Sobre como afastamos nossas crianças da empatia

Empatia, dentre outras coisas, é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Compreender e, assim, acolher suas emoções e sentimentos. Hoje, estamos a anos-luz de uma sociedade empática. Ao mesmo tempo que nunca falou-se tanto sobre como ela é importante para a conexão entre as pessoas e a educação emocional de nossas crianças.

O ser humano nasce com essa capacidade. Somos nós, adultos, que os afastamos dela. Nós mesmos, que depois exigimos tanta compreensão das crianças, jovens e adultos ao nosso redor. Nós mesmos, que temos a capacidade de entender que o mundo precisa de mais união e senso de coletividade. Nós mesmos, que depois acusamos uns aos outros por não sermos compreensivos, e saímos a procura de um conforto que não existirá sem a empatia.

Há algum tempo, pipocou na interwebs um vídeo de um garoto americano que foi tomar uma injeção – não sei se era vacina ou medicação. O menino estava visivelmente apreensivo. O pai, tentando lhe dar apoio, repetia insistentemente para ele não chorar, que ele era um menino grande e, ao final, o fez repetir “Sou homem”.

Compartilhamentos fazendo alusão à fofurice do vídeo. Em mim a reação foi completamente diferente. Me bateu uma tristeza profunda. Aquele menino absorveu tantos conceitos tortos naqueles 2 minutos… A ideia de que homem não chora, o machismo, a falta total de carinho do pai, o distanciamento emocional. A cara dele segurando o choro, o esforço, é de cortar o coração. Os adultos entenderam tudo errado e enalteceram a atitude do pai, em direção totalmente oposta a qualquer sentimento de compaixão e carinho por aquela criança.

Essa semana, novamente, apoiamos soluções paliativas carregadas de individualismo, rancor e desconexão. Apareceu na internet uma foto de dois irmãos dentro de uma camiseta enorme – a “camiseta da união”. Muita gente compartilhou com coraçõeszinhos, comentários de fofurice ou “vou arrumar uma dessa” – considerando aplicar a mesma técnica de educação dentro de casa.

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Sério mesmo mundão? Irmãos brigam o tempo todo. É natural. Entendo que queremos que eles se amem, que saibam que existe uma ligação intensa ali. Desejamos fortemente que eles se apoiem e sejam unidos. Mas acredito que essa é uma conexão criada a partir de momentos de amor e raiva. De tapas e beijos mesmo. Eles também precisam aprender a respeitar o espaço de cada um. Não tem o menor problema que não queiram se abraçar logo após uma briga. Precisam se acalmar, digerir, refletir, dar um tempo. Não é assim conosco muitas vezes?

Em um minuto de reflexão, podemos rever nosso comportamento em relação a essas situações. Antes de compartilhar, de achar fofo, de usar algumas “técnicas” em casa, coloque-se no lugar dessas crianças. Quando você discute com alguém, gostaria de ficar preso numa camiseta gigante com essa pessoa? Ser obrigado a dizer que ama num momento de raiva? Pedir desculpas sem ter refletido sobre o que aconteceu?

Preferimos seguir afastando nossas crianças em prol de compartilhamentos e likes ou conectá-las com o próximo preservando-as e acolhendo-as? Por enquanto, temos sido seres humanos horríveis.

*Se quiser ver o vídeo do garoto da vacina, procure. Não acho saudável compartilhar essas coisas.

*Em relação à foto, tirei o rosto das crianças. Numa pesquisa rápida no Google Imagens com “Get Along Shirt” (essa “técnica” veio dos EUA), você verá fotos de crianças sempre tristes, bravas, com raiva. Além de tudo, os pais ainda acham legal expor seus filhos nessa situação. Lamentável, mundo, lamentável.

Primeira carta aos meus filhos

(Foto Otavio Sousa – papai)

Meninos,

Vocês não precisam dar beijo quando não querem. Não precisam abraçar ou serem abraçados quando não querem. Vocês não precisam sentar no colo de ninguém se não estão afim. Não são obrigados a tocar ou serem tocados por nenhuma outra pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. Isso inclui a mim e a seu pai. Nós também não podemos invadir o espaço que é de vocês – e o seu corpo é só seu.

Não deixem que os adultos confundam vocês exigindo respeito em forma de beijos, abraços, carinhos. E não confundam também.

Respeito é essencial. Devemos respeitar a todos. Mas ele não envolve contato físico. E respeito a vocês mesmos é tão importante quanto à qualquer outro ser humano.

