O Dia das Mães não é nada, o começo da vida é tudo.

Eu não vou falar sobre o Dia das Mães, tamanha a importância que esse dia tem na minha vida. (Que é nenhuma.) Eu vou é falar de algo infinitamente mais relevante: o começo da vida. Ele mesmo.

Curiosamente, tive bons Dias das Mães. Ano passado ganhei uma tatuagem, esse ano fui ao cinema com o Otavio e vimos esse documentário maravilhoso. O Começo da Vida.

Pra ser bem clara no quão necessário se faz esse filme, enquanto assistia pensei “porque não passam isso na tv da maternidade?”. Poderia ser receitado pelo obstetra. Ou até vir de brinde naquela maletinha do merchandise que você ganha quando sai recém parida, com shampoo Johnson e baby wipes da Turma da Mônica. Afinal, são coisas que bebê precisa.

Veja, coisas que bebê precisa são respeito, conexão, cuidado, amor. O resto é rotina.

Como muitos disseram, o filme é essencial. Traz reflexões importantes, sensíveis, urgentes. Só que eu não consigo falar muito sobre ele.

começodavida

Me encontro, há alguns anos, num momento emocional muito intenso, um processo profundo de auto-conhecimento. Revisitas e reencontros com a minha história. Reflexos e descobertas importantes. Enormes. Desconstruções, inversão de verdades, de relações. Muitas e muitas memórias, lembranças, novas realidades.

O tempo todo, na sala de cinema, me vi conversando com o começo da vida. Falamos sobre eu e minha maternagem, confusa, julgada, cobrada. Como ela pode incomodar, atrapalhar. A sociedade não sabe lidar com mães. Não nos acolhe.

Eu-criança também estava lá. Eu-mulher, eu-cidadã, eu-feminista. Todas “eu” estávamos lá.

Olhava pra tela e conversava comigo. Passaram flashes na minha cabeça de momentos, pessoas, situações. Tudo que estava ali, finalmente problematizado. Olhava meu umbigo e ele crescia, já não cabia mais só em mim.

Minhas gravidezes, a tranquila e a difícil, meus puerpérios solitários, a descoberta da sororidade, o empoderamento no prédio ocupado do centro.

Gabriel, Tomás e seu ambiente, nossa relação, nossa rotina, nossos cansaços e conquistas. Seus amigos, sua escola, suas relações sociais e como somos, no geral, sortudos nesse aspecto. Mas é impossível ficar passivo ao continuar esse caminho e chegar nas crianças que não tem sonho. Que não tem café-da-manhã. Que não tem pais. E como isso tudo é um desaforo.

Nossa sociedade é burra e pequena. Mas nada esta perdido, apenas esquecido, egoisticamente deixado pra lá. Substituído pelo ego e pela ganância do ser humano e seu desrespeito a si próprio.

Saí de lá gigante. Saí de lá com uma missão.

Estamos formando a humanidade, cara!

E no fim das contas, descobri que achava difícil falar sobre o documentário porque todas nós, mães, e nossos filhos, somos “O Começo da Vida”. Somos este filme. Todos os dias.

** No site do filme tem a lista das salas de exibição em todo o País. E você também pode organizar uma sessão pelo VideoCamp. Não tem desculpa pra não ver. **

 

 

Minha auto ajuda

Os TEDs Talks são, pra mim, a melhor invenção que a auto ajuda já teve. Uma das coisas que mais me agradam é que sempre quem fala conta como fracassou antes de descobrir toda aquela maravilha que vai dividir com a gente. Lembro de ter ouvido isso num dos milhares que já assisti: “O TED é uma reunião de fracassados.”.

Um dia caiu na minha mão o TED de uma mulher chamada Brené Brown. O nome era “The Power Of Vulnerability”. É um dos meus prediletos. Ela finalmente fez com que eu entendesse que o que falta no mundo é empatia, e como ela funciona. E como ela está em falta em doses cavalares. Mesmo as pessoas que acham que praticam a empatia, não a fazem. Eu não a fazia – e tenho certeza que nem sempre (ou quase nunca!) consigo.

Isso me abriu um novo mundo em relação aos meus filhos. Como me conectar com eles, como ser uma pessoa melhor pra eles, como me colocar em seu lugar e assim fazê-los entender um pouco do mundo.

