Seja a mudança que quer ver no mundo

Ter filhos é se questionar o tempo todo. Acho que é cansativo porque – dentre outras razões- tudo, absolutamente tudo, que fazemos eles estão ali, de olho. E, livres de qualquer filtro ou julgamento, absorvem comportamentos e atitudes. Também, com a auto estima em construção, são frágeis, vulneráveis.
São as crianças, e nós, os adultos. Costumo dizer que são crianças fazendo criancices, ainda bem! Permitem que nós voltemos um pouco a fazê-las também. Só não podemos esquecer que, mesmo no mundo de fantasia, o adulto da relação somos nós. Acredito que a maneira como lidamos com as mais diversas situações, os desafios que eles nos trazem e como os acolhemos quando eles são desafiados, fazem diferença a curto, médio e longo prazo. Na vida deles e na construção da nossa relação.
Tento criá-los para que possamos ter uma conexão forte e sincera. Não penso na nossa relação apenas hoje, mas nela daqui 10, 20, 30 anos. Se estaremos próximos na adolescência e na vida adulta. Se serei um porto seguro que acolhe sem julgar, sem repreender, aceitando que são humanos com menos experiências e mais vulnerabilidades. Não escondo quando me sinto vulnerável, nem quando erro. Peço desculpas, assumo e reconheço – como espero que eles o façam. Não coloco peso nas sensações ruins que me fazem ter, procuro mostrar de forma amorosa porque fiquei triste, chateada para que não se sintam culpados.
A culpa é uma merda. Não quero jamais que passem perto dessa que foi minha parceira durante praticamente uma vida e que, hoje, batalho para que fique fora do meu território. É barrada na fronteira.
Com isso, procuramos praticar algumas coisas aqui em casa. Conversamos muito sobre nossa história e nossas sensações durante a vida, infância principalmente, para chegarmos juntos a maneiras de lidar com os nossos.
Hoje caiu nas minhas mãos – ou telas , na verdade, o texto “10 coisas que não devemos dizer para as crianças“. A gente não segue nenhuma linha, seja antroposófica, montessori, mais rígida ou menos rígida. Vamos juntando informações e sentimentos e adaptando para o que faz sentido pra nós. Um pouco daqui, um pouco dali e um pouco de coisa inventada pela gente mesmo.
Não acho que existam listas definitivas, verdades imutáveis, padrões que se encaixem a todos. Nós, por exemplo, falamos palavrão. Escapa, é nosso defeito. Hoje em dia, levamos chamada deles mesmo. Costumo dizer que eles também poderão falar, quando souberem o que é e quando usar.
Muitas das coisas, estendemos para as crianças com quem convivemos. Tratamos elas como gostariam que nossos filhos fossem tratados. Acolhemos a todas.
No nossa casa, não rotulamos. Eu sempre fui mal humorada, agressiva, nervosa. para outros, sempre tive um humor diferente, ácido, honesto. Perto dos 40, descobri que não sou nem uma coisa nem outra. Eu estava agressiva, mal humorada, nervosa. Em outros lugares, com outras pessoas, eu estava bem humorada, a vontade. Gabriel não é uma criança medrosa, ele está medroso por alguma razão que não sabemos. Eu acolho seu medo e não o provoco. Não digo que não precisa ter medo ou que não tem razões para isso. Porque, sim, ele tem.
Tomás, por sua vez, está uma criança chorosa. Ele não é. Ele está. Então, pergunto porque está chorando, explico que falando enquanto chora alto eu não consigo entender o que ele diz. Quando entendo o motivo, pergunto se o problema é grande ou pequeno. Dependendo da resposta, pergunto se chorar vai resolver. Se ele diz que sim, eu o abraço e o deixo chorar. Quando a resposta é não, tento fazer com que ele procure soluções e juntos resolvemos. Eu não peço apenas que pare de chorar.
Fico bem irritada quando uma criança bate, cai, tropeça e os adultos dizem que já passou ou que não foi nada. Foi sim! Precisamos parar com isso. Doeu ou assustou. Uma injeção ou pomada no bumbum assado, vai doer sim! Vamos juntos lidar com isso. Não acho justo invalidar os sentimentos e reações da criança. Não foi apenas um tombo, só uma batidinha, uma frescura.
Outra coisa que não entendo. Adultos, principalmente quando são os próprios pais, riem ou tiram barato dos erros, tombos das crianças. Não tem graça. Os pais fazendo uma espécie de bullying ao invés de acolher o filho e se colocar à disposição dele para que aprenda ou supere aquele problema, tristeza ou frustração.
Não comento sobre dizer que vai embora caso o filho não obedeça, porque prefiro acreditar que não existam adultos que promovam essa sensação de abandono e de amor condicional. Isso machuca muito e tem consequências irreversíveis e terríveis para a criança e para a relação dela com o mundo e as pessoas.
Tentamos, pouco a pouco, ser a mudança que gostaríamos de ver no mundo.

