Eu não sei, mas seu filho sabe…

Então que eu descobri um talento inesperado em mim. O de fazer crianças dormirem. Não sei como. Mas talvez seu filho saiba.

Não me refiro aos meus filhos, pois é sabido que – embora eles durmam geralmente bem – houveram momentos de sofrência em todas as partes envolvidas no processo.

Claro que tenho algumas manhas, e uso e abuso delas. Gabriel já chegou numa idade em que percebe o caminho em que estou o levando e, as vezes, tenta se safar. Geralmente são nesses dias que descubro novas ferramentas. Uma história, uma música, um mantra, um carinho naquele pedacinho da cabeça…

Todos temos nosso ponto fraco. Aquele que o sono, por mais que tente, não consegue vencer. Eu durmo tirando a sobrancelha. Com pinça. Sim. É relaxante. Massagem no pé. Filme chato. Livros que tenham muitos personagens. Ou que dão voltas e não chegam a lugar algum. Qualquer deitadinha que venha seguida da “dor de alívio” (aquela dor de cansaço na base das costas que é ruim, mas é boa sabe?). Chá, vinho, maconha. Essas e muitas outras são armadilhas contra a insônia hoje em dia. É ruim de eu não dormir viu! O maior remédio? Dois filhos. Assim, bem seguidinho. Sem tempo de pensar.

Ora! Crianças são seres humanos. É de se esperar que o que serve pra mim, pode ser reaproveitado, com algumas modificações, para elas.

No começo do ano, fiz a Alice de 1 ano e 9 meses capotar no aniversário da mãe dela. Os meus nem pensaram em dormir, mas a pequena apagou e minha amiga ficou liberada para curtir uma taça de vinho e a visita dos amigos.

Depois um bebê. Coisica mais fofa e linda. Não dormia. A mãe, também amiga, anda exausta. Mais uma na onda escadinha e tem dois meninos pra driblar na hora do sono. Então que depois de o Pedro passar pelo colo do pai, da mãe e do carrinho, arrisquei. Naquele dia em especial, eu andava com saudade de um bebezinho – agora que o meu deixa, aos poucos, as fraldas.

Peguei o bebê. Dei uma pequena volta pelo parquinho, cantei uma música que inventei e que embalava o Gabriel nos seus primeiros meses. Batata!

Entenda. Passei a vida correndo de criança. Tinha certeza de que todas não iam com a minha cara e eu, também, não ia lá muito com a cara melequenta e babada delas. A primeira vez que fiquei sozinha com um bebê foi com a minha sobrinha. Ela tinha uns 8 meses e eu fiquei de babá. Pela primeira vez. Durante os 10 minutos iniciais,a vida estava linda. Ao escorrer a primeira gota de lágrima, meu mundo – e o dela – caiu. Como chorou a pequena! E eu desesperada porque não fazia a menor ideia do que aquele serzinho precisava.

Então fiz o que qualquer adulto sem experiência com bebês faria. Sentei e chorei. Depois troquei a fralda (que estava limpa). A coloquei, aos prantos, no carrinho. E, tentando aparentar calma, empurrei pra frente e pra trás durante o que me pareceu uma eternidade. Até que ela dormiu. E eu estava exausta. Não tinha passado nem uma hora.

Esse final de semana me senti um ser humano muito evoluído. Bebês não são tããããão difíceis de se fazer dormir quanto uma criança de 3 anos. O Gabriel dá muito, mas muito mais trabalho do que o Tomás. Se não estiver tudo escuro e quieto, esquece.

Aconteceu um churrasco e já acordei no modo zen, sabendo que ele não dormiria nem a pau e que nós daríamos um jeito de lidar com o gênio indomável que a falta da soneca da tarde traz. Eram muitas crianças, música alta, agitação, festa, bagunça. “Deixa ele curtir!”.

Levamos colchões para casos específicos, como o Tomás e um amiguinho febril que pudesse capotar. No meio da tarde, toda a garotada de 3 anos estava com sono, mas só uma tinha se rendido.

