pequenos diálogos – gabriel

O interfone toca. Gabriel e Tomás saem correndo. Desde que Gabriel conseguiu alcançar o aparelho, virou o atendedor oficial de interfone aqui em casa. Cumprimenta o porteiro, pergunta quem chegou e diz que pode subir. Não antes sem perguntar “Vai falar com a mamãe?”. Me passa o fone e volta aos seus afazeres de construir castelos.

A campanhia toca. É MariaRita (aqui em casa é assim que a chamamos, num nome só, corrido: mariarita), a fisioterapeuta respiratória que acompanha o Tomás desde a alta da UTI em 2014. Os meninos adoram ela, que é presença constante aqui em casa – e no orçamento mensal – de março a setembro, quando a conta clima + cidade grande fecha, literalmente, a respiração do mais novo.

Os dois correm para porta, só Gabriel alcança a maçaneta e tem coordenação para abrí-la. Mariarita entra e, como sempre, se abaixa pra falar com eles. Gabriel se afasta. Estranhamos. Então, ele diz:

– “Minha voz está com problemas.”

– “Ah é?”, pergunta mariarita, “E o que ela tem?”

– “Ela está em inglês.”, dá de ombros como quem diz que não pode fazer nada e corre para montar seu castelo.

O Dia das Mães não é nada, o começo da vida é tudo.

Eu não vou falar sobre o Dia das Mães, tamanha a importância que esse dia tem na minha vida. (Que é nenhuma.) Eu vou é falar de algo infinitamente mais relevante: o começo da vida. Ele mesmo.

Curiosamente, tive bons Dias das Mães. Ano passado ganhei uma tatuagem, esse ano fui ao cinema com o Otavio e vimos esse documentário maravilhoso. O Começo da Vida.

Pra ser bem clara no quão necessário se faz esse filme, enquanto assistia pensei “porque não passam isso na tv da maternidade?”. Poderia ser receitado pelo obstetra. Ou até vir de brinde naquela maletinha do merchandise que você ganha quando sai recém parida, com shampoo Johnson e baby wipes da Turma da Mônica. Afinal, são coisas que bebê precisa.

Veja, coisas que bebê precisa são respeito, conexão, cuidado, amor. O resto é rotina.

Como muitos disseram, o filme é essencial. Traz reflexões importantes, sensíveis, urgentes. Só que eu não consigo falar muito sobre ele.

começodavida

Me encontro, há alguns anos, num momento emocional muito intenso, um processo profundo de auto-conhecimento. Revisitas e reencontros com a minha história. Reflexos e descobertas importantes. Enormes. Desconstruções, inversão de verdades, de relações. Muitas e muitas memórias, lembranças, novas realidades.

O tempo todo, na sala de cinema, me vi conversando com o começo da vida. Falamos sobre eu e minha maternagem, confusa, julgada, cobrada. Como ela pode incomodar, atrapalhar. A sociedade não sabe lidar com mães. Não nos acolhe.

Eu-criança também estava lá. Eu-mulher, eu-cidadã, eu-feminista. Todas “eu” estávamos lá.

Olhava pra tela e conversava comigo. Passaram flashes na minha cabeça de momentos, pessoas, situações. Tudo que estava ali, finalmente problematizado. Olhava meu umbigo e ele crescia, já não cabia mais só em mim.

Minhas gravidezes, a tranquila e a difícil, meus puerpérios solitários, a descoberta da sororidade, o empoderamento no prédio ocupado do centro.

Gabriel, Tomás e seu ambiente, nossa relação, nossa rotina, nossos cansaços e conquistas. Seus amigos, sua escola, suas relações sociais e como somos, no geral, sortudos nesse aspecto. Mas é impossível ficar passivo ao continuar esse caminho e chegar nas crianças que não tem sonho. Que não tem café-da-manhã. Que não tem pais. E como isso tudo é um desaforo.

Nossa sociedade é burra e pequena. Mas nada esta perdido, apenas esquecido, egoisticamente deixado pra lá. Substituído pelo ego e pela ganância do ser humano e seu desrespeito a si próprio.