O desfralde nosso de cada dia

(pic: elizabeth pfaff – flickr)

“Traz uma cueca dele amanhã pra gente mostrar na roda”. E assim o coração da mãe aqui se encheu de esperança ao vislumbrar um desfralde ali na esquina.

Veja bem, nossa empolgação não é pelo desfralde em si, por ele estar crescendo, por mais essa novidade e de como será, etc. Então eu começo a achar que só o primeiro filho tem esse luxo. Afinal é uma descoberta para todos os envolvidos da casa: mãe, pai e filho estão entendendo esse processo, como ele pode acontecer e cada passo desse caminho.

Dali em diante, pode ser apenas uma questão de economia. Pelo menos é a sensação agora, aqui em casa. Claro que a gente se empolga e se emociona com cada nova experiência do Totom, mas algumas emoções acabam misturadas com um pouco de vida prática. As vezes fico me perguntando se estamos sendo mais frios com ele, outras acho que tudo bem e que a vida é assim mesmo.

O desfralde do Gabriel foi super rápido e tranquilo. Um dia levamos a cueca na escola, noutro ele passou o dia todo sem fraldas, no terceiro já não vazou nenhum xixi. E assim foi. Sem muitos sustos. Só uma vez que ele entrou correndo no quarto, calças arriadas, dizendo que o gato tinha feito cocô no chão da sala. Até hoje, fingimos que acreditamos. Achávamos que ia demorar, por culpa nossa. Sempre esquecíamos de perguntar se ele queria fazer xixi, se queria ir ao banheiro, se tinha vontade de fazer cocô, essas coisas que os adultos em geral fazem de 15 em 15 minutos num “desfraldante”. Inconscientemente ele devia perceber esse vacilo nosso e acabava sempre pedindo, indicando, ou indo por conta própria numa árvore ou matinho. “Temos nosso próprio tempo”, disse Renato Russo. E como isso é importante de ser respeitado.

Foi a professora do Tomás quem pediu as cuecas do começo desse texto. Então, nos demos conta de que ele ainda não tinha. Na pressa, acabei lavando bem e mandando as mesmas que foram as primeiras do Gabriel. Ele demorou dias pra usar. E depois de um dia ou dois de sucesso, voltou cheio de amor para as fraldas. Veio o frio, e essa não é uma época muito agradável para uma experiência dessas – temos suas exceções, como em tudo nessa vida fanfarrona. Não estamos com pressa que ele largue delas, nem que ele cresça, nem que ele atropele seu tempo. Estamos apenas ansiosos em tirar esse custo do nosso orçamento. Simples assim. Mas, adultos que somos, trancamos a pressão numa gaveta bem guardadinha e a transformamos em muito amor, apoio e compreensão.

Em tempos de crise forte e trabalho escasso, o bolso reclama. Mas ele vai ter que esperar, porque nós podemos recuperá-lo, mas os efeitos de um desfralde precoce, fora do momento certo e movido por pura ansiedade e necessidade dos pais, pode ser traumático pra todos nós.

** Tá passando pelo desfralde pela primeira vez? Quer umas dicas? Dr Daniel Becker tem um vídeo legal no Criar e Crescer.

O poder do hábito

My beautiful picture
Pic by Silvia Viñuales

A história sobre como lidei com o medo de metrô do Gabriel teve um retorno surpreendente: algumas pessoas disseram que estavam fazendo errado com seus filhos. Discordo. Eu não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado para os filhos dos outros.

Desde a gravidez do Gabriel e em todas as surpresas e dificuldades que apareceram no caminho até aqui, os blogs sobre maternidade sempre estiveram presentes. Li muitos. Descartei vários. Filtrei muita coisa. E muitas vezes me senti assim também. “Estou fazendo tudo errado.”

A gente já acha naturalmente que está fazendo errado. Nem precisavam existir outras mães para a gente se sentir assim. Costumo dizer que a maternidade é solitária. Mesmo que você tenha um marido ótimo, que seus filhos tenham um pai ótimo, sua rede de apoio seja ótima, sua comunidade, seu chefe, suas amigas etc. Acho a maternidade bem solitária. E aí mora, pra mim, o legal de ler, pesquisar, conhecer outras histórias. Ela também é solidária. O que me levou ao “existem mil maneiras de se maternar, me conte a sua”.

