Direita brigadeiro e esquerda batata doce. Ou: a luta pela democracia da comida

 

Ah! A Páscoa! Esse feriadinho maroto cheio de significados religiosos e consumistas. Essa sexta sem escola e almoço de domingo, sinônimos de stress para nós, pais da centro-esquerda da democracia alimentícia. Comunistas comedores de tomate, cenoura e melancia.

Centro-esquerda porque não fazemos lancheiras de extrema-esquerda a la Bela Gil. Centro-esquerda porque achamos uma delícia brigadeiro na colher feito em casa com os amigos. Centro-esquerda porque devoramos aquele cachorrinho-quente com a salsicha cheia de restos nojentos de porco, entupida de corante vermelho (claro!) e símbolo dos rega-bofes infantis. Centro-esquerda porque somos saudosos daquela memória afetiva de avó e criança na cozinha raspando a dedo aquele creminho que sobrou na tigela da batedeira enquanto o bolo assa no forno. Centro-esquerda porque acreditamos que uma boa alimentação se pratica desde o dia 1 e não se tenta consertar depois em programas de TV como aquele “Socorro! Meu filho come mal!” ou “Bem Estar”. Centro-esquerda porque entendemos que seu filho sempre comeu mal, você que só percebeu agora.

A indisposição que a (boa) alimentação infantil causa nas pessoas é tamanha que parece (e pelo visto é) uma discussão política. Cheia de lados, opiniões, julgamentos, ofensas, melindres,  falta de entendimento, empatia e respeito. Ninguém enfia um bife goela abaixo de uma pessoa vegetariana/vegana. Mas nega um biscoito passatempo pro seu filho que você logo sente o peso da direita brigadeiro. Muitos praticam gordofobia e/ou bullying infantil. Poucos percebem o quanto somos manipulados facilmente pela propaganda. Quase ninguém lê rótulos. Uma quantidade assustadora de pessoas acredita em tudo o que lê/ouve/vê na TV e em revistas de “grande circulação”.

Tenho entrado em pânico ultimamente quando me percebo saindo do espectro centro-esquerda e flutuando em direção da direita-liberal afim de evitar mágoas, olhares tortos, bufadas impacientes. “Ah! Só um suquinho de caixinha”, “Ah! Só um docinho desse!”, “Ah! Só um potinho de 1/10 de morango com mil aditivos e corantes”. E quando você vê, aquele um só, virou uma montanha. Porque o seu um só, meu amigo de direita, vira 10 quando todos do seu partido repetem o mesmo argumento.

A dicotomia imita as oposições políticas ferrenhas e ofensivas que estamos presenciando atualmente no Brasil. Tem raiva e desdém da direita, que não percebe o quão importante é a educação alimentar da criança. Ainda tem o subgrupo do “você sempre comeu isso e ta aí.”.

Num País onde programas de televisão ensinam a cozinhar, outros acabam ensinando a resolver problemas de saúde e de comportamento alimentar – muitos dos quais não existiriam se houvesse uma atenção maior ao inicio da prática na infância. A busca pela boa alimentação deveria ser um esforço conjunto, de todos, por todos e para todos. Livros, matérias, documentários, sites e mais sites. Bons médicos e especialistas. O conteúdo ta aí, quem tem acesso tem que deixar de ter preguiça.

Ninguém nasce comendo. É algo que se aprende, se pratica, se constrói a partir do exemplo. Assim como a moral, o caráter, o respeito, a empatia, o amor, a bondade. Mas dá muito trabalho e quem tem que educar são só os pais, não é mesmo? Esqueça ditos como aquele africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Nessa aldeia do século XXI, muitas vezes, depender da comunidade nos deixa fudidos, mal pagos, gordos e doentes.

Como fugir da cocaína do açúcar? Porque perder meia hora numa feira/sacolão toda semana, se no mercado tem tudo pronto, empacotado e dura meses? Porque beber a tão insossa água, mesmo que nosso corpo seja composto uns 70% por ela?

poster4Precisamos estragar o paladar logo na infância, desafiar os pais, perder conexões deliciosas entre as pessoas para depois deixar esse ser humano adulto correr atrás do prejuízo sozinho. E então julgá-lo, porque afinal de contas “é gordo porque quer”, “ninguém mandou não saber comer”, “câncer? Jura? Mas ele parecia tão saudável”. Nem vou começar a falar de refrigerantes, balas, bolachas recheadas, nuggets… Puta sociedade bacana né? Estamos de olho na sua participação por uma infância livre e saudável.