Já tínhamos escolhido aqui em casa a história de não querer que eles entendam as coisas com o uso imperativo das palavras. Acreditamos na capacidade deles de compreender por outras formas e entendemos que a postura superior, imperativa, que ordena também distancia e pode causar sentimentos pouco agradáveis.

É muito difícil. Muitas e muitas vezes acabamos perdendo a mão e apelando para o caminho mais curto e enraizado da ordem, da obediência através do falso respeito, do descontrole emocional que se espalha como fogo.

Mas estamos tentando, dia após dia. E, muito importante, reconhecendo cada um desses momentos de perda da rota e indo até eles com desculpas e novas maneiras de se entender..

 

[GRLPWR] Freda Kelly

freda

Não é só porque ela teve o emprego que muitas, centenas, milhares de jovens dos anos 60 gostariam de ter. Freda Kelly acaba de ficar conhecida por isso, e aproveitou para mostrar porque é uma pessoa tão especial e rara nesse mundão.

Quando terminei de assistir “Good Ol’ Freda” segurei pra não chorar. É triste chegar a conclusão que, especialmente hoje em dia, poucas pessoas – ou quase nenhuma – tem tanto respeito, lealdade e amor em troca de nada. Freda acompanhou os Beatles desde sempre. Desde a bandinha que tocava a tarde no Cavern até o final. Freda apagou a luz.

Ela nunca se gabou disso. Nem entre família e amigos. Freda nunca entregou uma historinha sequer. Nem no documentário. Era apenas uma garota fazendo seu trabalho. Era presidente de fã-clube numa época que esse cargo, aparentemente, tinha outro propósito. Ou foi ela que o tratou com mais cuidado, maior importância, muito respeito. Não sei.

Tinha tudo para se deslumbrar. Começou aos 17 anos, uma menina. Poderia ter feito dinheiro vendendo todo tipo de informação sobre a maior banda do mundo. Ontem, hoje e sempre. Freda podia ter feito seu documentário anos atrás – podia ter feito no dia seguinte que o grupo acabou. Podia ter feito um documentário cheio de histórias inéditas – boas e ruins. Poderia ter se aproveitado muito dos 11 anos de convivência próxima e intensa com o maior e mais importante fenômeno da cultura pop que foi o cometa Beatles. Uma banda com uma vida tão curta em tempo, mas infinita em relevância.

Todo mundo quer uma lasquinha do artista. Todo mundo quer uma lasquinha de qualquer coisa que possa trazer algum alívio que preencha essa frustração permanente que o ser humano parece ter desde que o mundo é mundo e o vizinho tem um gramado aparentemente mais verde do que o seu. Pensei muito nisso há alguns dias e conhecer a vida dessa mulher me fez, confesso, perder um pouco mais de fé na humanidade.

Considero quase impossível que exista uma outra Freda. Alguém 100% dedicada, focada e discreta. Freda deixou ao mundo uma lição de cumplicidade e respeito.

Good Old Freda. Good Old Girl.

#beatles, #mãe, #fã, #anos60, #lealdade

Freda Kelly foi secretária dos Beatles durante toda a carreira do grupo. Trabalhou diretamente para Brian Epstein. Era também presidente do fã-clube e peça fundamental na história. Teve dois filhos e ainda hoje trabalha como secretária.

Procure saber: Doc Good Ol’ Freda (disponível no Netflix)

[GRLPWR] Tati Ivanovici

foto: drago/doladodeca
foto: drago/doladodeca

“o elogio é o maior potencializador de pessoas e talentos, não economize belas e saudáveis palavras, elas contaminam ambientes e pessoas, iluminam a vida…
economize o ranço… senão tem nada de bom a dizer, não use a boca.”

Quando eu conheci a Tati ela vendia brigadeiros pra completar o salário da MTV. Ela tinha uma moto tipo essas vespas, hondabiz ou algo do gênero. Um nadinha mais nova que eu mas infinitamente mais esperta, maravilhosamente empoderada quando essa palavra nem era usada, descolada, certa de quem era e do que queria. Eu conhecia a Tati porque admirava ela e comprava seus brigadeiros sempre que tinha.