Se você não estiver humilhando, negligenciando, fazendo uso de violências físicas ou emocionais, não tem como estar errado.

Cada gramado é um gramado. Cada família é uma família.

Temos o privilégio hoje de conhecer como outros indivíduos formam o seu núcleo e os caminhos que seguem. E assim rever, aperfeiçoar, testar, experimentar, mudar – ou não – o nosso minimundo.

Tem a velha reclamação do “só falam do lado bom…”. Muitas mães passando por dificuldades profundamente reais como depressão pós-parto, estafa física e emocional etc tem dificuldades em achar algum tipo de apoio. Me sinto imensamente inspirada quando vejo que alguma coisa deu certo, que achei uma maneira legal de lidar com determinada coisa. E é isso que acabo compartilhando. Não é por egoísmo, é vontade de mostrar para outras mães que as vezes temos uns dias bons. Não me sinto inspirada a contar as vezes que perco o rumo, que falho, que me percebo consumida pela famosa culpa. Eu quero mostrar e guardar como consegui acertar uma vez depois de tantas tentativas frustradas. Dias bons.

Em relação a história do medo, pode ter ficado a impressão de que eu sempre reajo dessa maneira. Não é verdade. Não mesmo!

O medo do Gabriel é uma questão pra mim. Ele tem muitos. Muitos mesmo. Todas as crianças tem medos. Umas mais, outras menos. O Gabriel está no grupo do mais. E a minha dificuldade em lidar com isso é enorme. Não que eu não tenha medo. Muito pelo contrário. Me cago por pouco. Sou insegura. Só que alguns medos tem um efeito impulsionador em mim. Eu tenho, mas sou do time “se tem medo, vai com medo mesmo”. Eu quase diria que o medo é o que mais me encoraja – por mais antagônico que isso seja. Outros eu simplesmente me recuso a sentir. Fujo.

Debaixo dos caracóis do meu filho, os medos paralisam. O aterrorizam. Ele não sabe lidar. Que criança sabe? Embora algumas sintam menos, outras se joguem como eu no “se tem, vai assim mesmo”, tem também as que, como o Gabriel, são mais sensíveis, precisam de mais tempo, mais acolhimento. Isso, confesso, eu já havia percebido, mas aquele dia no metrô foi a primeira vez que consegui achar uma maneira legal para lidarmos com isso – eu e ele.

E mesmo depois, já me peguei uma ou duas vezes falando que “não precisa ter medo não”. Justamente o que critiquei! A vida entra no automático muito facilmente, não é mesmo? A rotina, o cansaço e outras desculpas nos afastam do tempo e da disponibilidade que ações como aquela pedem – até que elas possam, enfim, se tornar um hábito.

“Medo do quê?”, “Não precisa ter medo”, “Que medo o quê!”, “Ai Gabriel…”, “Não precisa ter medo porque blá blá blá” essas e outras frases causam qualquer coisa menos conexão, passam qualquer outro sentimento menos o de acolhimento, e já escapuliram da minha boca. E provavelmente ainda vou derrapar e repeti–las. Mas talvez isso funcione para a sua família, talvez você tenha uma outra maneira de lidar com isso, talvez eu descubra outro jeito de me conectar com ele…

Tudo o que eu sei hoje é que naquele dia nós nos conectamos. Naquele momento. As vezes caio na rotina e não rola, as vezes estou mais presente e é uma delícia. A diferença é que agora eu me policio mais. E sigo por tentativa e erro, torcendo pra que um dia as boas descobertas das nossas relações se tornem o hábito.

aqui, agora, com eles.

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Esse ano novo teve um gostinho especial pra mim. Foi a primeira vez que fiz uma reflexão mais profunda e fiquei muito feliz e orgulhosa do que encontrei. Dois mil e quinze foi um ano de revisitar a minha vida e me reencontrar em diversas etapas dela. Passei pelo pouco que lembro da minha primeira infância, forcei a memória para os anos seguintes, me envergonhei e me orgulhei da minha adolescência. Revi acontecimentos, analisei situações, pude escolher o que foi maravilhoso e o que não preciso mais. O que quero guardar, repassar, colar na minha memória, história, o que quero, posso, preciso mudar pra mim, para minha pequena família, pro nosso futuro desconhecido.

