Seja a mudança que quer ver no mundo

Ter filhos é se questionar o tempo todo. Acho que é cansativo porque – dentre outras razões- tudo, absolutamente tudo, que fazemos eles estão ali, de olho. E, livres de qualquer filtro ou julgamento, absorvem comportamentos e atitudes. Também, com a auto estima em construção, são frágeis, vulneráveis.
São as crianças, e nós, os adultos. Costumo dizer que são crianças fazendo criancices, ainda bem! Permitem que nós voltemos um pouco a fazê-las também. Só não podemos esquecer que, mesmo no mundo de fantasia, o adulto da relação somos nós. Acredito que a maneira como lidamos com as mais diversas situações, os desafios que eles nos trazem e como os acolhemos quando eles são desafiados, fazem diferença a curto, médio e longo prazo. Na vida deles e na construção da nossa relação.
Tento criá-los para que possamos ter uma conexão forte e sincera. Não penso na nossa relação apenas hoje, mas nela daqui 10, 20, 30 anos. Se estaremos próximos na adolescência e na vida adulta. Se serei um porto seguro que acolhe sem julgar, sem repreender, aceitando que são humanos com menos experiências e mais vulnerabilidades. Não escondo quando me sinto vulnerável, nem quando erro. Peço desculpas, assumo e reconheço – como espero que eles o façam. Não coloco peso nas sensações ruins que me fazem ter, procuro mostrar de forma amorosa porque fiquei triste, chateada para que não se sintam culpados.
A culpa é uma merda. Não quero jamais que passem perto dessa que foi minha parceira durante praticamente uma vida e que, hoje, batalho para que fique fora do meu território. É barrada na fronteira.
Com isso, procuramos praticar algumas coisas aqui em casa. Conversamos muito sobre nossa história e nossas sensações durante a vida, infância principalmente, para chegarmos juntos a maneiras de lidar com os nossos.
Hoje caiu nas minhas mãos – ou telas , na verdade, o texto “10 coisas que não devemos dizer para as crianças“. A gente não segue nenhuma linha, seja antroposófica, montessori, mais rígida ou menos rígida. Vamos juntando informações e sentimentos e adaptando para o que faz sentido pra nós. Um pouco daqui, um pouco dali e um pouco de coisa inventada pela gente mesmo.
Não acho que existam listas definitivas, verdades imutáveis, padrões que se encaixem a todos. Nós, por exemplo, falamos palavrão. Escapa, é nosso defeito. Hoje em dia, levamos chamada deles mesmo. Costumo dizer que eles também poderão falar, quando souberem o que é e quando usar.
Muitas das coisas, estendemos para as crianças com quem convivemos. Tratamos elas como gostariam que nossos filhos fossem tratados. Acolhemos a todas.
No nossa casa, não rotulamos. Eu sempre fui mal humorada, agressiva, nervosa. para outros, sempre tive um humor diferente, ácido, honesto. Perto dos 40, descobri que não sou nem uma coisa nem outra. Eu estava agressiva, mal humorada, nervosa. Em outros lugares, com outras pessoas, eu estava bem humorada, a vontade. Gabriel não é uma criança medrosa, ele está medroso por alguma razão que não sabemos. Eu acolho seu medo e não o provoco. Não digo que não precisa ter medo ou que não tem razões para isso. Porque, sim, ele tem.
Tomás, por sua vez, está uma criança chorosa. Ele não é. Ele está. Então, pergunto porque está chorando, explico que falando enquanto chora alto eu não consigo entender o que ele diz. Quando entendo o motivo, pergunto se o problema é grande ou pequeno. Dependendo da resposta, pergunto se chorar vai resolver. Se ele diz que sim, eu o abraço e o deixo chorar. Quando a resposta é não, tento fazer com que ele procure soluções e juntos resolvemos. Eu não peço apenas que pare de chorar.
Fico bem irritada quando uma criança bate, cai, tropeça e os adultos dizem que já passou ou que não foi nada. Foi sim! Precisamos parar com isso. Doeu ou assustou. Uma injeção ou pomada no bumbum assado, vai doer sim! Vamos juntos lidar com isso. Não acho justo invalidar os sentimentos e reações da criança. Não foi apenas um tombo, só uma batidinha, uma frescura.
Outra coisa que não entendo. Adultos, principalmente quando são os próprios pais, riem ou tiram barato dos erros, tombos das crianças. Não tem graça. Os pais fazendo uma espécie de bullying ao invés de acolher o filho e se colocar à disposição dele para que aprenda ou supere aquele problema, tristeza ou frustração.
Não comento sobre dizer que vai embora caso o filho não obedeça, porque prefiro acreditar que não existam adultos que promovam essa sensação de abandono e de amor condicional. Isso machuca muito e tem consequências irreversíveis e terríveis para a criança e para a relação dela com o mundo e as pessoas.
Tentamos, pouco a pouco, ser a mudança que gostaríamos de ver no mundo.