Saí de lá gigante. Saí de lá com uma missão.

Estamos formando a humanidade, cara!

E no fim das contas, descobri que achava difícil falar sobre o documentário porque todas nós, mães, e nossos filhos, somos “O Começo da Vida”. Somos este filme. Todos os dias.

** No site do filme tem a lista das salas de exibição em todo o País. E você também pode organizar uma sessão pelo VideoCamp. Não tem desculpa pra não ver. **

 

 

#milnoites A famosa rotina do sono

Uma das primeiras descobertas foi que a tal rotina do sono funciona mesmo. E faz diferença sim. E meus filhos – o mais velho em especial – precisam e gostam dela.

Quando ele era bebê, percebemos que lá pelas 19h30/20h Gabriel sempre dormia. Ainda que acordasse logo mais as 23h ou meia-noite para mamar, era um horário ótimo para que ele fosse pra cama quando emendasse a noite toda. Começamos então a esboçar uma rotina do sono que nos agradasse.

Lá pelas sete era hora do banho, bem calmo, tranquilo. O banheiro já com uma luz mais baixa. Depois íamos até a janela (era verão) para dar “tchau” pro dia e lembrar tudo o que tínhamos feito, locais por onde passamos, pessoas que vimos. Sempre falando mais suave, calmamente, sem excitação. É um momento de “baixar a bola” como diz o Otavio. Depois disso, mamá e historinha até dormir. No colo. Gabriel dormiu embalado no colo até passar pra cama.

Dito e feito. Ser tem coisa que esses livros que mais parecem manuais de robotizar bebês acertaram foi na tal rotina noturna. Em pouco tempo, Gabriel dormia por volta das 20h e só acordava pra mamar. Até hoje é assim. A rotina vai mudando conforme ele cresce e o horário já é um pouco mais tarde. Mas se passa das 21h, ele mesmo levanta e fala que “quer mamá” – código para “estou com sono e quero dormir”.

Tomás não teve muita escolha, como provavelmente a maioria dos segundos, terceiros, quartos (afe!) filhos. Veio em forma de tranquilidade e jamais questionou com choros o horário, a rotina, a maneira, nada. Pelo contrário. Totom não quis ser embalado por muito tempo, passou pra cama antes que conseguisse entrar e sair dela sozinho, dispensou a chupeta sem crise… Mas só parou de acordar a noite quando desmamou mesmo.

Sim. Tentamos acostumá-los a dormir com barulho, sem a casa calma, com luzes acesas e etc. Tudo o que muita gente diz que precisa ser feito para que eles se acostumem a dormir em qualquer lugar. Mas nós não pensamos assim. Simplesmente porque nós mesmos não gostamos de dormir nessas condições. E não nos sentimos confortáveis em fazer isso com eles. Tentamos, só que o Gabriel não é essa pessoa. O Totom sim. Dorme em qualquer lugar, com qualquer barulho, quase em qualquer posição. Se ele tem sono, vem pro colo, se aninha, reclama um pouco e apaga. Sério. A-PA-GA. Gabriel não. Gosta de dormir na cama, no escuro, em um ambiente calmo. E nós respeitamos isso. Não nos importamos nem um pouco. Sono pra gente é coisa sagrada. Eu amo dormir e entendo que preciso respeitar as pessoas que eles são. E essas pessoas são diferentes.

É difícil, é cansativo, mas é muito pior quando por alguma razão, um não dorme bem. O que vem depois é mais difícil – pra mim e, principalmente, pra eles. Hoje em dia, eventualmente, Gabriel até consegue dormir em outros lugares, com outros sons, luzes e agitação. Tudo tem seu tempo.

Afinal, sono é igual gosto: cada um tem o seu, não?

PS – Nenhuma criança aqui foi objeto da experiência de deixar chorar até dormir ou qualquer outra forma absurda de “treino” do sono. Até hoje, eu, Otavio ou nós dois ficamos no quarto com eles até que durmam. Tranquilamente e de maneira que se sintam seguros e conectados.

Santa ceia, Batman!