Quando estava grávida do Gabriel, uma amiga me falou sobre um livro chamado “O encontro com a própria sombra”. Eu nunca li. Pois só o título já me deu corda pra tanta coisa que nem sobrou tempo de ir atrás da obra.

A partir dessa frase, olhei pra muita coisa e com muitos olhos. De saudade, de saudosismo, de tristeza, de alegria, de raiva, de rejeição, de crítica, de negligência, de solidão, de amor, de intensidade, de culpa (nossa! Quanta culpa!), de conexão e de distanciamento. Só o nome desse livro me trouxe uma avalanche de sentimentos e reflexões, muitas vezes diferentes sobre um mesmo encontro, uma mesma sombra. Passei por fases de escuridão, de isolamento. Mas também por excitantes (re)descobertas.

Posso dizer, então, que 2015 me proporcionou a fantástica viagem no tempo que a maternidade já andava ensaiando em me levar.

Perdi milhares de certezas absolutas, descobri alguns bons e novos caminhos. Mas meu maior presente, e por isso 2015 foi tão especial, foi ter percebido a importância, assumido a responsabilidade e me empoderado do privilégio de estar com eles. Aqui. Agora.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 3. obrigado por vir

20150614_101849Enquanto o Gabriel é meu maluquetêra, o Tomás é meu guerreirão. Eita rapaz forte! Tomás é bravo, porém sábio. Ele não se abala (ainda) com as disputas do irmão. Sabe exatamente como conseguir um colo, um chamego. Não se faz de rogado: se quer um carinho, pega minha mão e mostra como quer o cafuné.

Tomás e eu temos uma coisa de cheiro, de pele. E ai você começa a entender que realmente não se ama um mais que o outro, mas diferente. Eu dou umas cafungadas daqui, ele me lambe dali. E em nosso tempo junto rola a maior pegação.

sempre tem café da manhã na padoca
sempre tem café da manhã na padoca

Ele é o cara que topa qualquer parada. Desde que meu colo esteja a disposição, a vida tá maravilhosa em todo lugar. Aqui ele se aninha e o tempo parece que para.

Tivemos nosso primeiro tempo juntos quando caí no repouso forçado da gravidez. Desde então, tiramos muitas sonecas juntos. Tom deita ao meu lado e fica só me olhando. E eu paquero de volta. Nós adoramos uma preguiça na cama.

Nesse momento de re-união da família, tivemos nosso primeiro tempo exclusivo há pouco e choveu a beça. Como eu, Tomás é de casa. Aqui ficamos, brincamos, rolamos no chão, rimos, nos abraçamos, ficamos deitados olhando pro teto, pro outro e brincando com nossos pés. Tom é tranquilo demais – até sentir falta do irmão e sair pela casa “bieu, bieu, bieu” levando na mão algum brinquedo preferido do Gabriel. Dormimos. Muito.

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Tom é zueira e sorriso

Não é que qualquer coisa tá bom. Mas se o contato pele a pele estiver disponível, tudo fica possível. Sei que isso deve passar em breve, quando ele chegar ali onde o mais velho está hoje. Mas, com ele aos 1 ano e 7 meses, tenho sido mãe de primeira viagem de crianças nessa fase. E a intensidade dessa relação veio desde sempre e, sorte nossa, nunca se perdeu. Tomás me preenche de amor e força. Ele não me deixa desistir, nem me render. Se o Gabriel já era meu combustível, Tom o deixou aditivado-super-power.

Foi Tom quem me empoderou. E todo dia, junto com o beijo de boa noite, eu agradeço: Obrigada Tom, obrigada por vir.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 2. tatuagens emocionais

20151101_111212-01(é uma séries de posts já prontos, um por semana. depois da introdução, hoje falo do meu tempo com gabriel. semana que vem, com o tomás. tem também tempo de casal e tempo “meu comigo mesma”.)

Essa história de tempo dedicado com cada um dos meninos apareceu há muito tempo. Achamos importante a construção da cumplicidade, manter a conexão viva e forte. É um caminho eterno, um exercício diário, e não abrimos mão dele.

Gabriel tem se tornado uma criança muito agressiva e raivosa – especialmente em relação a mim e ao irmão. O que me deixa ansiosa por um dia só nosso. E o destino, esse eterno fanfarrão, não estava muito afim de facilitar as coisas.