Acho que aqui, no centro-esquerda, estão pessoas que deixaram a preguiça de lado, pegaram a informação disponível e buscam um caminho. É uma pena que, ainda assim, sejamos taxados de radicais. Talvez fosse mais fácil sê-lo mesmo. Meus filhos comem chocolate, sim. Só não precisam ganhar mais de UM ovo de páscoa tamanho normal. É desnecessário e não deveria ser uma ofensa pra ninguém. Não deveria atingir você, quando o oposto atinge diretamente pequenos seres humanos que ainda estão entendendo como sobreviver neste mundo. E eles podem ganhar esse ovo participando de uma caça aos ovos do coelhinho, cheia de imaginação, diversão, conexão, cenouras, patinhas, cestas, frutas, ovo de chocolate, amigos, família.

Não precisam de 5 ovos grandes e de chocolate de má qualidade para serem felizes. Eu garanto que eles não vão amar mais ou menos a pessoa que os entope de porcaria. Mas eu tenho absoluta certeza de que serão eternamente gratos e amorosos com uma comunidade que se preocupou em ajudá-los a serem humanos saudáveis, que os mostrou que é possível comer 3 brigadeiros numa festa e não a mesa toda, que construiu junto um caminho cheio de lembranças com muitas cores, cheiros, sabores e amor.

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Não sabe onde tem info? #ficaadica

#Doc Muito Além do Peso (Tem no Netflix)

#Doc “Foodmatters” (Tem no Netflix)

#Doc “Fed Up” (Tem no Netflix)

#Série “Cooked” (Tem no Netflix)

#Matéria O gosto amargo do açúcar e toda a TRIP desse mês

#YouTube canal “Do campo à mesa” (tem também uma lista de livros e documentários bem boas)

#Doc “The sugar film”

pequenos diálogos – gabriel

 

interior – noite (por volta das 19h30/20h) – essa cena toda não durou 5 minutos

estamos na sala. brincando no que chamamos de “colorido” – que nada mais é que um pedaço do ambiente coberto por tatame de eva colorido, onde ficam os brinquedos e a maioria das brincadeiras acontecem.

gabriel, milagrosamente, está concentrado. ele brinca com uma casa das chaves. pela primeira vez consegue abrir e fechar as portinhas coloridas com alguma facilidade. está tranquilo e cada vez mais focado em manter o sucesso da atividade abre-fecha/destranca-tranca.

estou deitada ao lado dele. minha cabeça apoiada numa almofada e meu corpo estendido a seu lado, relaxando. apenas o observo. não vejo necessidade de interagir, isso significaria tirá-lo do pequeno-mini-transe em que se encontra. ele está bem. não está entediado, nem jogando tempo fora. está apenas focado e isso é uma coisa nova pra mim e – provavelmente – pra ele.

eis que então, depois de alguns minutos de silêncio entre nós (e minutos são horas no microcosmos de uma criança de 3 anos), ele me diz em tom de conclusão, quase que junto com um suspiro:

– eu só tenho essa vida mamãe.

gabriel, meu pequeno grande filósofo. 3 anos e 6 meses, 03/março/2016

Minha auto ajuda

Os TEDs Talks são, pra mim, a melhor invenção que a auto ajuda já teve. Uma das coisas que mais me agradam é que sempre quem fala conta como fracassou antes de descobrir toda aquela maravilha que vai dividir com a gente. Lembro de ter ouvido isso num dos milhares que já assisti: “O TED é uma reunião de fracassados.”.

Um dia caiu na minha mão o TED de uma mulher chamada Brené Brown. O nome era “The Power Of Vulnerability”. É um dos meus prediletos. Ela finalmente fez com que eu entendesse que o que falta no mundo é empatia, e como ela funciona. E como ela está em falta em doses cavalares. Mesmo as pessoas que acham que praticam a empatia, não a fazem. Eu não a fazia – e tenho certeza que nem sempre (ou quase nunca!) consigo.