Num daqueles momentos de “cadê meu filho?”, dou de cara com Gabriel e seu melhor amigo deitados num dos colchões aparentemente conversando. Fui até lá ver se estava tudo bem. Joguei um verde e a colheita foi incrível. Nocaute em duas crianças. De três anos.

E foi assim que eu me senti o Fabio Puentes, aquele cara que hipnotiza as pessoas na tv, fala “bem dormido, bem dormido” e faz com que elas comam cebola achando que é maçã.

O meu motor 3.8

10agostoQuando descobri o Tomás aqui dentro, um pensamento – dentre tantos – me atormentava. “Agora que meu corpo ia voltar a ser meu!!!”. Eu já tinha perdido todos os quilos que ganhei na gravidez do Gabriel – então com um ano, sua amamentação seguia firme e forte mas com menos frequência, estava começando a retomar a vida de trabalho, sair com amigos, já poderia fazer algum exercício se quisesse, estava cabendo em roupas que sentia saudades de usar… Mais importante, estava me reconhecendo no espelho. Com alguns fios de cabelos brancos e umas ruguinhas novas, mas estava ali. Inteira. Depois de 2 anos.

#Soquenao.

Lá vinha tudo de novo.

IMG_4988Barrigão, enjôos, restrições alimentares, cansaço, micro xixis que nos fazem levantar a madrugada inteira, intestino preso, fomes fora de hora, a busca pela posição para dormir, sentar, andar, comer, tomar banho. E, no caso da gestação do Tomás, tudo isso ainda mais intenso por conta do risco, do repouso forçado de meses deitada.

Depois que essa coisica linda e guerreira nasceu, superou todos os perrengues que o desafiaram assim que chegou nesse mundão-de-meu-deus e a amamentação parou naturalmente, eu pensei que – iuhú – teria meu corpo de volta.

#Soquenao.

Anos atrás, numa Era pré-Tomás, o Gabriel quebrou o único espelho da casa. Um dia viajamos e no hotel tinha um espelho. De corpo inteiro. Quando eu me olhei ali, não me reconheci.

De 2012 pra cá eu tirei de mim duas delícias e um útero. No espaço que ficou, outras fisiologias se formaram. São novas dores, algumas em lugares nunca imagináveis. Dores nas costas, braços, pernas, nessa dobra aqui, nesse local especifico ali. Pés cansados. O cabelo lindo que a gestação trouxe, revelou-se ainda mais rebelde depois de tudo. Ele também mudou. A pele, aquela coisa incrível que os hormônios nos dão, desenhando – literalmente – as noites não dormidas, a batalha da amamentação de um, os dias de uti do outro, toda a montanha russa de emoções e inseguranças dos últimos anos. A cicatriz na barriga, a pochetinha eterna que agora me habita.

Todas as tradicionais tentativas de resolver ganhos de peso, inchaços que pesam nas pernas, alongamentos para melhorar as costas e a flexibilidade se tornaram inúteis. Tudo isso mudou. O tempo deste corpo é outro. Não basta mais uma semaninha pra pancinha sumir pro biquíni. Não basta cortar o álcool pra cara inchada parecer mais saudável. Não bastam 8 raras horas de sono ininterruptos para sentir-se numa nova carcaça.

É um novo corpo. É um corpo que sente tudo isso, mas não reclama.

Captura de Tela 2015-09-24 às 11.03.44É um corpo feliz. Ele olha para o peito novo e lembra de como alimentou e fortaleceu a vida. Ele se estende no chão para esticar-se e espreguiçar-se e ganha de presente dois pesos deliciosos em cima fazendo montinho. Fecha os olhos na cama achando que vai dormir, mas deixa os ouvidos bem atentos – especialmente quando passa o barulhento caminhão de lixo, as chuvas fortes com trovoadas, as febres, cólicas e gases. Se encolhe todo para entrar no esconderijo atrás do sofá ou embaixo da mesa. É o corpo que caminha na Sumaré porque sabe que vai ter que jogar bola, correr na praça, entrar na piscina, dançar a música do Leão, levar pra escola de cavalinho e trazer voando como um foguete. Carregar dois pesos de ouro, muitas vezes ao mesmo tempo, no enorme colo que agora tem.