Quando aquela mina vira mana.

Esse ano não tinha nem um pingado de dinheiro pra passar um final de semana fora de São Paulo nas férias. Terminei junho ficando vizinha dos quarenta e programando dias intensos de alternância entre crianças e home office no inverno.

Não tinha nem um pingadinho de grana pra uma celebração de aniversário, um final de semana fora de São Paulo ou mesmo um intensivão de cinema (a conta 4 ingressos + pipocas + água + estacionamento não fechava). Resolvemos ser ousados e nos dedicar às férias em casa, sem muito planejamento, sem curso de férias e com algum trabalho. “A gente se divide e eles entendem melhor nossa rotina real”. Ha – Ha – Ha

Ganhamos conexão, muita risada e briga também. Nós quatro, todo dia, toda hora, todo lugar junto deu pano pra manga: pra manga de amor, pra manga de treta, pra manga de ideias, pra muita manga de culpa.

E então o universo foi bem maroto e colocou na minha frente um trampo capcioso. Pouca (bem pouca mesmo sabe) grana, muitas horas de dedicação e, aparentemente, nenhum reconhecimento ou resultado (até agora). Na pindaíba e louca pra largar produção e escrever cada vez mais, conversamos em casa e topei. Em plenas férias (não que fora dela isso fosse okay), me vi num trabalho que não respeita horário, final de semana, filhos ou marido, vida própria. Retornos (“feedback” na linguagem de agência) durante a noite, madrugadas. Reunião de domingo. E muita culpa materna. Muita mesmo.

Mas então, como Poliana, procurei o lado bom. E essa loucura toda teve dois: Helen Ramos e Mah Lobo. Essas mamas guerreiras com quem dividi o trabalho, as noites, as pizzas e as confissões de mães – e também dividimos a culpa e muitas ideias maravilhosas.

Essas manas com quem me encontro neste vídeo, compartilhando um pouquinho da vibe boa, leve e divertida que rola quando a gente senta e fala desse intenso, misterioso e apaixonante lance de ter filhos.

Adorei o convite HelMother. Chama mais?

Primeira carta aos meus filhos

(Foto Otavio Sousa – papai)

Meninos,

Vocês não precisam dar beijo quando não querem. Não precisam abraçar ou serem abraçados quando não querem. Vocês não precisam sentar no colo de ninguém se não estão afim. Não são obrigados a tocar ou serem tocados por nenhuma outra pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. Isso inclui a mim e a seu pai. Nós também não podemos invadir o espaço que é de vocês – e o seu corpo é só seu.

Não deixem que os adultos confundam vocês exigindo respeito em forma de beijos, abraços, carinhos. E não confundam também.

Respeito é essencial. Devemos respeitar a todos. Mas ele não envolve contato físico. E respeito a vocês mesmos é tão importante quanto à qualquer outro ser humano.