Isso me abriu um novo mundo em relação aos meus filhos. Como me conectar com eles, como ser uma pessoa melhor pra eles, como me colocar em seu lugar e assim fazê-los entender um pouco do mundo.

Já tínhamos escolhido aqui em casa a história de não querer que eles entendam as coisas com o uso imperativo das palavras. Acreditamos na capacidade deles de compreender por outras formas e entendemos que a postura superior, imperativa, que ordena também distancia e pode causar sentimentos pouco agradáveis.

É muito difícil. Muitas e muitas vezes acabamos perdendo a mão e apelando para o caminho mais curto e enraizado da ordem, da obediência através do falso respeito, do descontrole emocional que se espalha como fogo.

Mas estamos tentando, dia após dia. E, muito importante, reconhecendo cada um desses momentos de perda da rota e indo até eles com desculpas e novas maneiras de se entender..

 

Te cutuca, me cutuco – nosso samba desse carnaval

 

Ontem o Gabriel entrou na cozinha e falou: “Mamãe, quero morder.” Ele sempre foi um mordedor. Quando bebê tudo ia a boca e mordia. Mordia brinquedos, roupas, eu, o pai… nem o gato escapou. Era um destruidor de chupetas e bicos de mamadeira. Só não mordia os amigos. Ou talvez uma vez ou outra.

Não fiquei tão surpresa porque ele anda bem agressivo ultimamente e morder sempre foi uma de suas demonstrações de insatisfação e frustração preferidas. O que me preocupou é que, nos últimos meses, ele anda bem mais agressivo. Fala coisas fortes, chuta, bate e morde com mais frequência. Criei na minha cabeça inúmeras justificativas para isso: o ciúme do irmão, a rotina bagunçada nas férias – depois a volta da estrutura diária que a escola organiza -, brigas, discussões, viagens, novidades… Cheguei a comprar um JoãoBobo para servir de saco de pancada. Funcionou e em 2 dias o brinquedo já estava murchando num canto da sala por algum buraco que ainda não achamos.

Então, lendo o blog português Mum’s the Boss (que eu adoro!), me deparo com o seguinte trecho do texto “A fragilidade dos 3 anos”:

“Aos 3 anos é normal a criança estar mais agressiva e zangar-se com facilidade. (…) Aliás, o morder pode voltar a aparecer nesta idade. Porquê? Porque tem a ver com a intensidade daquilo que ele sente E também com a incapacidade que o teu filho ainda pode ter em exprimir-se.”

É por essas e outras que leituras de blogs e livros tem sido importantes pra mim. O lance de ir apenas na intuição não funciona por aqui.

A escolha que fizemos foi a de sermos parceiros dos meninos durante nosso tempo juntos nessa vida, de estabelecer uma conexão real e uma relação saudável a longuíssimo prazo. Assim que tem sido de grande valia entender alguns processos e fases pelas quais eles passam/passarão e como podemos facilitar a entender a si mesmos.

Cheguei a considerar que talvez Gabriel tivesse alguma questão mais profunda a ser trabalhada por conta dessa agressividade. Mas descobrir que isso é uma característica normal para a idade, nos faz ter mais paciência e empatia para entender e acolher. E assim ajuda-lo a lidar com esses sentimentos e canalizá-los de maneira saudável. Pro resto da vida.

Existem muitos blogs, muita informação cruzada, muita bobagem por ai. Mas a internet pode ser uma ferramenta muito legal para buscar entender e modificar comportamentos culturalmente viciados das nossas vidas.

Uma das maiores transformações da maternidade em mim, foi a da vontade de ser uma pessoa melhor e de criar pessoas melhores. O mundo tá doido demais e criar seres humanos bacanas é sim uma responsabilidade muito grande e que eu agarrei com grande intensidade. Isso não significa ser um fardo, uma coisa pesada nem um mar de rosas. Pelo contrário, é dor e delícia o tempo todo, como tudo nessa vida. Uma amiga bem colocou esses dias:

Pra mim ser mãe é enfiar o dedo nas feridas várias vezes ao dia… tenho comportamentos que não quero ter, que não gosto de ter e quando me vejo no meio dele, já não quero seguir mas é difícil parar e sair. (…) Hoje enfiei forte e vieram lembranças guardadas em gavetas beeeeeem profundinhas. Cutuca fia. Agora guenta e vai digerir. E mudar o comportamento de preferência.

pequenos diálogos – gabriel

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Livro: Rock para pequenos

Com a página do livro (que já está todo desmantelado de tanto ver) na mão.