É um corpo que tem novas prioridades. E ele nem precisou da cabeça para descobrir isso. Só do coração.

A natureza é linda demais.

Me engoliu. Eu gosto de ser mãe dos meus filhos.

us3A chegada dos meninos na minha vida teve um impacto enorme. E todo aquele clichê. Por mais que eu fuja, é inegável.

Vamos assumir. É transformador, é intenso, é lindo, é uma experiência fora do corpo. É um puta trampo e é bom demais.

Mas não foi sublime pra mim. Não foi esse retrato romântico que pintam por ai. Para a mãe do Gabriel e do Tomás não foi sublime, não foi romântico, não foi fácil. Me engoliu. Eu gosto de ser mãe dos meus filhos.

É transformador porque eu saí da pessoa que eu era e me tornei uma que nunca imaginei. E corri de assumir isso porque não tenho paciência nem humor para o “eu te disse” nem para os olhares de “ai que saco, mais uma dessas”.

Apenas porque eu não sou. Não sou mais uma dessas e não, você não me disse. Simplesmente porque você não saberia. Você teve a sua transformação e eu a minha. E cada uma é diferente por uma série de fatores, isso é óbvio. Me irritaria ter que explicar isso. Então não vou, eu sei que você pode entender.

O mundo materno está cheio de verdades absolutas e pouca empatia. Muita experiência e poucas mãos dadas. Muito julgamento e pouca mão na massa.

É lindo uma mãe que consegue alimentar seus filhos só com alimentos orgânicos, comida feita por ela ou pelo pai, ela trabalha, ela arruma a casa, ela não tem ajuda, ela não terceiriza, ela teve parto natural em casa, ela amamentou até os 2 anos… Gente! Ela é perfeita! Ela coloca todas nós, imperfeitas, no papel de menos mãe. E essa é uma carapuça muito fácil de vestir quando você descobre que junto com aquele bebê lindo, fofo e com cheirinho de leite nasce também uma culpa. É inerente. Vem no pacote. Não é possível ter um sem ter o outro. E cada mulher vai lidar com isso da sua maneira. Umas mais dramáticas, umas fingindo que ela não existe, umas tentando negociar com ela… Mas ela ta lá.

Ela não é católica, ela não é exclusividade das judias, ela não é frescura, ela não é TPM. Ela é culpa porque ela é aquela voz pentelha na sua cabeça perguntando o tempo todo se o que você está fazendo é o melhor para seu bebê? e pra você? E pro pai? E pro mundo? É o que a perfeitinha faria? É o oposto que aquela mãe que você acha um horror faria? Dá pra ser melhor que isso? Você explorou todas as possibilidades?

Essa mãe que faz tudo sozinha sem ajuda de ninguém da maneira perfeita não existe. E ela é muito sacana de fazer você acreditar que é possível. Não é. E não precisa ser.

E é por isso que eu não sou uma dessas. É por isso que você não pode dizer que me disse. Porque você tem a sua experiência, você faz e convive e banca e lida com as suas escolhas. E é lindo e difícil!

Eu também tenho que fazer isso.

Muito ajuda quem compartilha histórias, não verdades, quem abre para uma nova maneira de ver as coisas ao invés de argumentar que “sempre foi assim e deu certo”. Muito ajuda quem lava a louça acumulada da pia, enquanto você, exausta, dorme. Muito ajuda quem não julga e enche sua geladeira de congelados quando você chega da maternidade. Muito ajuda quem não pergunta, mas ouve. E escuta. Muito ajuda quem diz que você pode ter um parto possível, e que pode não ser o da sua escolha. E tudo bem, vai ser lindo mesmo assim. Muito ajuda quem não busca doutrinar, ou ensinar, ou afirmar, mas sim acolher, conhecer, olhar pro outro com os olhos do outro e não os seus.

Eu tenho certeza que a perfeitinha tem um pouco de realidade na vida dela. Ela não compartilha, ela não mostra. Talvez porque ela não queira, talvez porque ela não goste, talvez porque ela precise se sentir perfeita.