Respeito envolve não abraçar quem não quer abraçar vocês. Não beijar, não tocar, não brincar nem brigar. Respeito também significa empatizar ao perceber um amigo passando por uma situação na qual ele não está confortável ou seguro. Meus amores, se alguém tentar violar seu espaço, seu corpo, seu emocional, sua cabeça… Se vocês perceberem um amigx numa situação dessas… Por favor… Espero que eu consiga mostrar no dia a dia como podem agir para se defenderem e ao próximo. Como é de direito de vocês exigirem respeito ao próprio corpo, às suas vontades. Como é importante que interfiram quando presenciarem o desrespeito à outras pessoas. Segurem quem estiver agindo desta forma e façam com que a situação pare.

Nessa história toda, temos um agravante horroroso, meninos. O machismo, a misogenia. Essas palavras feias e difíceis estão presentes até mesmo em quem é vítima delas. Protejam suas amigas, as mulheres a sua volta. Vocês são privilegiados. Nunca se esqueçam disso. São homens e brancos. Eu sei que é complicado entender, mas apenas esses dois detalhes os colocam automaticamente nesta posição. Um privilégio injusto. Então, finquem raízes onde devemos estar. Fiquem ao lado das mulheres, dos homossexuais, negros, pobres, índios, imigrantes, dos doentes, das crianças.

Nunca esqueçam as mulheres maravilhosas e fortes que vocês tem na sua vida – eu, Tia Pi, Vovó Lus, Vovó Cida, Tia Cá, suas primas Alice, Julia e Catarina, a Claudia, a MariaRita e inúmeras outras. Não esqueçam do dia em que fomos ao casamento do André e do Eric e como vocês correram felizes pela sala deles, como vocês adoram comer pipoca e dormir naquela cama enorme. Continuem cumprimentando os moradores de rua. Da sua primeira “tatuagem”, Gabriel, de super-heróis e piratas feita pela Ju com as canetinhas trazidas pela namorada dela. Totom, do amor e carinho e respeito enorme que a Francisca, negra, pobre e doente tem por você. Gá, lembra como foi lindo quando você perdeu o medo do Arthur e entregou a massinha pra ele? Autismo, Down e tantas outras condições não são motivos de afastamento, pelo contrário.

Esses são alguns fragmentos da vida de vocês que destaco para que entendam, mais uma vez, como são privilegiados. Desta vez, a palavra vem com outro significado. Temos muita sorte em conviver com tanta diversidade. E respeitá-las, amá-las e querer tê-las por perto e em segurança sempre. É rico demais esse universo, meus amores. Não deixem que tirem isso de todos nós, seres humanos. Não deixem que aprisionem quem vocês são. Nem quem são os outros. E essa é uma luta diária, que se dá, inclusive, nos detalhes.

Nunca, jamais façam piadas sexistas. Nem uma linha. Nem uma palavra. Nem riam de uma. Nunca, jamais se refiram a uma mulher com termos pejorativos como “puta”, “vadia” e tantos outros. Nunca, jamais aceitem de boca fechada um desrespeito pelo outro. E lembrem-se, nem sempre a pessoa que está sendo desrespeitada entende o que está realmente acontecendo. É esse o absurdo de sociedade na qual vivemos nestes anos. Muitas mulheres e homens foram criados dentro do contexto machista, e, sem saber, replicam essas atitudes. Eles não tem culpa, e vocês podem ajudá-los a entender.

Sempre, o tempo todo, peçam desculpas ao perceberem que passaram de algum limite. Que erraram. Que desrespeitaram. Quantas vezes a mamãe pede pra vocês? Pedir desculpas não é motivo de vergonha, não é humilhante, não te coloca em posição vulnerável. Pedir desculpas de verdade é para os fortes, filhos. Sejam fortes.

Nunca, meninos, jamais sejam coniventes com o machismo. Nem na sua forma mais disfarçada. Ele é traiçoeiro e pode te enganar. Fiquem atentos. Se policiem. Com um pouco mais de sorte, isso não será difícil e sim natural.

Me repreendam se algum dia eu escorregar. Essa é uma batalha que luto diariamente.