Gabriel: Esse é o David.

Regina: É?

Gabriel: David Bowie. (Ele fala boui certinho)
Ele moooorreu.

Regina: Jura?

Gabriel: Ele não conseguiu mais respirar e morreu.

Regina: …

Gabriel: Ele tá lááá no céu agora.

(Gabriel, 3 anos, 18/fev/2016)

o sono é importante. porra

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Sou daquelas que quando descobriu que estava grávida tinha certeza de que não iria ouvir o bebê chamar na madrugada. Então fui atrás. Porque se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que se você não sabe, procure. E mesmo achando que achou a resposta, tudo pode, e provavelmente vai, mudar quando a hora da prática chegar. O tal da “tentativa e erro” que falei no post passado.

Quando chegamos da maternidade, colocamos o Gabriel para dormir no moisés ao meu lado na cama. Eu tinha pânico de cama compartilhada, de que um de nós rolasse por cima daquela coisica tão pequena em quem até as roupas RN ficavam enormes. Hoje sei que não é bem assim. E dormir juntinho é sinônimo de dor e delícia.

Enfim, ele ficou ali. Dormindo no cesto até a virada do ano (4 meses). Na primeira noite no próprio quarto, ele foi ótimo. Dormiu de boa. E nós também. Sem abajur, sem luzinha, sem odiar. Ufa!

A maneira que fizemos naquela época foi a que entendemos como melhor e não nos arrependemos. Ele chorava mais pra dormir, e talvez não tivesse sido mesmo a hora dessa separação. Por isso sei que hoje faria diferente e, portanto, diferente foi com o Tomás.

Quando o Totom chegou fomos todos para o quarto dos pais. Levamos a cama do Gabriel, e Tomás dormia no moisés e depois num berço de viagem. Quarto superlotado de gente e de amor. Eventualmente um dos dois ia pra nossa cama. Mas de qualquer jeito, o sono era compartilhado. E assim ficou até mudarmos de casa, quando o Gabriel tinha 1 ano e 11 meses e o Tomás só 4 meses.

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Nosso quarto: Tomás no moisés, Gabriel na caminha numa soneca da tarde

Olha como a vida é fanfarrona! A gente ia fazer diferente, mas o menor acabou passando pro quarto na mesma idade do maior. A diferença? Continuavam compartilhavam o sono. Entre eles. Aqui eles passaram a dormir no mesmo quarto. Mesmo assim, vira e mexe aparecia um bebê na nossa cama de madrugada. No começo era mais o Tomás porque acordava pra mamar e eu preferia ficar com ele por perto para facilitar. Depois passamos a revezar mais, pois Gabriel ficava enciumado.

Posso dizer seguramente que só não fizemos cama compartilhada porque eu e Otavio andávamos exaustos demais e dormir com eles, na maioria das vezes, significava dormir numa posição quase caindo do colchão, o que nos deixava (mais) cansados e com dores no corpo no dia seguinte. E o sono compartilhado não era possível porque o quarto aqui é bem menor e não cabem camas extras. Ainda assim, um colchão no chão era estrategicamente posicionado quando as visitas noturnas eram frequentes, ou duplas, ou um filho doente curava a virose.

Foi uma escolha nossa e que foi bem recebida pelos dois. Eles dormem juntos desde sempre. Isso é muito legal. Raramente um acorda com o choro do outro. Acredito que isso fortaleça a relação deles. E raramente negamos um pedido para dormir na cama da mamãe e do papai. A única condição é que, se um está aqui, o outro fica no próprio quarto. E ai, meus amigos, lá vai mamãe ou papai se espremer e dormir na cama do filho.

(ah! acabou que eu sempre ouvi eles na madrugada, acho que a gente vem com um chip que nos acorda sempre que o bebê respira diferente.)