Respeito envolve não abraçar quem não quer abraçar vocês. Não beijar, não tocar, não brincar nem brigar. Respeito também significa empatizar ao perceber um amigo passando por uma situação na qual ele não está confortável ou seguro. Meus amores, se alguém tentar violar seu espaço, seu corpo, seu emocional, sua cabeça… Se vocês perceberem um amigx numa situação dessas… Por favor… Espero que eu consiga mostrar no dia a dia como podem agir para se defenderem e ao próximo. Como é de direito de vocês exigirem respeito ao próprio corpo, às suas vontades. Como é importante que interfiram quando presenciarem o desrespeito à outras pessoas. Segurem quem estiver agindo desta forma e façam com que a situação pare.

Nessa história toda, temos um agravante horroroso, meninos. O machismo, a misogenia. Essas palavras feias e difíceis estão presentes até mesmo em quem é vítima delas. Protejam suas amigas, as mulheres a sua volta. Vocês são privilegiados. Nunca se esqueçam disso. São homens e brancos. Eu sei que é complicado entender, mas apenas esses dois detalhes os colocam automaticamente nesta posição. Um privilégio injusto. Então, finquem raízes onde devemos estar. Fiquem ao lado das mulheres, dos homossexuais, negros, pobres, índios, imigrantes, dos doentes, das crianças.

Nunca esqueçam as mulheres maravilhosas e fortes que vocês tem na sua vida – eu, Tia Pi, Vovó Lus, Vovó Cida, Tia Cá, suas primas Alice, Julia e Catarina, a Claudia, a MariaRita e inúmeras outras. Não esqueçam do dia em que fomos ao casamento do André e do Eric e como vocês correram felizes pela sala deles, como vocês adoram comer pipoca e dormir naquela cama enorme. Continuem cumprimentando os moradores de rua. Da sua primeira “tatuagem”, Gabriel, de super-heróis e piratas feita pela Ju com as canetinhas trazidas pela namorada dela. Totom, do amor e carinho e respeito enorme que a Francisca, negra, pobre e doente tem por você. Gá, lembra como foi lindo quando você perdeu o medo do Arthur e entregou a massinha pra ele? Autismo, Down e tantas outras condições não são motivos de afastamento, pelo contrário.

Esses são alguns fragmentos da vida de vocês que destaco para que entendam, mais uma vez, como são privilegiados. Desta vez, a palavra vem com outro significado. Temos muita sorte em conviver com tanta diversidade. E respeitá-las, amá-las e querer tê-las por perto e em segurança sempre. É rico demais esse universo, meus amores. Não deixem que tirem isso de todos nós, seres humanos. Não deixem que aprisionem quem vocês são. Nem quem são os outros. E essa é uma luta diária, que se dá, inclusive, nos detalhes.

Nunca, jamais façam piadas sexistas. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem riam de uma. Nunca, jamais se refiram a uma mulher com termos pejorativos como “puta”, “vadia” e tantos outros. Nunca, jamais aceitem de boca fechada um desrespeito pelo outro. E lembrem-se, nem sempre a pessoa que está sendo desrespeitada entende o que está realmente acontecendo. É esse o absurdo de sociedade na qual vivemos nestes anos. Muitas mulheres e homens foram criados dentro do contexto machista, e, sem saber, replicam essas atitudes. Eles não tem culpa, e vocês podem ajudá-los a entender.

Sempre, o tempo todo, peçam desculpas ao perceberem que passaram de algum limite. Que erraram. Que desrespeitaram. Quantas vezes a mamãe pede pra vocês? Pedir desculpas não é motivo de vergonha, não é humilhante, não te coloca em posição vulnerável. Pedir desculpas de verdade é para os fortes, filhos. Sejam fortes.

Nunca, meninos, jamais sejam coniventes com o machismo. Nem na sua forma mais disfarçada. Ele é traiçoeiro e pode te enganar. Fiquem atentos. Se policiem. Com um pouco mais de sorte, isso não será difícil e sim natural.

Me repreendam se algum dia eu escorregar. Essa é uma batalha que luto diariamente.

São infintos os motivos que me fizeram chorar na semana passada. E amanhã eu vou pra Paulista, me juntar ao que espero ser uma multidão. Lutar pelo feminismo, pela liberdade, pelo respeito. Vocês não vão. Eu queria levá-los, mas não estou preparada. Respeito meu tempo e o de vocês. Sintam orgulho das mulheres, filhos. E, nesse momento, vergonha dos homens.