Macarrão do Hulk, do Homem de Ferro, frango do Falcão, carne moída de cocô, peixinho com pum de minhoca, arroz de lagartixa… Temos uma lista infinita de pratos pitorescos aqui em casa.
Já tive – e ainda tenho – muitas crises com a alimentação deles. Agora me encontro em uma fase um pouco mais tranquila. O lema por aqui nesses tempos tem sido que o importante é a qualidade e não a quantidade.

Refeições lúdicas ajudam os meus dias a serem mais tranquilos – e os deles mais divertidos. Macarrão do Hulk é com espinafre e eles sabem disso. Mas é muito mais gostoso ser do Hulk, verde e deixar forte do que “come esse espinafre que faz bem e deixa forte”. Também é lindo comer no esconderijo (embaixo da mesa de jantar), fazer piquenique na sala, comer no colo, comer com a mão ou com 4 colheres, comer comendo ou fazendo bocão de super-herói, dinossauro e dragão. Uma avó faz lua de pêra e de maçã – cheia, minguante, crescente – e mantém o estoque de castanhas e uva passas cheio, a outra traz manga e melancia nos degraus da escada ou piquenique na laje. São construções de memórias lindas misturadas com uma educação alimentar leve, simples e feliz.

Já encanei que eles precisavam saber exatamente a cara de tudo. Até pratinhos com divisões eu arrumei, só que eles não comiam nada fora do arroz, feijão e filé de frango/carne/peixe. Nenhum leguminho. Nada de cenoura, chuchu, mandioquinha que até então iam bem, misturados na comida. Hoje resolvo isso levando-os para fazer as compras no sacolão, feira e hortifruti. Eles sabem a cara de tudo cru, natural e que fica bom na comida. Depois eu vejo como fazer pra comerem uma cenourinha fora do macarrão do Homem de Ferro ou da carne moída de cocô.

Agora que Tomás fez 2 anos, montamos um calendário e pintamos os finais de semana de verde. No dia verde pode muita coisa. Pode sorvete, bolo, pipoca, brigadeiro, bolacha maisena… – embora o lance ainda seja a qualidade, a quantidade aqui importa. Produtos caseiros, sorvetes artesanais, bolo da vovó… Um pedaço, quatro brigadeiros, uma vez em cada dia. Produtos processados e falsos demais ainda ficam fora. Biscoitos recheados, danoninhos, refrigerantes e afins continuam fora do cardápio eternamente enquanto dure.
Assim vamos levando. Tem dias que eles mal comem, outros de encher o bucho e repetir o prato.

Queremos uma alimentação boa, de qualidade e já estressamos enormemente por conta disso. Vamos buscando um caminho mais leve e desencanamos de tentar fazer o mundo entender e comprar essa ideia. De super-herói em super-herói, de comida nojenta em comida nojenta a gente chega lá.

#milmanhãs “Acordei! Eba!”

Tomás acordou e eu ouvi lá da minha cama um “Acodei! Eba!”. Tem como não amar? Olhei no relógio. Nem seis e meia da matina ainda.

“Tá didia, mamãe. Tá didia!” O que antes era uma pergunta, agora já vem em tom de “pode levantar”.

Os meninos acordam muito cedo. Todos os dias e every single fucking day da semana. Não importa a horas que durmam, nem se é sábado, domingo, feriado.

Eles levantam cedo e cedo se entediam de ficar dentro de casa. Enquanto eu e o Otavio demoramos a funcionar, as 07h30 eles já estão cansados do nada. Gabriel mais que o Tomás – provavelmente por uma questão da idade. E ele verbaliza muitas vezes:

“Gentchí! Gêêênti! Vamos sair?” ou

“O que vamos fazer hoje? E depois? E depois?” ou

“Onde vamos depois do café? E depois? E depois?” ou

“Mãe, preciso trocar de roupa.”.

Tem também o método fofo:

“Mamãe, já tá didia?”, mesmo sabendo que:

“Sim, Gabriel, já tá didia mas isso não significa que a gente não possa dormir mais um pouquinho, filho. Vem.”