O poder do hábito

My beautiful picture
Pic by Silvia Viñuales

A história sobre como lidei com o medo de metrô do Gabriel teve um retorno surpreendente: algumas pessoas disseram que estavam fazendo errado com seus filhos. Discordo. Eu não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado para os filhos dos outros.

Desde a gravidez do Gabriel e em todas as surpresas e dificuldades que apareceram no caminho até aqui, os blogs sobre maternidade sempre estiveram presentes. Li muitos. Descartei vários. Filtrei muita coisa. E muitas vezes me senti assim também. “Estou fazendo tudo errado.”

A gente já acha naturalmente que está fazendo errado. Nem precisavam existir outras mães para a gente se sentir assim. Costumo dizer que a maternidade é solitária. Mesmo que você tenha um marido ótimo, que seus filhos tenham um pai ótimo, sua rede de apoio seja ótima, sua comunidade, seu chefe, suas amigas etc. Acho a maternidade bem solitária. E aí mora, pra mim, o legal de ler, pesquisar, conhecer outras histórias. Ela também é solidária. O que me levou ao “existem mil maneiras de se maternar, me conte a sua”.

Se você não estiver humilhando, negligenciando, fazendo uso de violências físicas ou emocionais, não tem como estar errado.

Cada gramado é um gramado. Cada família é uma família.

Temos o privilégio hoje de conhecer como outros indivíduos formam o seu núcleo e os caminhos que seguem. E assim rever, aperfeiçoar, testar, experimentar, mudar – ou não – o nosso minimundo.

Tem a velha reclamação do “só falam do lado bom…”. Muitas mães passando por dificuldades profundamente reais como depressão pós-parto, estafa física e emocional etc tem dificuldades em achar algum tipo de apoio. Me sinto imensamente inspirada quando vejo que alguma coisa deu certo, que achei uma maneira legal de lidar com determinada coisa. E é isso que acabo compartilhando. Não é por egoísmo, é vontade de mostrar para outras mães que as vezes temos uns dias bons. Não me sinto inspirada a contar as vezes que perco o rumo, que falho, que me percebo consumida pela famosa culpa. Eu quero mostrar e guardar como consegui acertar uma vez depois de tantas tentativas frustradas. Dias bons.

Em relação a história do medo, pode ter ficado a impressão de que eu sempre reajo dessa maneira. Não é verdade. Não mesmo!

O medo do Gabriel é uma questão pra mim. Ele tem muitos. Muitos mesmo. Todas as crianças tem medos. Umas mais, outras menos. O Gabriel está no grupo do mais. E a minha dificuldade em lidar com isso é enorme. Não que eu não tenha medo. Muito pelo contrário. Me cago por pouco. Sou insegura. Só que alguns medos tem um efeito impulsionador em mim. Eu tenho, mas sou do time “se tem medo, vai com medo mesmo”. Eu quase diria que o medo é o que mais me encoraja – por mais antagônico que isso seja. Outros eu simplesmente me recuso a sentir. Fujo.

Debaixo dos caracóis do meu filho, os medos paralisam. O aterrorizam. Ele não sabe lidar. Que criança sabe? Embora algumas sintam menos, outras se joguem como eu no “se tem, vai assim mesmo”, tem também as que, como o Gabriel, são mais sensíveis, precisam de mais tempo, mais acolhimento. Isso, confesso, eu já havia percebido, mas aquele dia no metrô foi a primeira vez que consegui achar uma maneira legal para lidarmos com isso – eu e ele.

E mesmo depois, já me peguei uma ou duas vezes falando que “não precisa ter medo não”. Justamente o que critiquei! A vida entra no automático muito facilmente, não é mesmo? A rotina, o cansaço e outras desculpas nos afastam do tempo e da disponibilidade que ações como aquela pedem – até que elas possam, enfim, se tornar um hábito.