Minha auto ajuda

Os TEDs Talks são, pra mim, a melhor invenção que a auto ajuda já teve. Uma das coisas que mais me agradam é que sempre quem fala conta como fracassou antes de descobrir toda aquela maravilha que vai dividir com a gente. Lembro de ter ouvido isso num dos milhares que já assisti: “O TED é uma reunião de fracassados.”.

Um dia caiu na minha mão o TED de uma mulher chamada Brené Brown. O nome era “The Power Of Vulnerability”. É um dos meus prediletos. Ela finalmente fez com que eu entendesse que o que falta no mundo é empatia, e como ela funciona. E como ela está em falta em doses cavalares. Mesmo as pessoas que acham que praticam a empatia, não a fazem. Eu não a fazia – e tenho certeza que nem sempre (ou quase nunca!) consigo.

Isso me abriu um novo mundo em relação aos meus filhos. Como me conectar com eles, como ser uma pessoa melhor pra eles, como me colocar em seu lugar e assim fazê-los entender um pouco do mundo.

Já tínhamos escolhido aqui em casa a história de não querer que eles entendam as coisas com o uso imperativo das palavras. Acreditamos na capacidade deles de compreender por outras formas e entendemos que a postura superior, imperativa, que ordena também distancia e pode causar sentimentos pouco agradáveis.

É muito difícil. Muitas e muitas vezes acabamos perdendo a mão e apelando para o caminho mais curto e enraizado da ordem, da obediência através do falso respeito, do descontrole emocional que se espalha como fogo.

Mas estamos tentando, dia após dia. E, muito importante, reconhecendo cada um desses momentos de perda da rota e indo até eles com desculpas e novas maneiras de se entender..

 

Tem que ter medo, sim!

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Gabriel adora andar de ônibus. As janelas grandes, não ter cadeirinha nem cinto de segurança, a liberdade, a paisagem, ele conversa com o cobrador, quer visitar o motorista, muda de banco, fala oi pros outros ônibus… já vale a saída se for só pra ficar lá dentro. Quando descemos no ponto hoje, ele disse: “Na próxima vez vamos ficar um tempão né? No ônibus, né?”

Gabriel morre de medo do metrô. Começa na troca de ideias enquanto andamos na rua.

“Já sei! Vamos de ônibus?”

“Tive uma ideia, vamos de taxi?”

“Mãe, você vai de metrô, eu vou correndo tá? Tá?”

O pânico vem na escada. Fomos descendo e ele tagarelando sobre o metrô. Visivelmente tenso. Chegamos na máquina para carregar o Bilhete Único:

“Mas mãe, não vamos de metrô. Eu tenho medo.”

“Eu sei filho. O que você acha que pode acontecer?”

“Pode dar ruim, mamãe. Pode dar ruuuuuiiiimmmm…” (mini chorinho)

“É difícil dar ruim. Mas a gente faz o seguinte, vamos juntos o tempo todo. Você vai no meu colo até o final, tá? Aí, quem sabe, não dá ruim. Dá bom, né?”

Ele agarrou meu pescoço. Passamos a catraca. Escada rolante.

Nos posicionamos na plataforma. Senti que o trem do sentido contrário estava chegando. Contei pra ele. Ele desabou. Chorou. Alto, no colo, agarrado. Caguei para todos os olhares. Agarrei nele também, com a mesma intensidade. Não falei nada.

Senti que vinha o nosso. Falei baixinho no ouvido dele. Sem empolgação, sem alerta, sem emoção alguma – apenas informando. Deixa ele sentir o medo. O vento. O barulho. As pessoas. Deixa eu sentir ele com medo.

“Vamos entrar.” De novo no ouvido, de novo apenas informação. Estávamos quietos. Eu apenas respondia às suas perguntas. Sem explicações, sem exaltação. Não preciso direcionar os sentimentos dele. Deixa ele sentir. O medo. A curiosidade. A descoberta. A conexão.

Ele aqui. Macaquinho no colo. ‘Garrado como nunca. Rosto escondido no meu pescoço. Perguntou o que era aquele sinal. “Pra avisar que as portas vão fechar.” Força no agarrão!

“Vamos descer?”. Saímos. Ele desgarrou, ainda no colo. Perguntou onde o metrô ia. Encontrar os amigos? Pra casa? Conversar com o ônibus? Deu tchau.