Nossa primeira vez foi horrível – pra mim. Ele sabia que depois iria pra casa da avó e não conseguia falar e pensar em outra coisa. Foi um dia só nosso, mas com a presença constante da avó e cheia de comportamentos agressivos. Ainda assim, os dias que se seguiram a esse foram especialmente melhores. Ficou muito claro como essa relação exclusiva é necessária. Gabriel só tem 3 anos, ele não tem que entender nada.20150815_102106~2

Ele não tem que entender que é difícil pra mim dividir por igual meu tempo, atenção e dedicação entre ele, Tomás, o marido, o trabalho, as chatíssimas funções da casa, e – inclusive – eu mesma!

Ele não tem que entender que agora não dá. Que o mais novo demanda mais atenção. Que a gente precisa trabalhar. Que o gato não gosta de abraço apertado. Que não pode jogar bola dentro de casa. Que cuspir é uma bobagem que ele vai usar muito com os amigos, fora de casa, quando for maior. Que a casa está limpinha e mijar fora da privada não é engraçado (até porque, é né! Hehehe).

Nossa segunda vez foi meio aos trancos e barrancos, mas foi. Eu tinha planejado um dia no parque com bicicleta e picnic, mas amanheceu um dia horroroso e chuvoso. Me pegou desprevenida de ideias – e o Gabriel não aguenta ficar dentro de casa, é uma pessoa da rua, da natureza, do dia. Embora todo atrapalhado e mais curto do que eu queria, me rendeu a tatuagem na alma “Lembra quando era só eu e você, mamãe?”.

Já tivemos a terceira experiência. E que maravilhosa que foi! Ele agora já sacou o combinado. E curtiu, aproveitou. Criamos pequenas piadas internas, só nossas. Também gestos e códigos. Compartilhamos estórias, falamos de amigos, de coisas que adoro e ele também. Ele trocou o “tá” por “eu te amo, mamãe” quando me declarei, mais de infinitas vezes, tontamente pra ele. Minhas tatuagens emocionais agradecem. E sei que ele começa a ter as suas. Os sorrisos entregaram.

Deixei ele na avó para meu tempo com o Tomás. Ele jogou beijos e pediu que eu os guardasse. Joguei os meus e ele guardou. No coração. Virei a esquina e chorei de saudades. Senti um vazio enorme. Sorri. Estamos num caminho bom.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 1. tempo como presença

quando era eu e ele.

“Lembra quando era só eu e você?” Gabriel me perguntou uma vez. Foi um tabefe bem dado. Certeiro. Importante. A gente já tinha conversado aqui em casa sobre a divisão do tempo X pessoas em todas as possibilidades. Só eu e Gabriel. Otavio e Tomás. Otavio e Gabriel. Eu e Tomás. Nós dois e Gabriel. Nós dois e Tomás. Porque nós quatro já somos. O tempo todo. Sempre. Muito. Intensamente.

Quando Gabriel nasceu éramos colados. Ele ia comigo para todo lugar. Qualquer que fosse, qualquer horário. Foi quando começamos a entender que ele não é essa pessoa. E que respeitar isso é fundamental.

Gabriel gosta de bagunça, só que não sabe brincar quando está com sono. É amoroso, doce e educado. Tem personalidade forte, mas é facilmente influenciável (fase, fase, eu sei…). Quando está cansado, fala que quer tudo e nada e qualquer coisa. Fica literalmente bêbado de sono. Tem medos que ainda respiro fundo para tentar entender e aceitar. Tudo isso nós aprendemos quando éramos três. Gabriel tem sido uma criança insegura. E isso nós só percebemos quando viramos quatro.

Descobri a gravidez do Tomás no dia do aniversário de 1 ano do mais velho. Escolhemos não contar nada a ninguém porque naquela comemoração, pro Gabriel, ainda precisávamos ser 3. Também porque foi um baita susto. Não era pra ser. Não era pra ter. Não era o plano. Eu precisei digerir, entender, aceitar, me acalmar.

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na festinha de 1 ano

Dali em diante viramos 4 por pouco tempo. Um tempo que – pra mim – foi uma montanha russa de sentimentos, eu era uma mãe que mudava de humores quase que de hora em hora. E logo entraríamos numa dança de dois pra lá, dois pra cá – sendo as duplas sempre as mesmas: eu e Tomás pra cá, descansando e cuidando e aguardando a hora e Gabriel e Otavio pra lá, saindo, vivendo, se apoiando na falta que sentíamos de sermos nós todos. Foi nosso primeiro distanciamento.

primeiro contato
primeiro contato

Quando Tomás chegou, parecia que o mais difícil tinha passado. Mas Gabriel mal teve tempo de entender o novo morador e já nos separamos de novo. Dessa vez de forma menos justa e mais abrupta. Foram três pra cá e um pra lá. Tomás na UTI com presença constante e integralmente dedicada do pai e da mãe. Gabriel passou no mesmo PS enquanto o irmão internava – nós estávamos assustados demais, assim que ele passou na consulta com a minha mãe e de lá seguiu pra casa dela. É impossível pedir que uma criança de menos de dois anos compreenda essa situação. Nos via apenas ao acordar e, as vezes, antes de dormir. E via dois trapos. Duas pessoas que estavam ali fisicamente apenas. E ele estava nesse mundo não tinha nem 2 anos. Como entender?

futuros parças. (tomás de lançando moda usando calça gigante do irmão.)

