“Vou te dar um toque, as pessoas acham que você virou mãe.”

Minhas manhãs quando o trabalho não é home office

Não consigo tirar essa frase da cabeça. Escutei ela no domingo quando encontrei uma amiga na livraria. Eu com meus meninos, ela com o menino dela.

Eu mãe, ela mãe. As pessoas que “acham que eu virei mãe” são mães e pais. Eu recebo isso com preocupação. Entendo no comentário das pessoas uma exclusão.

Fiquei com isso martelando alguns dias. O que quer dizer? As pessoas que falaram isso são amigos de trabalho. Acham que não voltei a trabalhar? Mas não me ligaram perguntando, estariam eles apenas supondo?

Primeira gravação do Gabriel.
Primeira gravação do Gabriel.

Eu emendei um filho no outro. A diferença entre eles é curta e a bola de neve de acontecimentos entre a chegada do Gabriel e o momento de poder colocar o Tomás na escola realmente não me permitiu trabalhar no que eu fazia antes. Nem da maneira que fazia antes. E a verdade é que eu também não queria – não quero.

Ainda assim, eu entendo como um comentário preconceituoso. Daquelas atitudes que temos e nem percebemos, sabe? “Eu não vejo problema nenhum/não tenho nada contra/acho normal, mas ela virou mãe.”

Se colocou o “mas”, meu amigo, é porque você vê problema sim! Você apenas não quer olhar pra ele.

Tomás making the living desde bebê
Tomás making the living.

Eu virei mãe mesmo. Super! De maneira mais intensa que jamais imaginei. Na primeira gravidez tinha certeza de que aquele serzinho que se adaptaria ao nosso estilo de vida e não o inverso.

Isso aconteceu de fato. Mas aconteceu também que nosso estilo de vida mudou. Eu tive, ainda tenho na verdade, muita dificuldade em entender isso. Não faria sentido que alguém de fora entendesse.

Só sei que não quero mais levar a vida que tinha antes e que era linda. Minhas vontades mudaram. Simples assim. Mas me assusta uma sociedade que ainda entende a mulher que tem vontade de passar tempo com os filhos como “virou mãe…”.

sonequinha na Globosat

Pessoal, eu continuo trabalhando, eu continuo curtindo muitas das mesmas coisas de sempre. Mas sabe o que é muito mais legal? Eu faço tudo isso com eles, meus parceiros de existência, que não me julgam e me aceitam por inteiro. Até mesmo quando eu os deixo na escola ou na casa de uma das avós para poder trabalhar, ver um show, jantar com o marido, tomar café com as amigas. Ser as outras coisas que eu também sou.

Eu faço tudo isso com uma frequência menor, mas é por opção viu! Não lamente. Foi uma escolha difícil e muito feliz que eu fiz. A consequência desse caminho é trabalhar ainda menos num momento onde todos no Brasil estão trabalhando muito menos por outras razões que não “virou mãe…”. Logo nosso pequeno dinheirinho fica focado em outros investimentos que diminuem a possibilidade de jantar fora com o marido, tomar café com as amigas, ver todos os shows que gostaria.

A gente ainda está entendendo esse equilíbrio. Chegamos na superfície há pouco tempo. Foi um longo, intenso e lindo mergulho que demos três anos atrás. Agora estamos tirando a cabeça da água. Respirando e absorvendo tudo. Podemos olhar em volta para entender nossa nova realidade. E escolhemos fazer isso com calma.

Não é possível voltar a vida anterior. Ainda bem.