Mas talvez, só talvez, porque ela esteja sofrendo dessa pressão moderna que chegou para acumular com a culpa. Daquele olhar reprovador quando você senta no restaurante e coloca “Pocoyo” no celular pro seu filho quando ele termina de comer, enquanto você come.

Eles podem ver TV. Eles podem dormir sem tomar banho – inclusive mais de um dia seguido. Você vai dormir sem tomar banho – as vezes mais de um dia seguido. A perfeitinha também, não se iluda. Tudo bem se seu bebê dorme as 20h, tudo bem também se ele dorme a meia noite. Se ele dorme de dia ou não. Se você embala ou não. Se compartilha cama ou não.

Desde que ele esteja feliz e saudável, tudo, absolutamente tudo, em moderação não causa nenhum mal irreparável na sua criança. Porque você, desde que não seja um monstro*, é, antes de mãe, humana.

*( monstro bate, monstro assusta, monstro negligencia, monstro abandona, monstro não exerce papel de mãe/pai de maneira saudável e não violenta)

Ensaio sobre a comida

“Quando eu me tornei essa pessoa?” Tipo de pensamento que ocorre sempre que você se percebe fazendo alguma coisa que não fazia, até mesmo que jurava que jamais iria fazer.

Cozinhar, por exemplo.

Quando fui morar sozinha vivia a base de macarrão com molho pronto ou arroz branco com caldo knorr acompanhado de um filé de frango congelado da sadia que eu achava que era super light e saudável porque era feito no forno e não frito. Hashtag só que não.

Eu trabalhava muito. E em horários que só sendo jovem e solteira eu aguentei. Tem gente que ‘guenta por bem mais tempo, tem gente que não larga essa vida por nada, tem gente que largou mais cedo que eu. Ok. Ok. Ok. Cada um…

Fato é que eu não tinha tempo mas também nunca fui muito chegada no fogão. Sempre gostei de comer bem, mas nunca pensei em fazer comida. Não sei exatamente quando foi que descobri que abrir uma garrafa de vinho, bater papo e cozinhar era gostoso. Mas, ainda bem, eventualmente eu descobri.

Então passei a cozinhar vez ou outra pra mim, vez ou outra pra mim e pro namorado, cheguei até a arriscar vez ou outra e fazer alguma coisa para poucos amigos. Não sou um talento, mas quebro um galho.

Um dia eu engravidei. E durante a gravidez nem me passou pela cabeça que aquele serzinho teria que comer. E que ele não ia nascer já com dentes e um paladar bacana para compartilhar a mesma refeição que eu. Também foi quando eu assisti “Muito Além do Peso”*. E quando coloquei em mim mesma a missão de ajudar o pequeno feijão da barriga a saber comer bem, saber escolher, saber experimentar.

Vocês sabiam que isso é quase uma guerra? São muitas as batalhas. A primeira delas foi eu comigo mesma. Me preparar, entender como fazer isso, aprender que papinhas não são apenas legumes cozidos e amassados sem sal e sem graça, ou que, na natureza, elas não vem em potinhos fofos. Aprendi a ler rótulos e que caldo knorr é um veneno pro corpo e pra alma.

Quando o feijão nasceu e completou seis meses, uma labuta sem fim de barriga no fogão começou. Eu não queria dar comida pronta. Eu não queria dar purezinho de legumes insosso todos os dias. Me fudi, mas era a minha escolha e eu tive que bancar. Taí uma das grandes tarefas de ser mãe: bancar as escolhas que você faz para seus feijões.

Essa ainda é uma pequena batalha pra mim. O pequeno tesão que eu estava descobrindo em cozinhar morreu. Virou obrigação, virou função, passou a ter horários, rotinas. Virou estrela e apagou.

As outras batalhas são aparentemente menores, mas muito mais chatas. Porque o mundo, meus amigos, o mundo não perdoa. E poucos ajudam.

Os mais velhos, aqueles mesmos que insistem em nos ensinar como a paciência é uma virtude e que é importante saber esperar a hora das coisas, esquecem disso tudo rapidinho e ficam malucos para apresentar doces, bolos, danoninhos, pirulitos e outras besteiras desnecessárias aos pequenos seres humanos que nem em pé ficam. É claro que eles vão comer tudo de bom e de ruim que tem nesse planeta, mas não precisa ser agora. Já. Os bebês são eles, não vocês. Lidem com essa urgência besta.