“Medo do quê?”, “Não precisa ter medo”, “Que medo o quê!”, “Ai Gabriel…”, “Não precisa ter medo porque blá blá blá” essas e outras frases causam qualquer coisa menos conexão, passam qualquer outro sentimento menos o de acolhimento, e já escapuliram da minha boca. E provavelmente ainda vou derrapar e repeti–las. Mas talvez isso funcione para a sua família, talvez você tenha uma outra maneira de lidar com isso, talvez eu descubra outro jeito de me conectar com ele…

Tudo o que eu sei hoje é que naquele dia nós nos conectamos. Naquele momento. As vezes caio na rotina e não rola, as vezes estou mais presente e é uma delícia. A diferença é que agora eu me policio mais. E sigo por tentativa e erro, torcendo pra que um dia as boas descobertas das nossas relações se tornem o hábito.

Tem que ter medo, sim!

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Gabriel adora andar de ônibus. As janelas grandes, não ter cadeirinha nem cinto de segurança, a liberdade, a paisagem, ele conversa com o cobrador, quer visitar o motorista, muda de banco, fala oi pros outros ônibus… já vale a saída se for só pra ficar lá dentro. Quando descemos no ponto hoje, ele disse: “Na próxima vez vamos ficar um tempão né? No ônibus, né?”

Gabriel morre de medo do metrô. Começa na troca de ideias enquanto andamos na rua.

“Já sei! Vamos de ônibus?”

“Tive uma ideia, vamos de taxi?”

“Mãe, você vai de metrô, eu vou correndo tá? Tá?”

O pânico vem na escada. Fomos descendo e ele tagarelando sobre o metrô. Visivelmente tenso. Chegamos na máquina para carregar o Bilhete Único:

“Mas mãe, não vamos de metrô. Eu tenho medo.”

“Eu sei filho. O que você acha que pode acontecer?”

“Pode dar ruim, mamãe. Pode dar ruuuuuiiiimmmm…” (mini chorinho)

“É difícil dar ruim. Mas a gente faz o seguinte, vamos juntos o tempo todo. Você vai no meu colo até o final, tá? Aí, quem sabe, não dá ruim. Dá bom, né?”

Ele agarrou meu pescoço. Passamos a catraca. Escada rolante.

Nos posicionamos na plataforma. Senti que o trem do sentido contrário estava chegando. Contei pra ele. Ele desabou. Chorou. Alto, no colo, agarrado. Caguei para todos os olhares. Agarrei nele também, com a mesma intensidade. Não falei nada.

Senti que vinha o nosso. Falei baixinho no ouvido dele. Sem empolgação, sem alerta, sem emoção alguma – apenas informando. Deixa ele sentir o medo. O vento. O barulho. As pessoas. Deixa eu sentir ele com medo.

“Vamos entrar.” De novo no ouvido, de novo apenas informação. Estávamos quietos. Eu apenas respondia às suas perguntas. Sem explicações, sem exaltação. Não preciso direcionar os sentimentos dele. Deixa ele sentir. O medo. A curiosidade. A descoberta. A conexão.

Ele aqui. Macaquinho no colo. ‘Garrado como nunca. Rosto escondido no meu pescoço. Perguntou o que era aquele sinal. “Pra avisar que as portas vão fechar.” Força no agarrão!

“Vamos descer?”. Saímos. Ele desgarrou, ainda no colo. Perguntou onde o metrô ia. Encontrar os amigos? Pra casa? Conversar com o ônibus? Deu tchau.

Cochichei no ouvido dele: “Vencemos o medo, filho! Foi bom?”. Ele respondeu com o olhar, um abraço e beijos.

O medo tem disso. Te dá a chance de entender que apoio, parceria, cumplicidade, amor se mostra com conexão e não com palavras. Ficar tagarelando que não precisa ter medo, não resolve o medo, não passa segurança, não ensina a lidar com essa emoção tão forte, tão importante, tão presente a vida toda. Perguntar pra uma criança de 3 anos do quê ela está com medo, também não faz sentido. Acolhimento sim.

“Eu matei ele!” Contava depois do banho. Feliz. “Eu venci o medo e você também, mamãe!!”

Ele tem razão. Gabriel matou o medo do metrô, e eu matei um pouco daquele medo que a gente sempre tem de achar que estamos fazendo a coisa do jeito errado.

aqui, agora, com eles.