Cochichei no ouvido dele: “Vencemos o medo, filho! Foi bom?”. Ele respondeu com o olhar, um abraço e beijos.

O medo tem disso. Te dá a chance de entender que apoio, parceria, cumplicidade, amor se mostra com conexão e não com palavras. Ficar tagarelando que não precisa ter medo, não resolve o medo, não passa segurança, não ensina a lidar com essa emoção tão forte, tão importante, tão presente a vida toda. Perguntar pra uma criança de 3 anos do quê ela está com medo, também não faz sentido. Acolhimento sim.

“Eu matei ele!” Contava depois do banho. Feliz. “Eu venci o medo e você também, mamãe!!”

Ele tem razão. Gabriel matou o medo do metrô, e eu matei um pouco daquele medo que a gente sempre tem de achar que estamos fazendo a coisa do jeito errado.

Rehan e Marissa: o que suas escolhas nos dizem sobre o mundo

Captura de Tela 2015-09-03 às 22.01.55Foi uma semana intensa nesse mundão. Dentre tantas coisas tristes e que fogem à minha compreensão, duas me abalaram profundamente. E dizem muito sobre o mundo em que vivemos e o triste buraco onde podemos acabar.

Acordamos um dia com a foto que virou símbolo da guerra. A imagem que chocou a nós, que estamos longe do “front” e que vemos, do conforto do lar, o horror que aquelas famílias estão passando. Eu não entendo nada. Eu não entendo a guerra – nenhuma delas -, não entendo exatamente pelo o quê eles brigam, e acho que nem eles. Suspeito que cada um entra nessa por algum interesse extraordinariamente egoísta e que são todos seres sem alma, sem vida.

Soube que tem mais fotos de outras crianças. Não quero vê-las, e, sim!, me sinto culpada por elas. Pelas mortes daquelas crianças.

Chocou a nós porque, infelizmentessíssimamente, esse menino não foi o primeiro nem será o último. Mas quem está ali, seja fugindo, seja ajudando voluntariamente, seja fazendo parte do lado escroto de tudo isso, convive com essa e outras cenas tão ou mais chocantes, tristes, horrorosas.

Depois fiquei sabendo da história da CEO do Yahoo, Marissa Mayer, que anunciou a gravidez de gêmeas e aproveitou para tornar público o fato de que não vai tirar por completo a licença maternidade a que tem direito. Pretende voltar ao trabalho antes. Mais precisamente catorze dias depois do parto. “Se afastar por tempo limitado e trabalhar durante a gravidez”.

Bom, “trabalhar durante a gravidez” não é mérito nenhum dela. Mulher grávida não é mulher doente. Temos as exceções em gravidez de risco, mas, caso contrário, trabalhar durante a gestação não é nenhuma novidade na história da Humanidade. Tem mulheres pelo mundo em situação econômica e social inimagináveis e trabalhando até o dia do parto. E no dia seguinte. Tem mulheres, neste momento, com barrigão e refugiadas em algum lugar do oceano num barco de borracha com a esperança de chegarem vivas a Europa. Senão acabou. É o fim pra elas, para os bebês nas barrigas, para todas aquelas crianças. Rehan, a mãe de Aylan, o menino da foto, não tinha escolha.

12Estamos em 2015, século 21, e batalhando como nunca pelos direitos de mães e pais de passarem mais tempo com seus bebês. Estamos na era da morte ao workaholismo (?), da busca por relações saudáveis. Lutamos por direitos que são óbvios e que não deveriam ser questionados, julgados, medidos: os de que mães e pais possam receber seus filhos nesse planeta onde grávidas, crianças, idosos, homens e mulheres precisam fugir aos bandos em barcos de borracha super-hiper lotados porque pessoas muito muito muito más estão assustando e matando famílias inteiras.

Batalhamos para que pais, casais homossexuais, pais solteiros, mães e pais adotivos… tenham direito a esse beneficio. Precisamos que as crianças venham ao mundo bem recebidas, acolhidas, que sejam apresentadas à essa montanha-russa que é a vida aqui fora de forma segura e amorosa. Por incrível que pareça, desta guerra nós precisamos. E a escolha de Marissa vai contra tudo isso.