Quem não tem filhos, acha um exagero. E adora repetir histórias que contém a frase “eu fiz/comigo foi assim e não morri”. Assumo que já fui dessas. Ainda bem que o mundo gira, ideias e conceitos são revistos e podemos mudar e trazer novas experiências para nossas vidas, não é mesmo?

Quem tem e já são grandes, desdenha. Como se sua experiência fosse mais válida e ele um ser superior porque “já passou por isso e sabe bem como é”. “Mas relaxa!” eles dizem.

Eu relaxo sim. No meu tempo. Na hora em que eu me sentir confortável com a ideia de dar comidas com ingredientes de nomes compridos e que não fazem nenhum sentido. Porque isso vai rolar sim. Eu sei, não precisa me contar. Eu não nasci pra tanto. Admiro quem quer e consegue. Mas eu não consigo e não quero e sei que uma hora isso tudo vai passar e eles vão se fartar de boberagens por ai. Como ontem, que jantaram pipoca, pãozinho de cachorro quente com o molhinho de tomate da salsicha e brigadeiro.

Fiquemos tranquilos. Tenhamos mais empatia.

Seremos todos felizes.

* ASSISTA!

daquelas sofrências que não se tem mais

daquelasfoi muito e foi tanto e foi demais que não cabe aqui. intenso não começa nem a adjetivar tudo. não sei se já inventaram uma palavra pra isso. sai um peso sem culpa. foram anos, meses, semanas, dias, horas de medo, dor, cansaço, incertezas, solidão. solidão a três. solidão a quatro. eu não mereço culpa. eu não aguento mais drama. eu não preciso de nada disso. eu já entendi muito. eu só quero desopilar.

não porque queira abrir espaço para uma nova carga. não com esse peso. não com esse preço. embora o saldo tenha sido excepcionalmente positivo, o caminho foi esburacado demais. amenizado por poucos e ignorado por muitos. sem pena, sem conselhos, sem verdades, sem julgamentos, sem questionamentos, sem entendimentos. junto apenas. e não com aqueles pelos quais esperei e nunca apareceram.

já passei pelo desapontamento. passei pela raiva, pela frustração, pela tristeza, pela negação. já arrumei justificativas. já me culpei, já me julguei pelo buraco causado pela decepção que meu peito sentiu em noites intermináveis, manhãs exaustas, rotinas puxadas. entendi o quão superficial a modernidade tornou palavras como “amigo”. como são vazias as gírias “tamo junto” e “é nóis”, pra citar um exemplo ou dois. que hashtags não passam de novas formas de dizer aquilo que pode nos dar mais audiência e simplificar o entendimento geral acerca de qualquer bobagem.

eu sou foda. e nossa solidão a três e a nossa solidão a quatro me mostraram que somos foda. demais. e que somos só. somos nós e só. que, ainda bem, agora somos quatro. formamos um cinturão que só a gente sente, vê, toca, molda e que nos protege, nos une, nos sustenta e alimenta.

nos foi dada a oportunidade rara de selecionar com a nossa própria peneira. não precisamos excluir nada, apenas aceitar, entender e respeitar até onde vai cada um, cada gratidão, cada ego, cada limite, cada compartilhamento de vida.

eu não me culpo mais. eu não me ridicularizo mais pelo que senti. eu não me aumento pela minha história, nem te julgo pela sua. eu sei onde apertam os sapatos aqui de casa e isso é só nosso mesmo. só em nós dói e só em nós resolvemos. cansei de procurar, esperar e contar. isso tudo é uma ilusão. que me julguem exagerada, distante, irônica, radical. não me cabem essas carapuças.

que se olhem e se assumam. sê inteiro, diria algum poeta por ai. sê de verdade. eu estou aqui. inteira com minha deliciosa solidão a quatro. e noutro mundo. não mais o seu, não mais aquele meu e, com certeza, não mais o nosso. um novo mundo onde todos vocês cabem, onde todos vocês continuam sendo queridos e amados, mas onde eu não espero mais, onde eu não me permito mais as sofrências de outrora.