A Tati foi uma das primeiras mulheres que conheci de perto e que me inspiraram a ser quem eu era. Parece simples, mas pra mim nunca foi. E ela ainda fazia isso num lugar bem mais difícil que eu. Hip Hop, periferia, mulheres, respeito, humildade, comunidade, tudo junto e misturado. E como fez! Tati apresentou o Yo!, levou o rap pra MTV e expandiu o espaço dele na grade da emissora, dirigiu programas e reportagens, criou a rede Do lado de cá e muito muito mais.

Tati fez pra mim também. Sem saber. Me mostrou a realidade por trás do hype de trabalhar na MTV – muito trampo pra pouco salário, muita liberdade para fazer o que queria e como isso valia a pena – ainda que tivesse que fazer brigadeiros pra completar o balanço do mês. Mas acima de tudo, me mostrou que é possível ser uma mulher forte e doce, que “Você não escolhe onde nasce, mas escolhe o que vai fazer da sua vida”.

Nunca fomos amigas. Lamento. Frequentávamos vidas diferentes. Foi só por isso. Mas a partida dela me deixou completamente desnorteada. O mundo carece de pessoas como a Tati, e tudo vai ficar mais difícil e triste sem ela por aqui.

#jornalista, #articuladoracultural, #hiphop, #rap #periferia, #culturajovem, #mulheresdoprogresso, #progressocompartilhado

 Jornalista e articuladora cultural, se tornou referência no mercado de comunicação como insider das comunidades. Trabalhou na MTV e em outros veículos como TVs, jornais e revistas, sempre ligada à cultura jovem, música e periferia. Lançou o projeto “DoLadoDeCa”, um portal de divulgação iniciativas culturais, do cotidiano da periferia e entretenimento popular. O site virou a Rede DLDC que desenvolve projetos de comunicação integrada dentro da lógica do progresso compartilhado.

Procure saber: Do lado de cá, Mulheres do Progresso, TEDx “Classe C, C de Cultura” (2011), TEDx “Progresso Compartilhado” (2014), MyMTV, entrevista TPM

[GRLPWR] Cássia Eller

A voz, a atitude, a bondade, o empoderamento, o amor… Cássia teve coragem para ser, assumir e fazer em pouco tempo o que muita gente – muita mesmo! – não conseguiria nem numa vida eterna.

Gravou canções lindas, intensas. Mas deixou para nós, humanos comuns e covardes, muito mais.

Em determinado momento do documentário “Cássia Eller” aparecem Maria Eugênia – esposa de Cássia – e Chicão recebendo alguma premiação póstuma da cantora. No discurso de agradecimento, Maria Eugênia falou uma das coisas mais bonitas que eu já ouvi, algo como “ela me deixou um filho lindo, e deixou uma mãe de presente pro Chicão”. Não lembro a frase exata, mas isso não importa.

Com suas loucuras e sanidades, ela foi intensamente o que acreditava. Sem alarde, sem militância, sem bate boca, Cássia viveu com Eugênia, Cássia teve um casamento aberto, Cássia engravidou e amamentou e cuidou, Cássia deixou sempre claro que Chicão era dela e da esposa. Cássia deixou o filho com sua esposa e a mãe com seu menino. E fez a justiça e um País inteiro ficarem ao lado dessa família nada tradicional. Cássia mataria um Feliciano por dia só por existir.

Ela provocava no palco. Sua atitude, suas expressões, a força de sua voz. Mas a provocação maior veio por viver. Simples assim. Sem alardes da vida pessoal. Com amor e verdade.

#cantora, #mãe, #intérprete, #músicapopular

Cássia Eller foi uma grande artista dos anos 90. Conhecida principalmente por seu jeito roqueira, Cássia na verdade interpretou canções dos mais variados estilos e compositores – do rock agressivo do Nirvana a sambas de Riachão, de Chico Buarque a Chico Science, cantou com artistas de rap e sambistas renomados. Sempre escolheu muito bem seu repertório. Com sua voz grave, teve uma carreira curta mas de forte relevância para a música brasileira.

Procure saber: AllMusic / Acústico MTV / Especial TV Cultura / Doc “Cássia Eller”