São infintos os motivos que me fizeram chorar na semana passada. E amanhã eu vou pra Paulista, me juntar ao que espero ser uma multidão. Lutar pelo feminismo, pela liberdade, pelo respeito. Vocês não vão. Eu queria levá-los, mas não estou preparada. Respeito meu tempo e o de vocês. Sintam orgulho das mulheres, filhos. E, nesse momento, vergonha dos homens.

O Dia das Mães não é nada, o começo da vida é tudo.

Eu não vou falar sobre o Dia das Mães, tamanha a importância que esse dia tem na minha vida. (Que é nenhuma.) Eu vou é falar de algo infinitamente mais relevante: o começo da vida. Ele mesmo.

Curiosamente, tive bons Dias das Mães. Ano passado ganhei uma tatuagem, esse ano fui ao cinema com o Otavio e vimos esse documentário maravilhoso. O Começo da Vida.

Pra ser bem clara no quão necessário se faz esse filme, enquanto assistia pensei “porque não passam isso na tv da maternidade?”. Poderia ser receitado pelo obstetra. Ou até vir de brinde naquela maletinha do merchandise que você ganha quando sai recém parida, com shampoo Johnson e baby wipes da Turma da Mônica. Afinal, são coisas que bebê precisa.

Veja, coisas que bebê precisa são respeito, conexão, cuidado, amor. O resto é rotina.

Como muitos disseram, o filme é essencial. Traz reflexões importantes, sensíveis, urgentes. Só que eu não consigo falar muito sobre ele.

começodavida

Me encontro, há alguns anos, num momento emocional muito intenso, um processo profundo de auto-conhecimento. Revisitas e reencontros com a minha história. Reflexos e descobertas importantes. Enormes. Desconstruções, inversão de verdades, de relações. Muitas e muitas memórias, lembranças, novas realidades.

O tempo todo, na sala de cinema, me vi conversando com o começo da vida. Falamos sobre eu e minha maternagem, confusa, julgada, cobrada. Como ela pode incomodar, atrapalhar. A sociedade não sabe lidar com mães. Não nos acolhe.

Eu-criança também estava lá. Eu-mulher, eu-cidadã, eu-feminista. Todas “eu” estávamos lá.

Olhava pra tela e conversava comigo. Passaram flashes na minha cabeça de momentos, pessoas, situações. Tudo que estava ali, finalmente problematizado. Olhava meu umbigo e ele crescia, já não cabia mais só em mim.

Minhas gravidezes, a tranquila e a difícil, meus puerpérios solitários, a descoberta da sororidade, o empoderamento no prédio ocupado do centro.

Gabriel, Tomás e seu ambiente, nossa relação, nossa rotina, nossos cansaços e conquistas. Seus amigos, sua escola, suas relações sociais e como somos, no geral, sortudos nesse aspecto. Mas é impossível ficar passivo ao continuar esse caminho e chegar nas crianças que não tem sonho. Que não tem café-da-manhã. Que não tem pais. E como isso tudo é um desaforo.

Nossa sociedade é burra e pequena. Mas nada esta perdido, apenas esquecido, egoisticamente deixado pra lá. Substituído pelo ego e pela ganância do ser humano e seu desrespeito a si próprio.

Saí de lá gigante. Saí de lá com uma missão.

Estamos formando a humanidade, cara!

E no fim das contas, descobri que achava difícil falar sobre o documentário porque todas nós, mães, e nossos filhos, somos “O Começo da Vida”. Somos este filme. Todos os dias.

** No site do filme tem a lista das salas de exibição em todo o País. E você também pode organizar uma sessão pelo VideoCamp. Não tem desculpa pra não ver. **

 

 

Direita brigadeiro e esquerda batata doce. Ou: a luta pela democracia da comida

 

Ah! A Páscoa! Esse feriadinho maroto cheio de significados religiosos e consumistas. Essa sexta sem escola e almoço de domingo, sinônimos de stress para nós, pais da centro-esquerda da democracia alimentícia. Comunistas comedores de tomate, cenoura e melancia.