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Esse ano novo teve um gostinho especial pra mim. Foi a primeira vez que fiz uma reflexão mais profunda e fiquei muito feliz e orgulhosa do que encontrei. Dois mil e quinze foi um ano de revisitar a minha vida e me reencontrar em diversas etapas dela. Passei pelo pouco que lembro da minha primeira infância, forcei a memória para os anos seguintes, me envergonhei e me orgulhei da minha adolescência. Revi acontecimentos, analisei situações, pude escolher o que foi maravilhoso e o que não preciso mais. O que quero guardar, repassar, colar na minha memória, história, o que quero, posso, preciso mudar pra mim, para minha pequena família, pro nosso futuro desconhecido.

Quando estava grávida do Gabriel, uma amiga me falou sobre um livro chamado “O encontro com a própria sombra”. Eu nunca li. Pois só o título já me deu corda pra tanta coisa que nem sobrou tempo de ir atrás da obra.

A partir dessa frase, olhei pra muita coisa e com muitos olhos. De saudade, de saudosismo, de tristeza, de alegria, de raiva, de rejeição, de crítica, de negligência, de solidão, de amor, de intensidade, de culpa (nossa! Quanta culpa!), de conexão e de distanciamento. Só o nome desse livro me trouxe uma avalanche de sentimentos e reflexões, muitas vezes diferentes sobre um mesmo encontro, uma mesma sombra. Passei por fases de escuridão, de isolamento. Mas também por excitantes (re)descobertas.

Posso dizer, então, que 2015 me proporcionou a fantástica viagem no tempo que a maternidade já andava ensaiando em me levar.

Perdi milhares de certezas absolutas, descobri alguns bons e novos caminhos. Mas meu maior presente, e por isso 2015 foi tão especial, foi ter percebido a importância, assumido a responsabilidade e me empoderado do privilégio de estar com eles. Aqui. Agora.

Sobre termos tempo pra cada um de nós – 3. obrigado por vir

20150614_101849Enquanto o Gabriel é meu maluquetêra, o Tomás é meu guerreirão. Eita rapaz forte! Tomás é bravo, porém sábio. Ele não se abala (ainda) com as disputas do irmão. Sabe exatamente como conseguir um colo, um chamego. Não se faz de rogado: se quer um carinho, pega minha mão e mostra como quer o cafuné.

Tomás e eu temos uma coisa de cheiro, de pele. E ai você começa a entender que realmente não se ama um mais que o outro, mas diferente. Eu dou umas cafungadas daqui, ele me lambe dali. E em nosso tempo junto rola a maior pegação.

sempre tem café da manhã na padoca
sempre tem café da manhã na padoca

Ele é o cara que topa qualquer parada. Desde que meu colo esteja a disposição, a vida tá maravilhosa em todo lugar. Aqui ele se aninha e o tempo parece que para.

Tivemos nosso primeiro tempo juntos quando caí no repouso forçado da gravidez. Desde então, tiramos muitas sonecas juntos. Tom deita ao meu lado e fica só me olhando. E eu paquero de volta. Nós adoramos uma preguiça na cama.

Nesse momento de re-união da família, tivemos nosso primeiro tempo exclusivo há pouco e choveu a beça. Como eu, Tomás é de casa. Aqui ficamos, brincamos, rolamos no chão, rimos, nos abraçamos, ficamos deitados olhando pro teto, pro outro e brincando com nossos pés. Tom é tranquilo demais – até sentir falta do irmão e sair pela casa “bieu, bieu, bieu” levando na mão algum brinquedo preferido do Gabriel. Dormimos. Muito.

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Tom é zueira e sorriso

Não é que qualquer coisa tá bom. Mas se o contato pele a pele estiver disponível, tudo fica possível. Sei que isso deve passar em breve, quando ele chegar ali onde o mais velho está hoje. Mas, com ele aos 1 ano e 7 meses, tenho sido mãe de primeira viagem de crianças nessa fase. E a intensidade dessa relação veio desde sempre e, sorte nossa, nunca se perdeu. Tomás me preenche de amor e força. Ele não me deixa desistir, nem me render. Se o Gabriel já era meu combustível, Tom o deixou aditivado-super-power.

Foi Tom quem me empoderou. E todo dia, junto com o beijo de boa noite, eu agradeço: Obrigada Tom, obrigada por vir.