Gabriel tinha 1 ano e 7 meses quando chegou a conturbada hora do irmão nascer. Hoje Tomás está exatamente com essa idade. Um ano e sete meses. Olho pra trás e vejo que foi um caminho bonito, intenso e cheio de derrapagens. Temos pra nós que a parte mais difícil – finalmente – acabou. Agora estamos levantando e sacudindo a poeira. Chegou a hora de re-unir essa família. Reforçar os laços de cada dupla, cada trio, para que possamos ser quatro inteiros e felizes. E a nossa estratégia é essa, e é linda. Tempo, presença integral, para e com cada um de nós.

Não basta ser pai, tem que participar – a frase que não faz sentido

Essa semana encontramos um amigo que não víamos há algum tempo. Seu filho tem a idade do Gabriel, 3 anos, e eles são muito parceiros. Então que no meio da conversa, ele disse: “blá blá blá (não vem ao caso) porque, porra!, eu sou o pai né. Não sou um cara ali, sou o pai!”

Nesse instante uma ficha me caiu. Tenho a sorte de conhecer muitos pais. Não o cara que ajudou a por fermento no bolo. Pais. Assim. Com P maiúsculo.

Acho engraçado quando dizem que “fulano é um pai presente.” Ou as variáveis: pai ativo, pai participativo, pai que ajuda… Cara! Ou é pai ou não é. Ou é pai ou é só um cara ali. Vamos combinar isso sociedade?

Crescemos acostumados a enaltecer o cara que exerce a paternidade com entrega, parceria, presença, amor e adjetivarmos eles com palavras que nos ajudam a deixar claro o quão bons pais eles são. Enquanto que aqueles que não estão, não fazem, não querem, abandonam, não ligam, não exercem, não participam são os pais.

Trocamos pessoal. Trocamos as bolas. Mas ainda há tempo de corrigir.

Vamos lá. O cara que a gente elogia é pai.

Assim sendo, o outro cara, sim, precisa ser adjetivado, explicado, desenhado. Ele que deveria ser a exceção. Ele que é o cara estranho, o cara que não cumpre seu papel. É ele o cara que precisa entender quem é para que tenha oportunidade de rever seus comportamentos e conceitos e também para que outras famílias não caiam na armadilha do pai que acha que trocar uma fralda é fazer demais.

Eles são os pais ausentes, os pais negligentes, os pais que ajudam (sim, isso é uma maneira triste de referir-se a um pai e não um elogio), os pais distantes, os pais que as vezes nem merecem esse título.

Minha mãe uma vez me disse “eu não fiz com o dedo”. Eu amo essa frase. Porque é isso. Com exceção das escolhas de outras formas de parentar (como produção independente por exemplo), a mulher não fez com o dedo, não fez com o vibrador, não fez sozinha. Tirando os abusos que geram gravidez, é esperado que duas pessoas tenham topado entrar nessa – não importa se transando, fazendo inseminação ou adotando. São duas pessoas independentes de gênero e título que, espera-se, chegaram juntas ao desejo de ter uma criança. Caso contrário, não tenham, por favor.

Não é surpreendente se elas fizerem tudo isso com amor, entrega e algumas abdicações. Não deveria ser.

Surpreendente e inaceitável é quando uma delas supõe que a outra tem mais deveres, obrigações e até talento – ou o contrário, que ela própria tem tudo isso de menos.

Porque nesses casos, meus amigos, talento nem sempre é inato – eu bem sei. Deveres e obrigações não vem num manual de instruções parido com o bebê.

Mas amor e todo o resto sim. E só aumenta com o tempo.

Da relação entre obediência e respeito

Foto: Marketa (CreativeCommons)
Foto: Marketa (CreativeCommons)

“Quando mamãe deixou de ser modelo de obediência, as crianças deixaram de ser submissas (…) Isso significa que mamãe deixou de dar aos filhos o exemplo da submissão. Isso é progresso.