Centro-esquerda porque não fazemos lancheiras de extrema-esquerda a la Bela Gil. Centro-esquerda porque achamos uma delícia brigadeiro na colher feito em casa com os amigos. Centro-esquerda porque devoramos aquele cachorrinho-quente com a salsicha cheia de restos nojentos de porco, entupida de corante vermelho (claro!) e símbolo dos rega-bofes infantis. Centro-esquerda porque somos saudosos daquela memória afetiva de avó e criança na cozinha raspando a dedo aquele creminho que sobrou na tigela da batedeira enquanto o bolo assa no forno. Centro-esquerda porque acreditamos que uma boa alimentação se pratica desde o dia 1 e não se tenta consertar depois em programas de TV como aquele “Socorro! Meu filho come mal!” ou “Bem Estar”. Centro-esquerda porque entendemos que seu filho sempre comeu mal, você que só percebeu agora.

A indisposição que a (boa) alimentação infantil causa nas pessoas é tamanha que parece (e pelo visto é) uma discussão política. Cheia de lados, opiniões, julgamentos, ofensas, melindres,  falta de entendimento, empatia e respeito. Ninguém enfia um bife goela abaixo de uma pessoa vegetariana/vegana. Mas nega um biscoito passatempo pro seu filho que você logo sente o peso da direita brigadeiro. Muitos praticam gordofobia e/ou bullying infantil. Poucos percebem o quanto somos manipulados facilmente pela propaganda. Quase ninguém lê rótulos. Uma quantidade assustadora de pessoas acredita em tudo o que lê/ouve/vê na TV e em revistas de “grande circulação”.

Tenho entrado em pânico ultimamente quando me percebo saindo do espectro centro-esquerda e flutuando em direção da direita-liberal afim de evitar mágoas, olhares tortos, bufadas impacientes. “Ah! Só um suquinho de caixinha”, “Ah! Só um docinho desse!”, “Ah! Só um potinho de 1/10 de morango com mil aditivos e corantes”. E quando você vê, aquele um só, virou uma montanha. Porque o seu um só, meu amigo de direita, vira 10 quando todos do seu partido repetem o mesmo argumento.

A dicotomia imita as oposições políticas ferrenhas e ofensivas que estamos presenciando atualmente no Brasil. Tem raiva e desdém da direita, que não percebe o quão importante é a educação alimentar da criança. Ainda tem o subgrupo do “você sempre comeu isso e ta aí.”.

Num País onde programas de televisão ensinam a cozinhar, outros acabam ensinando a resolver problemas de saúde e de comportamento alimentar – muitos dos quais não existiriam se houvesse uma atenção maior ao inicio da prática na infância. A busca pela boa alimentação deveria ser um esforço conjunto, de todos, por todos e para todos. Livros, matérias, documentários, sites e mais sites. Bons médicos e especialistas. O conteúdo ta aí, quem tem acesso tem que deixar de ter preguiça.

Ninguém nasce comendo. É algo que se aprende, se pratica, se constrói a partir do exemplo. Assim como a moral, o caráter, o respeito, a empatia, o amor, a bondade. Mas dá muito trabalho e quem tem que educar são só os pais, não é mesmo? Esqueça ditos como aquele africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Nessa aldeia do século XXI, muitas vezes, depender da comunidade nos deixa fudidos, mal pagos, gordos e doentes.

Como fugir da cocaína do açúcar? Porque perder meia hora numa feira/sacolão toda semana, se no mercado tem tudo pronto, empacotado e dura meses? Porque beber a tão insossa água, mesmo que nosso corpo seja composto uns 70% por ela?

poster4Precisamos estragar o paladar logo na infância, desafiar os pais, perder conexões deliciosas entre as pessoas para depois deixar esse ser humano adulto correr atrás do prejuízo sozinho. E então julgá-lo, porque afinal de contas “é gordo porque quer”, “ninguém mandou não saber comer”, “câncer? Jura? Mas ele parecia tão saudável”. Nem vou começar a falar de refrigerantes, balas, bolachas recheadas, nuggets… Puta sociedade bacana né? Estamos de olho na sua participação por uma infância livre e saudável.