Sou completamente a favor de que mães e pais retomem suas posições profissionais ao final da licença maternidade. Mas não consigo entender porque, voluntariamente, se abster desse momento tão intenso, rico e importante. São apenas 16 semanas! (no caso das funcionárias do Yahoo). Marissa tem estabilidade profissional, com certeza um bom salário, ela não precisa voltar a trabalhar catorze dias depois do parto. Ela tem escolha.

Fico pensando em como se sente um ser humano que aos 14 dias de vida não tem seus pais disponíveis quando precisa. Quem serão essas meninas? Que tipo de empatia elas terão pelos outros? O que pensarão de pessoas como o menino Aylan, sua mãe Rehan e tantas outras famílias de refugiados? O que entenderão por união, respeito, amor, segurança, entrega?

Pobres meninas ricas.

** Existe uma família que gasta milhões do próprio bolso para ajudar refugiados que se perdem no mar. As fotos no meio desse post foram tiradas deste vídeo que conta um pouco sobre essa história e o crowdfunding pra ajudar a manter esse trabalho.

**O Buzzfeed Brasil fez um post bem legal com 7 maneiras de ajudar refugiados no Brasil e na gringa.

Acaba não mundão!

nenhum ato de generosidade, não importa o quão pequeno, será desperdiçado. jamais.

Eu sempre quis parto normal. Então descobri que tem o parto normal, o parto natural, o parto em casa, o parto com doula, o parto na banheira, o parto de cócoras, o parto cesárea. O parto respeitoso e o parto possível.

Eu sempre quis que meus filhos comessem comida fresca, orgânica, caseira. Então descobri o cansaço, a falta de tempo, a bagunça da casa, a vontade de voltar a trabalhar, a saudade do eu-esposa, o tempo de brincar, a hora do banho. O congelar a comida e a leitura de rótulos.

Eu sempre quis passar o máximo de tempo com os meus meninos. Então descobri a maternidade ativa, a criação com apego, a escola perfeita pra gente, a mudança de trabalho, a nova rotina, a nova casa. As escolhas que geram a proximidade com a vida que se quer ter.

Eu queria voltar a trabalhar. Então descobri os berçários, as escolas, as babás, as avós, os leva e traz, o organizar do dia no dia. A convivência com outras crianças e um tempo só deles.

Já dizia o poeta que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Também vale para as escolhas que fazemos – cada um sabe a dor e a delícia de cada uma delas.

O Mil Maneiras nasceu com a ideia de respeitar e ter empatia por cada uma de nós e a forma como escolhemos/achamos para reorganizar nossas vidas com a chegada dos filhos. Já nos sentimos sobrecarregadas demais por natureza, o mundo poderia ser mais acolhedor e menos questionador com a gente.

Antigamente as mães tinham que lidar com pitacos, conselhos, sugestões das avós, tias, amigas. Ficavam entregues a tradições e crenças, porque assim eram aqueles tempos. Hoje em dia existe uma rede de informações imensa. É possível decidir com calma e de forma mais cuidadosa e coerente. Podemos pesquisar jeitos diferentes de fazer as coisas e que não repitam heranças vencidas. Assim como podemos optar por seguir aquela boa e velha tradição da família. Isso é empoderamento. É emancipação. É viver – e conviver – com nossas escolhas de forma livre e consciente.

Estamos num mundão muito legal e parte dele está cheio de vontade de acabar com o paternalismo e apagar conceitos e atitudes retrógradas, machistas, violentas e preconceituosas enraizadas na nossa sociedade. É muito inspirador estar aqui agora, mais ainda quando imaginamos como podem ser essas crianças e os filhos que virão delas. Jovens e adultos mais conscientes, caridosos, voltados para o coletivo, com respeito ao próximo independente de gênero, raça, credo, time de futebol. Estamos de olho nas atitudes de violência contra a mulher, as crianças, as minorias. Ser feminista nunca foi tão legal e importante pra mim.

Eu sei. “É utópico”, vocês podem dizer. Mas eu insisto e acredito, posto que o conformismo e a indiferença trazem o fracasso, sustentam a violência e a arrogância. É o meu jeito de fazer parte da mudança que eu quero ver nesse mundão.

Que sorte tenho eu de conviver em um grupo onde todos os caminhos levam a tolerância e ao respeito. Gostaria que esse grupo fosse o mundo inteiro.

Praticar a sororidade é mais fácil do que começar a amamentação!