(…) As crianças estão simplesmente seguindo os exemplos que observam ao seu redor. Elas também querem ser tratadas com dignidade e respeito.”

Jane Nelsen – Disciplina Positiva

“Manners — treating people with respect and care — is different than demanding physical displays of affection.”

Katia Hetter – I don’t own my child’s body

Um dos meus maiores defeitos é não me sentir segura com minha intuição. Nem sempre eu a sigo. Algumas vezes me arrependo, outras não. No entanto, quando faço uma escolha baseada na intuição apenas, me sinto coagiada por mim mesma a ter explicações coerentes e ponderadas caso alguém questione minha decisão. Ou tente me convencer a tomar outro caminho. Ou mesmo, “apenas” insista que eu deveria pensar melhor.

As pessoas tem essa mania. De achar que você precisa pensar melhor sobre isso. Elas sequer sabem quanto tempo você gastou para chegar até ali. E na verdade não importa, porque não é isso que vai determinar se sua opção é melhor ou pior. Ainda assim, existe dentro de mim essa necessidade estúpida de achar que tenho que estar preparada para defender minhas escolhas. Não tenho – nem que estar preparada, nem que defender.

No pouco tempo que estou no papel de mãe, minha insegurança com relação ao que fazemos na criação dos meninos bateram recordes impressionantes. Embora muita intuição tenha sido seguida, pesquisar, ler, embasar a coitada virou uma paranoia. Essa coisa do empoderamento (ufa!) acabou de chegar pra mim. Demorei para achar no meu teclado o botãozinho do “aham, senta lá claudia”.

Nunca entendi, por exemplo, o paralelo entre respeito e obediência. Sempre tive pra mim que obediência vem de coisas como o medo, a falta de respeito, o descontrole. Não quero criar pessoas obedientes, e sim homens empoderados, respeitosos e carinhosos. É importante que saibam que respeito não é “fazer a vossa vontade”. Não quero que eles abracem alguém que não estão afim. Não quero que entendam que demonstrações de afeto são mandatórias. Que achem que devem permitir serem tocados, ou tocar outras pessoas, quando não se sentem disponíveis a isso. Quero que o façam, sempre, por instinto, vontade, por um sentimento genuíno e honesto.

Essa era uma das escolhas que fiz e que não sabia explicar exatamente o porquê. Me sentia balançando em uma ponte entre seguir meu instinto e criá-los assim ou dar meia volta e fazer como sempre foi com todos nós – porque, claro, se eu não sei porque quero assim, provavelmente é porque assim não é certo e/ou legal.

Até que me caíram nas mãos as duas leituras que reproduzo trechos ali em cima. E gente! Que óbvio! Claro! Jamais será possível e saudável que as crianças de hoje, criadas pelas crianças que nós fomos, sejam submissas dessa maneira. Nunca falou-se tanto sobre a palavra-chave “empoderamento”, sobre slogans como “meu corpo, minhas regras”. São os netos de uma geração que lutou pela liberdade de expressão. São pequenos seres que não terão o mesmo entendimento sobre submissão. Palavrinha que para nossas avós era parte intrínseca dos relacionamentos, que para as nossas mães significava desrespeito a mulher, que para a minha geração é palavrão. Pro Gabriel e pro Tomás, talvez ela sequer exista! Imagina que belezura! Eles podem ser a primeira geração a ter que olhar no dicionário o significado da malditinha. Talvez a estudem nas aulas de história, a ouçam nos ditados de português (a velha pegadinha de ç ou dois esses) ou até mesmo em estudos do meio nas aulas de ciências (devem existir seres vivos submissos a outros na natureza).

Isso não é muito maravilhoso? Submissão, o termo e tudo o que essa palavra causa, entraria em extinção. Com ela fora da jogada, o respeito retoma seu valor. Deixa de ser gratuito, desmerecido, fácil de se ter. Passa a ser realmente conquistado, verdadeiramente reconhecido. Nem o dólar ou o euro valeriam tanto quanto ele. A continuação desse caminho é a igualdade, que, como bem coloca Jane Nelsen, “não significa “o mesmo”. Quatro moedas de 25 centavos e uma nota de um dólar são muito diferentes, embora tenham o mesmo valor.”

Que sopro de liberdade no meu coração. Mais uma inspiração para continuar meu caminho instintivamente. E não vou mentir, fiquei ainda mais obcecada em explorar as mil (boas) maneiras de maternar.

“Ter filho homem é: Treinar a esquiva 24hs por dia.”