Acho que aqui, no centro-esquerda, estão pessoas que deixaram a preguiça de lado, pegaram a informação disponível e buscam um caminho. É uma pena que, ainda assim, sejamos taxados de radicais. Talvez fosse mais fácil sê-lo mesmo. Meus filhos comem chocolate, sim. Só não precisam ganhar mais de UM ovo de páscoa tamanho normal. É desnecessário e não deveria ser uma ofensa pra ninguém. Não deveria atingir você, quando o oposto atinge diretamente pequenos seres humanos que ainda estão entendendo como sobreviver neste mundo. E eles podem ganhar esse ovo participando de uma caça aos ovos do coelhinho, cheia de imaginação, diversão, conexão, cenouras, patinhas, cestas, frutas, ovo de chocolate, amigos, família.

Não precisam de 5 ovos grandes e de chocolate de má qualidade para serem felizes. Eu garanto que eles não vão amar mais ou menos a pessoa que os entope de porcaria. Mas eu tenho absoluta certeza de que serão eternamente gratos e amorosos com uma comunidade que se preocupou em ajudá-los a serem humanos saudáveis, que os mostrou que é possível comer 3 brigadeiros numa festa e não a mesa toda, que construiu junto um caminho cheio de lembranças com muitas cores, cheiros, sabores e amor.

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Não sabe onde tem info? #ficaadica

#Doc Muito Além do Peso (Tem no Netflix)

#Doc “Foodmatters” (Tem no Netflix)

#Doc “Fed Up” (Tem no Netflix)

#Série “Cooked” (Tem no Netflix)

#Matéria O gosto amargo do açúcar e toda a TRIP desse mês

#YouTube canal “Do campo à mesa” (tem também uma lista de livros e documentários bem boas)

#Doc “The sugar film”

Não basta ser pai, tem que participar – a frase que não faz sentido

Essa semana encontramos um amigo que não víamos há algum tempo. Seu filho tem a idade do Gabriel, 3 anos, e eles são muito parceiros. Então que no meio da conversa, ele disse: “blá blá blá (não vem ao caso) porque, porra!, eu sou o pai né. Não sou um cara ali, sou o pai!”

Nesse instante uma ficha me caiu. Tenho a sorte de conhecer muitos pais. Não o cara que ajudou a por fermento no bolo. Pais. Assim. Com P maiúsculo.

Acho engraçado quando dizem que “fulano é um pai presente.” Ou as variáveis: pai ativo, pai participativo, pai que ajuda… Cara! Ou é pai ou não é. Ou é pai ou é só um cara ali. Vamos combinar isso sociedade?

Crescemos acostumados a enaltecer o cara que exerce a paternidade com entrega, parceria, presença, amor e adjetivarmos eles com palavras que nos ajudam a deixar claro o quão bons pais eles são. Enquanto que aqueles que não estão, não fazem, não querem, abandonam, não ligam, não exercem, não participam são os pais.

Trocamos pessoal. Trocamos as bolas. Mas ainda há tempo de corrigir.

Vamos lá. O cara que a gente elogia é pai.

Assim sendo, o outro cara, sim, precisa ser adjetivado, explicado, desenhado. Ele que deveria ser a exceção. Ele que é o cara estranho, o cara que não cumpre seu papel. É ele o cara que precisa entender quem é para que tenha oportunidade de rever seus comportamentos e conceitos e também para que outras famílias não caiam na armadilha do pai que acha que trocar uma fralda é fazer demais.

Eles são os pais ausentes, os pais negligentes, os pais que ajudam (sim, isso é uma maneira triste de referir-se a um pai e não um elogio), os pais distantes, os pais que as vezes nem merecem esse título.

Minha mãe uma vez me disse “eu não fiz com o dedo”. Eu amo essa frase. Porque é isso. Com exceção das escolhas de outras formas de parentar (como produção independente por exemplo), a mulher não fez com o dedo, não fez com o vibrador, não fez sozinha. Tirando os abusos que geram gravidez, é esperado que duas pessoas tenham topado entrar nessa – não importa se transando, fazendo inseminação ou adotando. São duas pessoas independentes de gênero e título que, espera-se, chegaram juntas ao desejo de ter uma criança. Caso contrário, não tenham, por favor.