Cópia de IMG_6313 Aconteceu na primeira vez que me perdi nesse imenso e vasto caminho da maternagem: durante o processo de amamentação do Gabriel. Porque olha, não importa o quanto te contem, não importam os livros, artigos, dicas, conselhos, o início da amamentação é doloroso para a maioria de nós (queria dizer que é assim para todas as mães, umas em maior outras em menor grau, mas sempre – sempre – vai ter aquela que vai dizer que foi lindo, fluido, tranquilo, indolor, instintivo e perfeito… derrube esse muro, mulher! e junte-se a nós.).

Desde a primeira, primeirinha, primeirona mamada não estava dando certo. Doía pra cacete e eu não aguentava. Pelos primeiros dias me mantive firme e forte na carcaça achando que a fraca era eu. Não era possível. Todo mundo faz e diz que é uma delícia!!

Por dentro, me corroía. Chorava litros e nem tinha ido pra casa ainda!

As enfermeiras da maternidade prestaram sua consultoria padrão. Mas a amamentação não estava dando certo. Quanto mais eu tentava, mais doía, mais o Gabriel chorava, mais meu peito sangrava.

Meu desespero era tanto que ao irmos pra casa com ele, fizemos o trajeto casa – maternidade todos os dias, durante uma semana, para tentar dar certo. Não estava acontecendo.

Até que tivemos que suspender o peito para que ele pudesse cicatrizar. Gabriel estava mamando sangue. Então ele tinha que tomar fórmula, que a gente dava num copinho muito pequenino porque caguei de medo d’ele curtir a mamadeira e eu não estava afim de desistir do peito não!

O primeiro pediatra que fomos foi um babaca. Ele me disse que eu tinha que dar um jeito de amamentar e pronto. Grande ajuda! Me deixou ainda mais culpada e sozinha, achando que o problema todo era eu, minha fraqueza em suportar a dor e do meu corpo em sangrar o peito até o limite da carne.

Aqueles dias de leite no copinho minúsculo, eu andando que nem índia em casa com as tetas pra fora e minha frustração em relação à amamentação deixaram tanto eu quanto o Otavio completamente exaustos.

Cópia de IMG_5354Na intensa angústia em resolver aquilo a tempo, fui pedir ajuda no improvável.

Eu não tinha muitas amigas com filhos pequenos. Só uma. A Thais, que estava com uma bebê de 2 meses, logo, no seu próprio puerpério.

Mas tinha a Mari, amigona de uma grande amiga minha. Éramos conhecidas. Mas ela era amiga da amiga. A Mari também era ex-namorada do meu marido. Do pai do Gabriel.

Ela me acolheu lindamente. Me apresentou a pediatra dos meus filhos, uma pessoa maravilhosa e especialista em amamentação que nos recebeu e me apoiou e conseguiu entender tudo o que eu falei na primeira consulta entre soluços e lágrimas inconsoláveis. A Dra Nina conseguiu olhar o Gabriel e a nossa dificuldade com carinho. Dentre algumas coisas, ela sugeriu a relactação/translactação e me incentivou a tirar leite com bombinha. Ai!

imagem de relactaçãoVoltamos pra casa animados, mas fiquei um pouco preocupada com todo esse aparato. A vida, essa fanfarrona linda, colocou de novo a Mari nessa história. Foi dela que vieram a bombinha e o relactador. Ela conhecia a relactação/translactação e me contou maravilhas de sua história.

Foi assim, sendo acolhida por alguém inesperado, que a amamentação do Gabriel superou todas as dificuldades e seguiu feliz e intensa por 1 ano e 2 meses – só parou quando eu engravidei novamente e ele passou a rejeitar o leite. Embora eu tivesse preparada para a dupla amamentação, em alguns casos o gosto do leite muda durante a nova gravidez e a criança desencana. E foi assim, naturalmente, que o Gabriel deixou o leite guardadinho aqui para quando o Tomás chegasse. E como Totom precisou desse presente! A natureza é boa demais.

A Mari me acolheu em paz, sem esperar nada em troca, sem verdades, com poucas e importantes palavras e muito ouvido – e olhos, visto que 90% dessa relação aconteceu/acontece on line. Não me julgou, não contou sua experiência, não deu de ombros. E “ela não precisava ter se importado”, pensava eu.

Foi então que muitas desconstruções atropelaram a minha cabeça e eu conheci o conceito de sororidade. A partir daí a maternagem ganhou vida dentro de mim e me trouxe coisas lindas como a Mari e a sororidade, e me emponderou, me fortaleceu, me ganhou.

Obrigada, minha amiga, Mari.