VLUU L100, M100 / Samsung L100, M100Li isso no facebook de uma amiga esses dias. Ri e concordei. Não sei se é exclusividade de menino. E acho que pode ser uma coisa de fase, independente de gênero.

Assim como acho que existem meninos mais tranquilos, devem ter meninas mais agressivas e que curtem tabefes, chutes, mordidas com a mesma intensidade. Mães de meninas, o que vocês me dizem?

Eu tenho dois meninos em casa. Um que se expressa bastante com muito choro e perigosas expressões corporais, outro que é mais bravo porém mais comedido. Enquanto o mais velho tem crises de xilique, choros incontroláveis, berros de leão, rosto vermelho de raiva, e – claro – tapas, chutes e mordidas, o caçula dá poucos e certeiros tapas, nos presenteia com expressões faciais que não escondem o quão puto ele está e pratica arremesso de brinquedos.

São pequenos ainda, e tudo isso pode mudar. Por enquanto tem sido mais fácil pra mim lidar com o bravo. Ele fica puto. Eu entendo a putisse. Ele extravasa de maneira mais focada e as vezes me pego pensando se quando ele for mais velho terá interessantes e objetivas formas de expor seus sentimentos e opiniões. Será que ele vai ser mais racional? Não penso se isso é bom ou ruim, porque isso depende dele. De como ele vai se sentir mais confortável e seguro ao se expor – eu estarei ao lado dele, e espero que assim possa ser sua parceira de escuta. Vejo nele um pouco de quem sou hoje. Mais ponderada, porém não menos brava.
Me pego assustada com o mais velho. Me vejo imensamente nele. Percebo dentro dele toda a raiva que já tive em mim e, de novo como ele, nunca soube muito bem como externa-la. Fico tranquila ao ver que ele a coloca pra fora, não guarda, não esconde, não a alimenta, e preocupada quando vejo que vem tão intensamente em sua forma física colocando a ele e a mim, pai e irmão sob o risco de se machucar.

Justamente por tanta identificação nesse comportamento, procurei novas e diferentes formas de lidar isso. Quero que ele se livre das maneiras perigosas e encontre outras mais saudáveis de se livrar disso (mais pra frente, a escolha de um esporte deverá ajudar) e entender como posso ser uma facilitadora nesse processo. Uma das primeiras novidades, antes mesmo de ele ter idade pra tanto, foi a escuta do choro. Vou captando comportamentos que sei que podem culminar numa explosão, aparentemente, sem sentido e quando consigo perceber um encontro entre esse momento e meu estado emocional disponível, levo ele para outro cômodo and let the cry begin! Com o tempo, já consigo discernir algumas vezes o choro que precisa ser escutado, e também me dou a liberdade de não escutar quando não me sinto emocionalmente bem ou paciente. É importante a disponibilidade e entrega nessa relação, até porque nem sempre acho que a escuta funciona e talvez não seja a melhor alternativa para todas as famílias. Fomos testando e entendendo aqui em casa. Com a terapia, esses momentos se tornaram ainda mais possíveis – pois que eu tenho a minha parceria de escuta também.

Muitas vezes o choro para antes que aquele bichinho tenha ido embora por completo, as vezes para porque ele, exausto, dorme, outras porque eu acabo me desconectando no meio do processo…

Isso aconteceu esse final de semana. Ele precisava, eu me disponibilizei. Ele se debateu, gritou. Ele quis me morder, me bater, me chutar. Gritou coisas pra mim que sei que não são dele. Foi intenso demais e acabei dando um grito no meio. No instante seguinte eu já estava me chicoteando internamente por isso e procurei retomar a conexão. A partir dali também deixei de estar tão passiva. Ele suava demais então comecei, mesmo contra a sua vontade, a tirar sua roupa. Até que ele pediu pra ficar pelado, e cada peça que eu tirava, mais calmo ele ficava. Começou a aceitar o colo. Chamou pelo pai que estava viajando. O choro foi diminuindo, virando um soluço e ele se acalmando.

Então encostou a cabeça no meu ombro e disse: “Eu não quero morder as pessoas, mamãe”. “Eu sei”, respondi segurando o meu choro e abraçando-o firmemente. Ele pediu pra dormir. Deitamos juntos (“aqui seu espacinho mamãe”), vesti nele um moletom limpo, meias e cueca. Contamos histórias, demos abraços e beijos e então ele quis levantar e ir brincar na sala. Exausta, quem dormiu fui eu.

Uma das coisas de ser mãe é que você nunca sabe se aquele caminho é o certo. Mas entendi ali que as vezes podemos saber quando não é o errado. Estamos num caminho bom.