Não é surpreendente se elas fizerem tudo isso com amor, entrega e algumas abdicações. Não deveria ser.

Surpreendente e inaceitável é quando uma delas supõe que a outra tem mais deveres, obrigações e até talento – ou o contrário, que ela própria tem tudo isso de menos.

Porque nesses casos, meus amigos, talento nem sempre é inato – eu bem sei. Deveres e obrigações não vem num manual de instruções parido com o bebê.

Mas amor e todo o resto sim. E só aumenta com o tempo.

Sobre pintos, xoxotas e gêneros

Gabriel descobriu o pinto. E descobriu que, assim como ele tem pinto, outras pessoas também tem. Só que a mamãe não tem. “A mamãe tem xoxota e o Gabriel tem pinto.” Essa frase é repetida diariamente na hora do banho – tomamos todos juntos aqui em casa, é uma maravilha! Se está no chuveiro com o pai a frase é “Você também tem pinto papai?”.

Quando essa história começou, expliquei pra ele que tem gente no mundo que tem pinto e tem gente que tem xoxota. Então começamos uma lista: papai tem pinto, mamãe tem xoxota, Totom tem pinto, Tia Pi tem xoxota, o leão tem pinto, a leoa tem xoxota… e assim seguimos. Ele adora dizer que meu pinto está escondido dentro da minha xoxota e faz essa mesma observação para todas as pessoas que tem xoxota.

Dividir isso com alguns amigos num jantar foi divertido. Tivemos risadas e mais vinho. Mas também uma certa polemicazinha: o fato de que eu explico pra ele que existem pessoas com pinto e pessoas com xoxota. Eu não disse o tradicional: mulher tem isso e homem tem aquilo.

A primeira vez que tocamos nesse assunto eu usei “gente” e “pessoa” sem querer. Depois cheguei a conclusão de que eu não preciso ligar os pontos pra ele. Mesmo porque, acho que fica mais orgânico o entendimento dos diferentes gêneros se nunca houver o rótulo.

Um amigo não concordou. Acha que mulher tem isso e homem tem aquilo e que, quando for necessário, explica-se que aquela pessoa trocou isso por aquilo ou aquilo por isso.

Minha ingenuidade (talvez) me leva a crer que vem chegando uma geração que não terá muita paciência para algumas explicações. Eles aprendem muito rápido. Na minha cabeça, essa intencionalidade de não diferenciar gêneros não atrapalha o claro entendimento de que a maioria das mulheres com quem ele convive tem xoxota e também, espero, não causará estranhamento quando ele descobrir que a Thammy Miranda também tem.

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Foto: Instagram Thammy Miranda

Vislumbro um mundo onde Caitlyn Jenner não precisaria se expor num reality show, pois o fato de ser transgênero não será mais visto como algo fora da casinha. A polêmica caminha pela outra mão: quem é retrógrado e pensa que homem é homem, mulher é mulher e o resto é coisa de vagabundo maldito é que vai sofrer as consequências de suas mentes fechadas e opiniões sem fundamento – ou, em alguns casos, fundamentadas em pensamentos e teorias de séculos atrás.

Foto: Annie Leibovitz para Vanity Fair
Caitlyn Jenner Foto: Annie Leibovitz /Vanity Fair

Esse ser humano que duramente não aceita as pessoas “diferentes” não percebe que está se tornando ele o que não se encaixa mais na sociedade moderna? (pós-moderna? Uber-moderna? Alguém sabe?).

Não me diga que isso é utópico. Não me traga essa tristeza. Entenda que não falo de amanhã nem do ano que vem. Mas imagino que quando Gabriel e Tomás forem adultos, se nós enchermos essa geração de conceitos de amor, paz, união e – especialmente – empoderamento e empatia, talvez até mesmo os herdeiros dos herdeiros dos herdeiros dos Malafaias e Bolsonaros tenham salvação.