Em vão. Sempre. Cem porcento das vezes.

Agora que já não são mais tão bebês, chegam a emendar até umas 07h30, uma vez – exceção – foram até as 08h. Então que um de nós, as vezes os dois, se arrasta da cama até o sofá da sala e tenta mais meia horinha de dorme-acorda-dorme-acorda enquanto eles leem livros ou brincam. Até que bate a fome e começa o coro da bananinha.

“Quero uma bananinha, mamãe.”

“Bananinha! Bananinha! Bananinha!”

Gabriel, mais experiente que o irmão, as vezes lança um

“Vamos tomar café, gêntchi?”

É o código pra “levanta essa bunda do sofá e ‘bora que o dia começou”.

Então já sabemos, especialmente aos finais de semana, que o lance é sair pra rua. Tomar sol ou chuva. Procurar parque, praça, Paulista fechada ou café da manhã na feirinha orgânica. Era um sofrimento que hoje, pensando bem, é maravilhoso. A gente está mais saudável, a gente curte melhor com eles, a família sai de casa. Porque se dependesse dos pais, tadicas dessas crianças.

Essa é uma das coisas que aprendemos aqui em casa quando entendemos que não, seu filho não vai se adaptar a sua vida antiga. Nem você vai mudar a sua vida por causa dele. O grande barato é criar uma vida nova, para todos. Não é maravilhoso?

Eu não sei, mas seu filho sabe…

Então que eu descobri um talento inesperado em mim. O de fazer crianças dormirem. Não sei como. Mas talvez seu filho saiba.

Não me refiro aos meus filhos, pois é sabido que – embora eles durmam geralmente bem – houveram momentos de sofrência em todas as partes envolvidas no processo.

Claro que tenho algumas manhas, e uso e abuso delas. Gabriel já chegou numa idade em que percebe o caminho em que estou o levando e, as vezes, tenta se safar. Geralmente são nesses dias que descubro novas ferramentas. Uma história, uma música, um mantra, um carinho naquele pedacinho da cabeça…

Todos temos nosso ponto fraco. Aquele que o sono, por mais que tente, não consegue vencer. Eu durmo tirando a sobrancelha. Com pinça. Sim. É relaxante. Massagem no pé. Filme chato. Livros que tenham muitos personagens. Ou que dão voltas e não chegam a lugar algum. Qualquer deitadinha que venha seguida da “dor de alívio” (aquela dor de cansaço na base das costas que é ruim, mas é boa sabe?). Chá, vinho, maconha. Essas e muitas outras são armadilhas contra a insônia hoje em dia. É ruim de eu não dormir viu! O maior remédio? Dois filhos. Assim, bem seguidinho. Sem tempo de pensar.

Ora! Crianças são seres humanos. É de se esperar que o que serve pra mim, pode ser reaproveitado, com algumas modificações, para elas.

No começo do ano, fiz a Alice de 1 ano e 9 meses capotar no aniversário da mãe dela. Os meus nem pensaram em dormir, mas a pequena apagou e minha amiga ficou liberada para curtir uma taça de vinho e a visita dos amigos.

Depois um bebê. Coisica mais fofa e linda. Não dormia. A mãe, também amiga, anda exausta. Mais uma na onda escadinha e tem dois meninos pra driblar na hora do sono. Então que depois de o Pedro passar pelo colo do pai, da mãe e do carrinho, arrisquei. Naquele dia em especial, eu andava com saudade de um bebezinho – agora que o meu deixa, aos poucos, as fraldas.

Peguei o bebê. Dei uma pequena volta pelo parquinho, cantei uma música que inventei e que embalava o Gabriel nos seus primeiros meses. Batata!

Entenda. Passei a vida correndo de criança. Tinha certeza de que todas não iam com a minha cara e eu, também, não ia lá muito com a cara melequenta e babada delas. A primeira vez que fiquei sozinha com um bebê foi com a minha sobrinha. Ela tinha uns 8 meses e eu fiquei de babá. Pela primeira vez. Durante os 10 minutos iniciais,a vida estava linda. Ao escorrer a primeira gota de lágrima, meu mundo – e o dela – caiu. Como chorou a pequena! E eu desesperada porque não fazia a menor ideia do que aquele serzinho precisava.