(a simbologia dessa foto não é para compreensão de todos. nem quero que seja. ela me pertence e me dou esse direito. não quero ninguém me contando, me lembrando o que isso significa. eu sei. melhor do que você. melhor do que você jamais saberá. e não me venha contar a sua história, ou compará-la a minha, ou se heroizar (tornar-se herói, existe essa palavra?). não venha com “e eu que blá blá blá…”. que bom que você vive a sua vida e eu a minha. aos curiosos digo que se não entendeu, não precisa mais entender. esse tempo já passou e você perdeu. e digo que perdeu porque foi intenso, foi forte, foi lindo, foi difícil. e é eterno.)

(de 07/abril/2015)

Para lembrar sempre

Há algum tempo tenho encontrado a mãe que eu não quero ser por aqui. A rotina intensa que a vida ganhou depois que vocês chegaram tem me tirado da estrada. Uma estrada que venho desenhando com muita procura, muita pesquisa, muita busca para não ser a mãe que eu não quero ser. Um caminho que procuro para me livrar de hábitos muito enraizados aqui dentro, de traços fortes da minha jornada misturados com uma personalidade um tanto intolerante e impaciente. E tem dias que eu consigo. E são os dias mais incríveis que temos. Não por vocês, porque vocês são incríveis todos os dias. Mas porque eu consigo ser incrível pra vocês também. Quando deixo de lado o impulso de agir conforme está programado dentro de mim, conforme aprendi que é assim e ponto, e consigo respirar, pensar e fazer as coisas de maneira mais consciente e de acordo com o que acredito ser mais saudável pra nós quatro. Mas principalmente pra vocês. Porque o mundo, meus amores, o mundo é foda pra caralho. E eu não quero prepará-los para ele não. Eu quero é buscar com vocês uma maneira de que todos nós façamos parte de algo melhor. O mundo é foda por culpa dos adultos. O mundo é foda por conta de ideias e conceitos e atitudes e certezas e verdades absolutas que hoje já são por demasiado antigos – tão bolorentos quanto a palavra “demasiado”. Enquanto vocês descobrem como fazer as coisas mais básicas – como comer, dormir, cagar, brincar – eu e seu pai descobrimos como podemos ser parte d”a mudança que queremos ver no mundo”. E nossa parte são vocês. Não queremos que vocês obedeçam. Não queremos impor limites. Não queremos estabelecer regras. Não queremos que vocês façam suas obrigações. Não gostamos dessas palavras. Não nos agrada o autoritarismo que elas carregam. Vocês vão descobrir, buscar, conhecer, experimentar. Vamos juntos escolher e decidir quais são as nossas regras. Vamos nos respeitar através do amor, e assim seremos respeitados naturalmente. Vamos entender e construir juntos a nossa rotina para que o lado entendiante do dia a dia aconteça de forma mais leve e fluida. Tenho pra mim que assim poderemos ajudar o mundo a ser mais legal, mais leve, mais respeitoso. Pois que vocês são parte dele. E se o mundo é foda, se as pessoas são autoritárias, se se revoltam de forma violenta, se não respeitam o vizinho, se não conseguem conviver, se não buscam – ou cansaram de buscar – aceitar e entender as diferentes vivências e escolhas, não as julgue – posto que julgar é outra daquelas palavras das quais não gostamos por aqui. Elas não sabem o que estão fazendo. Estão apenas agindo como lhes foi ensinado, imposto, sem aceitar qualquer mudança. As pessoas tem medo daquilo que não controlam, meus amores. É por isso que eu tenho medo do ódio, da intolerância, mas elas têm medo do amor. E acabam, por ignorância e/ou comodismo, sendo assim, antigas. Na maioria das vezes, elas nem percebem, não sabem enxergar. Quando se depararem com um dos antigos, explorem. Descubram e tentem entender seus conceitos. Ouçam e busquem algo de bom – sempre tem. Mesmo que seja a distância.