24 horas por dia, nesse job eterno, com o cachê mais bem pago do universo.

Primeira carta aos meus filhos

(Foto Otavio Sousa – papai)

Meninos,

Vocês não precisam dar beijo quando não querem. Não precisam abraçar ou serem abraçados quando não querem. Vocês não precisam sentar no colo de ninguém se não estão afim. Não são obrigados a tocar ou serem tocados por nenhuma outra pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. Isso inclui a mim e a seu pai. Nós também não podemos invadir o espaço que é de vocês – e o seu corpo é só seu.

Não deixem que os adultos confundam vocês exigindo respeito em forma de beijos, abraços, carinhos. E não confundam também.

Respeito é essencial. Devemos respeitar a todos. Mas ele não envolve contato físico. E respeito a vocês mesmos é tão importante quanto à qualquer outro ser humano.

Respeito envolve não abraçar quem não quer abraçar vocês. Não beijar, não tocar, não brincar nem brigar. Respeito também significa empatizar ao perceber um amigo passando por uma situação na qual ele não está confortável ou seguro. Meus amores, se alguém tentar violar seu espaço, seu corpo, seu emocional, sua cabeça… Se vocês perceberem um amigx numa situação dessas… Por favor… Espero que eu consiga mostrar no dia a dia como podem agir para se defenderem e ao próximo. Como é de direito de vocês exigirem respeito ao próprio corpo, às suas vontades. Como é importante que interfiram quando presenciarem o desrespeito à outras pessoas. Segurem quem estiver agindo desta forma e façam com que a situação pare.

Nessa história toda, temos um agravante horroroso, meninos. O machismo, a misogenia. Essas palavras feias e difíceis estão presentes até mesmo em quem é vítima delas. Protejam suas amigas, as mulheres a sua volta. Vocês são privilegiados. Nunca se esqueçam disso. São homens e brancos. Eu sei que é complicado entender, mas apenas esses dois detalhes os colocam automaticamente nesta posição. Um privilégio injusto. Então, finquem raízes onde devemos estar. Fiquem ao lado das mulheres, dos homossexuais, negros, pobres, índios, imigrantes, dos doentes, das crianças.

Nunca esqueçam as mulheres maravilhosas e fortes que vocês tem na sua vida – eu, Tia Pi, Vovó Lus, Vovó Cida, Tia Cá, suas primas Alice, Julia e Catarina, a Claudia, a MariaRita e inúmeras outras. Não esqueçam do dia em que fomos ao casamento do André e do Eric e como vocês correram felizes pela sala deles, como vocês adoram comer pipoca e dormir naquela cama enorme. Continuem cumprimentando os moradores de rua. Da sua primeira “tatuagem”, Gabriel, de super-heróis e piratas feita pela Ju com as canetinhas trazidas pela namorada dela. Totom, do amor e carinho e respeito enorme que a Francisca, negra, pobre e doente tem por você. Gá, lembra como foi lindo quando você perdeu o medo do Arthur e entregou a massinha pra ele? Autismo, Down e tantas outras condições não são motivos de afastamento, pelo contrário.

Esses são alguns fragmentos da vida de vocês que destaco para que entendam, mais uma vez, como são privilegiados. Desta vez, a palavra vem com outro significado. Temos muita sorte em conviver com tanta diversidade. E respeitá-las, amá-las e querer tê-las por perto e em segurança sempre. É rico demais esse universo, meus amores. Não deixem que tirem isso de todos nós, seres humanos. Não deixem que aprisionem quem vocês são. Nem quem são os outros. E essa é uma luta diária, que se dá, inclusive, nos detalhes.

Nunca, jamais façam piadas sexistas. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem riam de uma. Nunca, jamais se refiram a uma mulher com termos pejorativos como “puta”, “vadia” e tantos outros. Nunca, jamais aceitem de boca fechada um desrespeito pelo outro. E lembrem-se, nem sempre a pessoa que está sendo desrespeitada entende o que está realmente acontecendo. É esse o absurdo de sociedade na qual vivemos nestes anos. Muitas mulheres e homens foram criados dentro do contexto machista, e, sem saber, replicam essas atitudes. Eles não tem culpa, e vocês podem ajudá-los a entender.

Sempre, o tempo todo, peçam desculpas ao perceberem que passaram de algum limite. Que erraram. Que desrespeitaram. Quantas vezes a mamãe pede pra vocês? Pedir desculpas não é motivo de vergonha, não é humilhante, não te coloca em posição vulnerável. Pedir desculpas de verdade é para os fortes, filhos. Sejam fortes.

Nunca, meninos, jamais sejam coniventes com o machismo. Nem na sua forma mais disfarçada. Ele é traiçoeiro e pode te enganar. Fiquem atentos. Se policiem. Com um pouco mais de sorte, isso não será difícil e sim natural.

Me repreendam se algum dia eu escorregar. Essa é uma batalha que luto diariamente.

São infintos os motivos que me fizeram chorar na semana passada. E amanhã eu vou pra Paulista, me juntar ao que espero ser uma multidão. Lutar pelo feminismo, pela liberdade, pelo respeito. Vocês não vão. Eu queria levá-los, mas não estou preparada. Respeito meu tempo e o de vocês. Sintam orgulho das mulheres, filhos. E, nesse momento, vergonha dos homens.