Então fiz o que qualquer adulto sem experiência com bebês faria. Sentei e chorei. Depois troquei a fralda (que estava limpa). A coloquei, aos prantos, no carrinho. E, tentando aparentar calma, empurrei pra frente e pra trás durante o que me pareceu uma eternidade. Até que ela dormiu. E eu estava exausta. Não tinha passado nem uma hora.

Esse final de semana me senti um ser humano muito evoluído. Bebês não são tããããão difíceis de se fazer dormir quanto uma criança de 3 anos. O Gabriel dá muito, mas muito mais trabalho do que o Tomás. Se não estiver tudo escuro e quieto, esquece.

Aconteceu um churrasco e já acordei no modo zen, sabendo que ele não dormiria nem a pau e que nós daríamos um jeito de lidar com o gênio indomável que a falta da soneca da tarde traz. Eram muitas crianças, música alta, agitação, festa, bagunça. “Deixa ele curtir!”.

Levamos colchões para casos específicos, como o Tomás e um amiguinho febril que pudesse capotar. No meio da tarde, toda a garotada de 3 anos estava com sono, mas só uma tinha se rendido.

Num daqueles momentos de “cadê meu filho?”, dou de cara com Gabriel e seu melhor amigo deitados num dos colchões aparentemente conversando. Fui até lá ver se estava tudo bem. Joguei um verde e a colheita foi incrível. Nocaute em duas crianças. De três anos.

E foi assim que eu me senti o Fabio Puentes, aquele cara que hipnotiza as pessoas na tv, fala “bem dormido, bem dormido” e faz com que elas comam cebola achando que é maçã.

Direita brigadeiro e esquerda batata doce. Ou: a luta pela democracia da comida

 

Ah! A Páscoa! Esse feriadinho maroto cheio de significados religiosos e consumistas. Essa sexta sem escola e almoço de domingo, sinônimos de stress para nós, pais da centro-esquerda da democracia alimentícia. Comunistas comedores de tomate, cenoura e melancia.

Centro-esquerda porque não fazemos lancheiras de extrema-esquerda a la Bela Gil. Centro-esquerda porque achamos uma delícia brigadeiro na colher feito em casa com os amigos. Centro-esquerda porque devoramos aquele cachorrinho-quente com a salsicha cheia de restos nojentos de porco, entupida de corante vermelho (claro!) e símbolo dos rega-bofes infantis. Centro-esquerda porque somos saudosos daquela memória afetiva de avó e criança na cozinha raspando a dedo aquele creminho que sobrou na tigela da batedeira enquanto o bolo assa no forno. Centro-esquerda porque acreditamos que uma boa alimentação se pratica desde o dia 1 e não se tenta consertar depois em programas de TV como aquele “Socorro! Meu filho come mal!” ou “Bem Estar”. Centro-esquerda porque entendemos que seu filho sempre comeu mal, você que só percebeu agora.

A indisposição que a (boa) alimentação infantil causa nas pessoas é tamanha que parece (e pelo visto é) uma discussão política. Cheia de lados, opiniões, julgamentos, ofensas, melindres,  falta de entendimento, empatia e respeito. Ninguém enfia um bife goela abaixo de uma pessoa vegetariana/vegana. Mas nega um biscoito passatempo pro seu filho que você logo sente o peso da direita brigadeiro. Muitos praticam gordofobia e/ou bullying infantil. Poucos percebem o quanto somos manipulados facilmente pela propaganda. Quase ninguém lê rótulos. Uma quantidade assustadora de pessoas acredita em tudo o que lê/ouve/vê na TV e em revistas de “grande circulação”.

Tenho entrado em pânico ultimamente quando me percebo saindo do espectro centro-esquerda e flutuando em direção da direita-liberal afim de evitar mágoas, olhares tortos, bufadas impacientes. “Ah! Só um suquinho de caixinha”, “Ah! Só um docinho desse!”, “Ah! Só um potinho de 1/10 de morango com mil aditivos e corantes”. E quando você vê, aquele um só, virou uma montanha. Porque o seu um só, meu amigo de direita, vira 10 quando todos do seu partido repetem o mesmo argumento.

A dicotomia imita as oposições políticas ferrenhas e ofensivas que estamos presenciando atualmente no Brasil. Tem raiva e desdém da direita, que não percebe o quão importante é a educação alimentar da criança. Ainda tem o subgrupo do “você sempre comeu isso e ta aí.”.

Num País onde programas de televisão ensinam a cozinhar, outros acabam ensinando a resolver problemas de saúde e de comportamento alimentar – muitos dos quais não existiriam se houvesse uma atenção maior ao inicio da prática na infância. A busca pela boa alimentação deveria ser um esforço conjunto, de todos, por todos e para todos. Livros, matérias, documentários, sites e mais sites. Bons médicos e especialistas. O conteúdo ta aí, quem tem acesso tem que deixar de ter preguiça.

Ninguém nasce comendo. É algo que se aprende, se pratica, se constrói a partir do exemplo. Assim como a moral, o caráter, o respeito, a empatia, o amor, a bondade. Mas dá muito trabalho e quem tem que educar são só os pais, não é mesmo? Esqueça ditos como aquele africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Nessa aldeia do século XXI, muitas vezes, depender da comunidade nos deixa fudidos, mal pagos, gordos e doentes.

Como fugir da cocaína do açúcar? Porque perder meia hora numa feira/sacolão toda semana, se no mercado tem tudo pronto, empacotado e dura meses? Porque beber a tão insossa água, mesmo que nosso corpo seja composto uns 70% por ela?

poster4Precisamos estragar o paladar logo na infância, desafiar os pais, perder conexões deliciosas entre as pessoas para depois deixar esse ser humano adulto correr atrás do prejuízo sozinho. E então julgá-lo, porque afinal de contas “é gordo porque quer”, “ninguém mandou não saber comer”, “câncer? Jura? Mas ele parecia tão saudável”. Nem vou começar a falar de refrigerantes, balas, bolachas recheadas, nuggets… Puta sociedade bacana né? Estamos de olho na sua participação por uma infância livre e saudável.

Acho que aqui, no centro-esquerda, estão pessoas que deixaram a preguiça de lado, pegaram a informação disponível e buscam um caminho. É uma pena que, ainda assim, sejamos taxados de radicais. Talvez fosse mais fácil sê-lo mesmo. Meus filhos comem chocolate, sim. Só não precisam ganhar mais de UM ovo de páscoa tamanho normal. É desnecessário e não deveria ser uma ofensa pra ninguém. Não deveria atingir você, quando o oposto atinge diretamente pequenos seres humanos que ainda estão entendendo como sobreviver neste mundo. E eles podem ganhar esse ovo participando de uma caça aos ovos do coelhinho, cheia de imaginação, diversão, conexão, cenouras, patinhas, cestas, frutas, ovo de chocolate, amigos, família.

Não precisam de 5 ovos grandes e de chocolate de má qualidade para serem felizes. Eu garanto que eles não vão amar mais ou menos a pessoa que os entope de porcaria. Mas eu tenho absoluta certeza de que serão eternamente gratos e amorosos com uma comunidade que se preocupou em ajudá-los a serem humanos saudáveis, que os mostrou que é possível comer 3 brigadeiros numa festa e não a mesa toda, que construiu junto um caminho cheio de lembranças com muitas cores, cheiros, sabores e amor.

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Não sabe onde tem info? #ficaadica

#Doc Muito Além do Peso (Tem no Netflix)

#Doc “Foodmatters” (Tem no Netflix)

#Doc “Fed Up” (Tem no Netflix)

#Série “Cooked” (Tem no Netflix)

#Matéria O gosto amargo do açúcar e toda a TRIP desse mês

#YouTube canal “Do campo à mesa” (tem também uma lista de livros e documentários bem boas)

#Doc “The sugar film”